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Alberto Sena
albertobatista@superig.com.br
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Alberto Sena
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9/9/2010 13:42:17
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O BEM-ESTAR DE TODOS
ALBERTO SENA
O barulho incomoda os montes-clarenses. E é tanto barulho que chegou até aos ouvidos do grande jornalista e cronista José Prates, lá no Rio de Janeiro (RJ). Assim como também chegou aos nossos ouvidos e se misturou aos barulhos desses píncaros da Serra do Curral. A essa altura da barulheira, já deveríamos ter em mãos um estudo de abrangência maior que permeasse as áreas política, antropológica, socioeconômica, ambiental, cultural etc. para pelo menos encontrar os porquês de quase duma hora para outra as pessoas terem passado a fazer (e até a importar) barulhos, como se os tímpanos dos outros fossem de couro curtido para tambor. É inegável, o Brasil cresceu. Os números aí estão para comprovar. A inflação está sob controle; o Pré-Sal surge com boas perspectivas; vêm aí as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol. Mas fica no ar a pergunta do ex-presidente do Santander, Fábio Barbosa. Em recente palestra que circula na internet, ele indaga: ‘como é ir bem num País que vai mal’? Não vamos nos iludir: o Brasil vai mal por outros lados. E o pior dos males é justamente a crescente ‘falta de educação’. Educação dita sob todos os aspectos. Incluída nesse rol a falta de civilidade que a cada dia se agrava mais. A questão do barulho em Belo Horizonte ou em Montes Claros está intimamente relacionada a essas faltas: de educação e de civilidade. De tanto faltar e de tanto repassar essa falta, as pessoas perdem a noção do certo e do errado em relação ao espaço do outro. Então avançam sem o menor escrúpulo como se limites não existissem. A falta de respeito pelos ouvidos do outro chegou a tal ponto que certos cidadãos se acham no direito de ligar o som (do carro, da casa ou do estabelecimento comercial) ao ponto de estremecer as paredes a qualquer hora do dia ou da noite. Essa gente é incapaz de imaginar a possibilidade de estar prejudicando até a si mesma. Quem se sujeita ao barulho com o tempo tende a ficar surdo. Não é necessário ser otorrinolaringologista para percebe o risco que se corre ao se expor a tanto barulho. Quando a pessoa se acostuma com o barulho é então sinal do mal instalado. Os cidadãos montes-clarenses mais lúcidos percebem: o barulho, somado a outros tantos problemas da cidade, é que afasta Montes Claros do ranking das vinte cidades brasileiras de porte médio candidatas a metrópoles. Enquanto a população da cidade cresce, e com a população crescem os problemas, as autoridades e os cidadãos montes-clarenses assistem ao surgimento de favelas. A população incha. Os problemas socioeconômicos aumentam à medida que Montes Claros se perde em meio ao crescimento populacional. O mais intrigante, no entanto, é o silêncio dos cidadãos que cumprem com as suas obrigações. Mal reclamam entre eles mesmos, e juntos não se posicionam frente aos problemas. O que mais espanta é o distanciamento das pessoas de bem, como se o barulho (e outros problemas) não lhes dissesse respeito. Mas tudo está interligado. Ninguém é uma ilha. Daqui a pouco, de uma forma ou de outra, o problema bate às portas. É para ficar de boca aberta com a condescendência das autoridades constituídas em relação aos que fazem barulho, desrespeitam a paz e os direitos alheios. Passa da hora de os três poderes tomarem uma atitude em relação aos abusos, antes que esses abusos se tornem incômoda rotina. E a partir deles se constitua, de fato, o ‘quarto poder’. Montes Claros é a mais importante cidade entre Belo Horizonte e Salvador. Sempre foi considerada ‘cidade pólo’. Antes recebia gente de toda a região Nordeste. Hoje recebe gente de todo o Brasil. Pelo destaque como urbe hospitaleira, entre outras qualidades, Montes Claros deve figurar entre as cidades que merecem tratamento ‘vip’ quanto a obter recursos municipal, estadual e federal. Mas para ser reconhecida, a cidade precisa do posicionamento firme dos seus representantes políticos e a compreensão das pessoas de boa vontade em relação a questões primárias, como por exemplo: ‘o direito de um termina onde começa o direito do outro’. O barulho bom de ouvir devia ser feito pelos políticos em busca de recursos públicos para oferecer mais educação e construir o bem-estar de toda a sociedade montes-clarense.
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Alberto Sena
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3/9/2010 09:03:53
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OS QUATRO DO APOCALIPSE
Alberto Sena
Hoje eu fui à Biblioteca Pública de Belo Horizonte. Sabem quem encontrei logo na porta de entrada? ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’: Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Peregrino. Dois deles estavam sentados num banco de madeira e estrutura em ferro e os outros se encontravam em pé. Eram esculturas em bronze, evidentemente, mas pareciam tão tranquilos; conversavam. Ao olhar os quatro a impressão era que o autor das esculturas, Leo Santana teve o poder de congelar uma época. Tenho minhas dúvidas se os quatro estivessem vivinhos da silva, em algum momento sentassem hoje para conversar bem naquele lugar. Os quatro marcaram uma época e certamente teriam coisas a reclamar dos nossos tempos. Talvez eles nem se arriscassem sair de casa com receio de atropelamento por essas ruas abarrotadas de carro e motocicleta, qual mosquitinho zunindo pelo asfalto. Por um momento, hoje eu bati um papo surdo e mudo com eles. E teve um instante em que passou por minha cabeça a seguinte indagação: ‘será que eles imortalizados em bronze é que são os mudos, os surdos e os cegos, ou ao contrário, nós que falamos, escutamos e enxergamos’? A minha ida à Biblioteca Pública remeteu-me a outra Biblioteca Pública, mas de Montes Claros, ali na Praça Dr. Chaves, próximo dos Correios em meados da década de 1950. Terezinha Batista ainda não tinha o sobrenome Murça. A primeira a nascer entre os 11 filhos de dona Elvira e Zé Bitaca (ele teria feito, se vivo fosse, 107 anos de idade neste dia quatro de setembro de 2010), ela trabalhava à noite na Biblioteca Pública de Montes Claros. Lembro-me de ter ido várias vezes com ela para servir de companhia, pois desde aquela década, século passado, ‘a presença de homem impõe mais respeito’, diziam, mesmo sendo o homem um menino de sete/oito anos de idade. A biblioteca funcionava no andar de cima de um pequeno prédio da Praça da Matriz. Para entrar era preciso subir escadas. A partir das escadas, certos jovens da cidade aproveitavam para fazer baderna. Daí Terezinha não poder ir trabalhar sem uma companhia. Os jovens costumavam até a desligar o medidor de energia, deixando as pessoas interessadas em ler e pesquisar às escuras. Claro, Terezinha, mais conhecida por Tê, nada podia fazer para impedir, às vezes, pequenas depredações por parte dos jovens que iam à biblioteca só com a finalidade de fazer baderna. Muito menos o menino que a acompanhava podia fazer alguma coisa. E polícia naquela época já era raridade. Entretanto, tudo não passava de excessos de juventude, coisas que acontecem a todas as gerações. Na ocasião, os bagunceiros colavam chicletes ou rasgavam páginas de livros e apagavam a luz. Gritavam e assobiavam. Desciam as escadas correndo. Era como um tropel de animais. Hoje, os jovens daquela época, se vivos ainda forem, devem estar de cabelos esbranquiçados. Poderia até citar aqui alguns nomes, mas creio ser desnecessário. Se porventura alguns deles lerem este texto, poderão até dar gargalhada pela peripécia em si. Mas a essa altura da vida já terão consciência do quanto perderam por não terem lido os belos livros de Malba Tahan (pseudônimo do matemático paulista nascido em Queluz, Júlio César de Melo e Souza), as fábulas e contos dos Irmãos Grimm; o livro ‘Robson Crusoé’, de Daniel Defoe; ou ‘Os Três Mosqueteiros’, de Alexandre Dumas; ‘Viagens de Gulliver’, de Jonathan Swift; ‘As Mais Belas Histórias’, de Lúcia Casasanta, entre muitos outros que fizeram a cabeça de gentes. Na vida tudo passa. Assim como passaram os excessos da juventude dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, em Belo Horizonte. Sabino subia e descia o arco do viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte. Aventura perigosa. Eles próprios passaram. A diferença é que os quatro construíram uma obra literária. A obra não passa. Nem passaram as imagens deles. Viraram esculturas em bronze. Ali na porta da Biblioteca Pública são como guardiões. Queira Deus estejam livres de eventuais excessos da juventude desses tempos cibernéticos.
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Alberto Sena
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30/8/2010 15:35:18
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VAMOS À FAZENDA DE IDALÍCIO
Alberto Sena
Bom mesmo era quando pai falava: ‘amanhã, nós vamos à fazenda ‘Aliança’, de Idalício`. Nem aguentava esperar o dia seguinte chegar para ir a pé à fazenda ‘Aliança’, de Idalício. Ia dormir cedo que era para a noite passar rápido e o dia seguinte chegar logo. Bem cedinho, aos primeiros clarões do dia, pai acordava e chamava para tomar café. Depois, pé no caminho. A fazenda de Idalício era longe. Tínhamos de andar muito debaixo do sol causticante de Montes Claros. Outro dia, conversava com o advogado e ex-deputado federal Genival Tourinho, o que denunciou a ‘Operação Cristal’, na ditadura militar, e ele me disse que a fazenda ainda existe. Gostei de ouvir a informação, porque conservo boas lembranças daquele lugar. Idalício era irmão de Petronilho Narciso. Petronilho era compadre de pai e morava na Rua Carlos Pereira. Era pai – entre outros – de Pedro, Chiquito, Maria Inês, Petronilho Narciso Jr. Este último, era menino de sete/oito anos de idade, regulava comigo. Éramos, inclusive, colegas de sala no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, ali na Praça Dr. João Alves. Três imagens me vêm à cabeça ao me lembrar das vezes em que fomos a pé à fazenda ‘Aliança’, de Idalício, meados da década de 1950. Imagem 1: Chegávamos, e de longe vimos algumas pessoas na frente da sede da fazenda. Ficamos pensando ‘o que será que aconteceu?’ e quando nos aproximamos mais vimos: o capataz da fazenda havia matado a pau uma cobra enorme e a estendera no arame da cerca. Exibia-a como troféu. Ficamos impressionados, parecia que em todo canto da fazenda tinha cobra e era um perigo andar por ali sozinho. Imagem 2: nos fundos da sede da fazenda havia um grande pomar, cheio de pés de manga. Na safra, era tanta manga que ninguém dava conta. Virava lama debaixo das mangueiras. As pessoas derrubavam manga de todo jeito: na vara, na pedrada ou na mangada, quer dizer, atiravam manga verde para derrubar manga madura. De repente, ouviu-se um tiro. Era de espingarda ‘chumbeira’ do capataz, que a disparou para o alto contra um bando de maitacas que passava fazendo ‘krec’, ‘krec’, ‘krec’. Duas delas caíram aos nossos pés. Agonizavam. Uma delas ficou comigo. A outra ficou com Maria Inês. E ela exibia a maitaca, quando um dos cachorros da fazenda avançou na mão dela e a arrebatou. A menina chorou. Não sei se de susto ou porque perdera a maitaca para o cachorro. Imagem 3: era de manhã e voltávamos da fazenda `Aliança`, de Idalício. Pai, Petronilho (filho) e eu. Era uma trilha em meio a arbustos com grandes árvores dos lados, mas bem afastadas. Pai levava uma maleta na mão. Na copa da árvore mais alta, vimos uma ave enorme. Devia ser um gavião. Exibia o peito esbranquiçado. Pai colocou a maleta no chão. Abriu-a. Retirou de dentro dela uma espingarda desmontada. Montou-a. E em seguida carregou-a. Levou a espingarda à altura do ombro e fez mira contra a ave posada na copa da árvore. Para mim, tudo aquilo era novidade: nem sabia que pai tinha espingarda. Fiquei estático. Torcia em silencio para que o gavião percebesse as intenções de pai. O cano da arma estava apontado para o bicho. Eu rezava. Pedia a Deus para fazer a ave voar. E parece que Deus atendeu porque antes de pai disparar o gatilho a ave bateu asas e voou. Voou em círculos. Sumiu das vistas. Pai retirou as balas da espingarda. Desmontou-a. Em seguida guardou-a na maleta. E seguimos viagem, a pé, de volta a Montes Claros. Em casa, ao chegarmos, mãe, como sempre fazia, encheu uma bacia com água morna, pôs um punhado de sal, e o menino tomou ‘um banho de sal’. Segundo mãe, era para ‘descansar as pernas’, porque a fazenda ‘Aliança’, de Idalício, era longe. Na cabeça do menino, alheio ao tempo, era preciso andar horas e mais horas para chegar à fazenda ‘Aliança’, de Idalício, hoje dentro do perímetro urbano de Montes Claros.
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Alberto Sena
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24/8/2010 16:02:59
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O Bisneto do Grande Babieca Alberto Sena
Quando chegava dezembro é que era bom! Aliás, não sei se todos já repararam, mas Montes Claros ainda hoje fica boa é quando o mês de dezembro chega. É porque sempre se tem a esperança de que chova o suficiente para fertilizar a terra, garantir o feijão de amanhã e as pastagens para o gado, e é então que o mercado fica ‘cheínho’ de frutas. É da melhor qualidade o Mercado Municipal de Montes claros. Vamos pela ordem: primeiro vem o pequi, depois o umbu, o cajá-manga, a pitomba, a cagaita e a manga. Manga ‘comum’, manga ‘espada’, manga ‘carlota’, manga ‘ubá’, manga ‘coquinho’, manda ‘rosa’ etc. É manga que não acaba mais. Aliás, acaba. A safra de manga é rápida. Começa ali pelo final de novembro e vai até pelo início de fevereiro, se muito. Mas quem quiser chupar manga fora de época pode fazê-lo porque os pomares irrigados dão frutos o ano inteiro. São os milagres da água. Ainda não há variedade, mas é possível chupar manga ‘haden’, essas mangonas encontradas em ‘sacolões’. Tudo que foi escrito até aqui foi para lembrar o tempo de chupar mangas do tipo ‘comum’, como são conhecidas aí em Montes Claros, porque aqui são chamadas de ‘sapatinho’, um nome apropriado, porque de fato elas se parecem com sapatinho de recém-nascido. Mas quando esse tempo chegava e morávamos na Rua São Francisco, o pé de manga era a nossa segunda casa. Chupávamos mangas até ficarmos com a barriga deste tamanho! Os caroços nós íamos jogando pelo quintal mesmo, porque depois teriam serventia quando terminado o tempo de chupar mangas. Aqui pra nós, no particular: sempre achei que lá no paraíso as pessoas têm mangas à vontade. Muita gente fica o dia inteiro chupando mangas, lambuzando o rosto e as mãos. Mangas são dádivas, além de ricas em vitaminas. Segundo os mais empedernidos nutricionistas, na manga podemos encontrar um bom teor de carboidratos, betacaroteno (provitamina A), vitamina C, vitaminas do complexo B, ferro, fósforo, cálcio, potássio e zinco. Então, depois de chupada a última manga do pé, aquela que estava lá no topo, no galho mais fino, e que só podia ser vista de longe, porque estava em ponto, digamos, quase inacessível, então começava outro tempo. Tempo de imitar o que víamos nos filmes de caubóis estadunidenses. A essa altura os caroços de mangas chupados estavam secos. Cada um catava a quantidade que podia até ficar com os braços tomados e buscava o melhor esconderijo no meio de um mar de sabugueiros que se alastrava pelo quintal. Era o tempo da ‘guerra’. Dividíamos em grupos e a um sinal previamente combinado, caroços secos iam e vinham cortando os ares, do jeitinho como acontece hoje em dia, nas guerras de verdade, mísseis indo e vindo. É isso que dá enfiar dentro da cabeça de crianças maus exemplos. A tropa era constituída de uma plêiade de meninos e meninas como: Célia, Lúcia, Wanda, Tone, Rubens e Magela, os dois últimos primos, e, claro, este que registra para a posteridade o tempo em que as crianças viviam em quintais e criavam os próprios brinquedos. Mas desde aquele tempo (antes até), o ‘Tio Sam’ espargia o germe bélico do seu estilo ao nos enviar filmes cheios de tiros disparados por Roy Rogers, Rock Lane, Rex Alen, além de outros. E por falar em Roy Rogers, dia desses o cavalo dele, Trigger, empalhado ao morrer, foi leiloado. Era o primeiro dos 300 itens relacionados a Roy Rogers (1911-1998) e sua mulher, Dale Evans. O cavalo foi arrematado por US$ 386.500. O preço de um belo apartamento. Ninguém disse, mas é possível que o caubói estadunidense quisesse imortalizar Trigger, como Rocinante o foi nos versos ‘Del Donoso, poeta entreverado, a Sancho Pança e Rocinante’, o cavalo de Dom Quixote. Ele, Rocinante, que era bisneto do grande Babieca. Cavalo de El Cid, herói espanhol.
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Alberto Sena
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19/8/2010 10:29:16
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No Tempo dos Quintais
ALBERTO SENA
Houve um tempo, em Montes claros, que quase toda casa tinha quintal. Mas depois, muito depois, os quintais, um a um, foram desaparecendo porque a cidade não aguentou segurar a vocação para o crescimento. Quando quase toda casa tinha quintal, a família morava na Rua São Francisco, próximo da casa de ‘dona Geralda do ‘seu’ Nilo’, quase esquina de Rua Corrêa Machado, a 50 metros da casa da escritora Amelina Chaves, mãe de Roldão. Todos situaram o lugar? Pois bem, a família morava numa casa em estilo colonial, com portas e janelas altas, telhado sem forro. Uma casa de quatro quartos, cinco com mais um nos fundos, contíguo da cozinha. E um quintal mágico, grande. Ia dar nas proximidades da linha férrea. O quintal tinha um pé de urucum, perto da porta da cozinha. Para dona Elvira, era ‘uma mão na roda’ quando precisava de urucum. Saía da cozinha, dava meia dúzia de passos e colhia-o. Logo atrás da casa havia um coqueiro macaúbas, com espinhos enormes. Abaixo havia um pé de manga ‘coquinho’ e lá embaixo, próximo da cerca onde cresciam buchas, da família das cucurbitáceas, cujo nome científico é luffacylindrica, havia um pé de manga ‘comum’, aqui nesses píncaros chamada de manga ‘sapatinho’ (a mais saborosa). Como puderam ver, era uma casa com quintal gostoso, bom para a meninada praticar a arte de brincar. O trem de ferro da Central do Brasil passava lá no fundo e isto era atração à parte. E de lambuja, na frente da casa, recuada em relação ao alinhamento da rua, tinha uma área de terra onde se podia – vejam bem – jogar bolinha de gude e finca, no período das águas. Mas me deixem emendar nisto o fato de que tínhamos um tio chamado Abel, Abel Sena Leite. Era pai de Berenice (Nice), Marlene, Filomena, Clarisse, Mário, Saul, Adalberto, Marisa, Sílvia, Renato, Fernando, Eduardo, 12 ao todo, filhos da bondosa tia Maria Fialho. Um detalhe fundamental: tio Abel, irmão de mãe, Elvira, era um homem alegre. Dava gargalhadas à toa às vezes. Era brincalhão. Ele sempre ia nos visitar de surpresa. Entrava de supetão e batia ao mesmo tempo nas janelas e nas portas nos assustando e quando corríamos para ver o que estava acontecendo víamos ele se dobrando em boa gargalhada. Era assim, o tio. Grande figura! Fora mestre de obras e nós tínhamos orgulho dele – ‘ajudou a construir a Catedral de Nossa Senhora Aparecida, de Montes Claros, de cem metros de altura’, diziam. Numa vez, tio Abel chegou de surpresa, mas nem imaginava a surpresa que o aguardava. Todos estavam ali no quintal debaixo, do pé de urucum. Como sempre, ele contava alguma piada, nos divertindo. De repente, ao vivo e em cores, eis que surge um macaco – isto mesmo, um macaco. Saltou o muro atrás do pé de urucum. Foi um salto incrível. Pegou todos de surpresa. O macaco fez o que fazem os atletas de Olimpíada no ‘cavalo com alças’. Pôs uma das mãos no muro e pulou quase caindo sobre nós. O macaco assustou conosco tanto quanto nós assustamos com a inesperada visita dele. Nunca tínhamos visto um bicho tão diferente. Os pelos dele eram vermelhos. Tinha mais ou menos o tamanho de uma criança de três anos. Ele se estacou diante de nós, e a primeira pessoa a agir foi a irmã Célia, na ocasião, adolescente. Ela partiu para cima do macaco, repetindo: __ É meu! É meu! É meu! Só que o bicho, literalmente, era macaco velho. Arreganhou os dentes para Célia numa ferocidade ameaçadora, ao que o tio Abel catou rapidamente do lado um pau e partiu na direção do macaco, que, bobo não foi de ficar esperando o que poderia acontecê-lo. Assim como chegou, de surpresa, rápido, assim o macaco desapareceu em meio aos arbustos de sabugueiro do quintal, saltou a cerca e sumiu das nossas vistas. Mas permaneceu gravado na memória, para ser lembrado agora como história de criança. Para homenagear a memória do tio Abel. Para relembrar a nossa infância em Montes Claros. Para saudar os irmãos Tone, Wanda e Lúcia (ela faz aniversário neste 22 de agosto) testemunhas oculares dos fatos. E para agradecer a Deus, in memorian, por nos ter dado Célia, ‘a Rock Lane’, heroína das nossas brincadeiras de caubóis.
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Alberto Sena
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13/8/2010 16:20:01
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Tudo na vida é milagre Alberto Sena
O dom da oratória, falar em público, nem toda pessoa o tem desenvolvido. Muitos têm bloqueios e por isto não falam. No entanto, acredito: nascemos com todos os dons. Inclusive o da oratória. Se tivermos a oportunidade de desenvolvê-lo, podemos considerá-lo ‘uma bênção’. Conheço pessoas que tremem feito vara verde quando precisam falar em público. A coisa é mais ou menos como o medo de viajar de avião. O camarada tem medo, mas precisa viajar e então voa com o coração na mão. E se precisa falar em público, não tendo como escapar da situação, fala. É como não saber nadar e ao ser jogado no mar nadar para não se afogar. Na primeira vez vê o público como uma massa anuviada. Depois, com a prática, começa a divisar no meio da massa pessoas, individualmente. E quando consegue olhar dentro dos olhos de uma e de outra pessoa, aí então se pode considerar ‘livre dos bloqueios’. Conheço um adulto que, quando criança, aí em Montes Claros, estudava no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, na Praça Dr. João Alves. Estava no terceiro ano do primário. Até tinha o costume de recitar poemas de Olavo Bilac e Cecília Meirelles às segundas-feiras, em frente à turma, depois de cantado o Hino Nacional. Mas uma vez em que a professora Alba Alkimin recebeu alunos de outra professora e a sala ficou abarrotada, era dia de festa. A criança foi declamar um poema na frente da turma. Tudo ia bem até o momento em que tudo foi mal: esqueceu o verso seguinte. Mesmo sem ‘Omo’, inexistente naquela época, o branco foi total. A criança chorou. Se houve quem risse a criança nem viu ou ouviu. Sentou-se no lugar e ficou lá decepcionada consigo mesma. Desde então houve um bloqueio e nunca mais no grupo escolar a criança recitou qualquer poema. Pouco antes de completar 18 anos, quando trabalhava no ‘O Jornal de Montes Claros’, o ex-aluno de dona Alba Alkimin fazia cobertura de ‘esportes’. Era o intervalo de um clássico Ateneu X Casimiro de Abreu. O radialista boa praça e bom de bola, Gelson Dias, falava ao microfone da ZYD-7, Rádio Sociedade Norte de Minas, diretamente do gramado. Ele se aproximou do repórter como quem não queria nada e lascou-lhe uma pergunta ao mesmo tempo em que quase lhe enfiava o microfone boca adentro. Resultado: de novo deu ‘Omo’, branco total. O repórter não se lembra mais o que se passou em seguida, mas certamente, o competente Gelson Dias deve ter se saído bem. O que ficou no outro foi o bloqueio, o temor de falar em público. Outras oportunidades nem tão dramáticas aconteceram na vida, até que um dia, como qualquer outro dia, ele estava dentro da Igreja Santo Antônio, na Avenida do Contorno com Rua Espírito Santo, em Belo Horizonte, e viu uma mulher que arranjava os objetos sacros no altar. De repente, ela desceu as escadas do altar e caminhou na direção dele e com o semblante sereno, pediu: __ Você gostaria de fazer a primeira leitura da liturgia de hoje? Apanhado assim, de chofre, ele não teve outra resposta: __ Sim, com a maior alegria! Desse momento em diante, até ir ao ambão proclamar a palavra de Deus, o coração disparou. Leu, releu e treleu o texto para treinar a leitura e quando foi chegado o momento da ‘Liturgia da Palavra’, proclamou a primeira leitura como se tivesse o costume de fazer isto sempre. A garganta parecia azeitada. As palavras saíam escorreitas. Um milagre? Sim, tudo na vida é milagre. Foi ao vir foto de Gelson Dias e Elias Siuf, ladeando o recém falecido ‘titio Bira’ (Ubirajara Toledo; Deus o tenha) publicada no blog ‘Minas Livre’, de Itamaury Teles, que a cena do intervalo do jogo entre Ateneu X Casimiro de Abreu veio à tona. Naquela ocasião, foi um drama. Mas agora serve de mote para uma boa gargalhada. Gargalhada compartilhada com Gelson Dias, camarada bom de gogó como ele só.
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Alberto Sena
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10/8/2010 15:40:31
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Antes que mais tarde
Procuro mulher, homem, adolescente ou criança que possa ter perdido uma correntinha com medalhinha de Nossa Senhora de Fátima, confeccionadas em ouro. A joia foi encontrada por volta das 11h de uma quinta-feira do mês de maio de 1958. Estava dentro do recipiente do registro d’água do jardim da Praça Dr. João Alves, em frente ao número 14, onde fica o prédio do Grupo Escolar Gonçalves Chaves, em Montes Claros. Naquela manhã, o dia havia amanhecido diferente. Prenunciava algo novo na vida do aluno do segundo ano primário. Como sempre, o Sol quente irrompera na linha dos claros montes, e como a aula da professora dona Alba Alkimin havia acabado um pouco mais cedo, o aluno sentiu sede ao sair do grupo e correu para o registro d’água do jardim, mesmo não sendo a água filtrada. Ele abriu a torneira e o esguicho subiu o suficiente para beber água e observar no fundo do recipiente algo reluzente. Apesar de naquela época já saber do provérbio ‘nem tudo que reluz é ouro’ (William Shakespeare), ele não tinha nada a perder: enfiou a mão no fundo do registro nem tão fundo e pegou o objeto. Reluzia sob os raios do Sol. E era ouro. Claro, o aluno teve o cuidado de olhar para um lado e para o outro lado a fim de verificar a presença de alguém que pudesse ter perdido a correntinha com a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima. Mas como não viu ninguém por perto, bobo não foi de deixar a joia ali para outra pessoa pegar. Ele a guardou no bolso da calça curta, azul-marinho. Pensou até em colocar a correntinha com a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima no bolso da camisa branca engomada, onde do lado de fora tinha o distintivo do Grupo Escolar Gonçalves Chaves. Só não fez isso porque pensou: ‘talvez a correntinha com a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima estivesse no bolso da camisa de alguém que a perdeu ao se debruçar sobre o registro d’água para saciar a sede’. Alguém que bem podia ser, como mencionado no início deste anúncio, mulher, homem, adolescente ou criança. É bom achar coisas de valor na rua. Todo menino gosta. Perder não é bom, claro. Ele até pensou no possível desespero de quem a perdeu. Mas, fazer o quê? Não ia gritar pela rua, perguntar quem a perdeu porque podia aparecer mais de um dono. E aí seria danado! O aluno guardou a joia no bolso da calça, enfim. Sede saciada, ele pegou pela alça a pasta preta com cadernos e livros e virou corisco. Subiu a Rua São Francisco, atravessou a passagem de nível lá adiante e logo estava em casa, radiante, exibindo para todos, pais e irmãos, o ‘troféu’ encontrado. Resultado: uma das irmãs da primeira safra, chamada Geralda, apelidada Ladinha, ficou com a correntinha e a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima e tudo se acabou assim. Ficou só a sensação de nada ter achado. O tempo voou. Foi como se um gigante de boca aberta o engolisse, e eis: a joia achada veio à lembrança como tema para escrever este anúncio: procuro mulher, homem, adolescente ou criança que possa ter perdido a correntinha com a medalhinha de Nossa Senhora de Fátima, tudo em ouro, naquele perdido dia de maio de 1958, ano em que a Seleção Brasileira de futebol se sagrou, pela primeira vez, Campeã Mundial. Confesso: faço o anúncio à revelia de Ladinha. Corro o risco de ficar sem graça, se por acaso aparecer o dono ou a dona da jóia, porque nem sei mais o destino dado pela irmã à correntinha e à medalhinha de Nossa Senhora de Fátima, que reluziu dentro d’água e era ouro. Evidentemente, não posso acreditar no primeiro a aparecer dizendo ser o dono ou a dona. A pessoa precisa dar, com a maior fidelidade possível, todas as características da correntinha e da medalhinha de Nossa Senhora de Fátima. Inclusive o formato dos elos e as demais características. E não é só: o dono ou a dona precisará apresentar a Nota Fiscal de compra, caso contrário, o dito neste anúncio fica pelo não dito. Assim, o aluno de dona Alba Alkimin continuará com a consciência tranqüila. E o dever de anunciar cumprido, 52 anos depois. Antes tarde do que mais tarde.
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Alberto Sena
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4/8/2010 13:58:40
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O cerol da linha do outro
Alberto Sena
No tempo em que se podia empinar papagaio, pipa ou arara com linha sem cerol, linha com cerol era a coisa mais rara. Os embates eram na munheca mesmo ou na manivela e não com o intuito de corta a linha, mas laçar e trazer para si o papagaio (a pipa ou a arara) do outro. A brincadeira, em Montes Claros de antanho, era emocionante. Até mesmo quando acontecia de o papagaio (a pipa ou a arara) chegar às mãos juntamente com o outro, bufando, querendo tirar satisfações. Mas como não havia cerol nem maldades tantas como hoje em dia, tudo se resolvia na santa paz de Deus. Bastava devolver o papagaio (a pipa ou a arara) e o outro ia embora sorrindo. Essas lembranças vêm, juntamente com a chegada do mês de agosto. O mês de agosto, em Montes Claros, era especial. Sopravam bons ventos. Não ventos como os do livro ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, da escritora e poetisa (melhor poeta mesmo) britânica, Emily Jane Bronte, que o escreveu sob o pseudônimo masculino Ellis Bell. Mas ventava. Montes Claros cresceu num planalto. De morro mesmo, possui dois: ‘Os Morrinhos’ e ‘Os Dois Irmãos’, além, claro, dos claros montes. Então, quando agosto chegava, era um correr aos bambuzais em busca de taquara para fazer papagaio (pipa ou arara). Ia à papelaria Barroso, na Rua Simeão Ribeiro, para comprar papel de seda ou impermeável. Fazia grude com goma de biscoito, melhor do que maizena (com ‘z’, porque é uma marca) e na pior das hipóteses, ‘assaltava’ a gaveta da máquina de costura Elgin de dona Elvira, se não se dispunha de dinheiro para comprar um carretel de linha número 10, mais recomendável. Dependendo do tamanho do papagaio (da pipa ou da arara) o melhor era cordonê, mais grosso e resistente o bastante para os embates do menino. Até de noite se podia empinar papagaio (pipa ou arara). O problema era não poder vê-lo na escuridão. Mas era divertido sentir os toques dos morcegos na linha. Eles, que, cegos, inspiraram os nossos atuais radares. Mas, sob o rachar dos raios do Rei Sol na moleira e no pó da rua, era uma bênção poder empinar papagaio (pipa ou arara). Só quem é criança experimenta a sensação e poderá dizer. Tem-se a impressão de que o papagaio (a pipa ou a arara) é o prolongamento do espírito. É como se se transportar lá para o alto. E de lá do alto, mais perto do céu de Deus, espiar as pessoas aqui embaixo. O coração corre o risco de saltar pela boca, emoção tamanha. O papagaio (a pipa ou arara) era feito com papel de cores diversas. Podia ser ‘sureco’, daqueles que se fecha quase todo quando se dá puxões na linha, ou com ‘rabiolas’ e ‘braceletes’. Lá do alto, o papagaio (a pipa ou arara) ficava dançando e olhando pra gente. O ruim era quando acontecia de a linha partir. Lá se ia embora. Era preciso sair correndo atrás para tentar recuperar o danado do papagaio (da pipa ou da arara). O bom era quando se dispunha de uma manivela. Melhor ainda quando a manivela tinha quatro, oito ou 16 cruzetas. Quanto mais cruzetas, mais rápido é o ato de recolher a linha. O sobrinho Reinaldo Batista Murça, que neste momento lê este texto, prometeu, dia desses, dar de presente uma manivela de 16 cruzetas para substituir uma dada por ele mesmo, décadas atrás, que alguém surrupiou. Enquanto não há tempo (conversa pra fazer boi dormir, porque tempo a gente faz) para confeccionar um papagaio (uma pipa ou uma arara), espero o sobrinho providenciar a nova manivela de 16 cruzetas. E daqui da janela viajo nas asas dos papagaios (das pipas ou das araras) dos meninos de hoje. A diferença é que a linha deles tem cerol. E o cerol, volta e meia, degola motoqueiro incauto, que não protegeu o pescoço com um par de arames adaptados na frente da moto. A única diferença é essa, porque o adulto continua criança. O espírito infantil não pode ser assassinado pela crueza e a selvageria do mundo adulto. Então, o espírito fica debruçado na janela, à espreita. Aguarda a manivela de 16 cruzetas, a fim de ter pretexto para fazer um papagaio (uma pipa ou uma arara) e ganhar os céus de agosto. Com muita alegria e gosto. Como sempre. O problema é o cerol da linha do outro
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Alberto Sena
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28/7/2010 14:39:49
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Bigode de Arame - Alberto Sena Nunca soubemos o nome dele. Se alguém soube nunca nos disse. Mesmo porque criança não se dá ao trabalho de imiscuir na vida dos outros, nem para saber nomes. Além do que, ele nos metia medo. A origem dele era difusa. Diziam: ‘foi cangaceiro do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião’. Depois daquela refrega sofrida pelo bando, surpreendido pelos ‘milicos’ da época, na Fazenda Angicos, no município sergipano de Poço Redondo, ele teria escapado ileso, e como um foragido da justiça, pulara de cidade em cidade até fixar residência em Montes Claros, como gente pacata, homem casado, sem filhos. Nós o chamávamos ‘Bigode de Arame’. O bigode dele era enorme, semelhante ao do genial pintor espanhol, Salvador Dalí, que nem de leve passava por nossa cabeça na ocasião. A comparação vale agora quando recolhemos cacarecos de lembranças nesse exercício de memória. ‘Bigode de Arame’ não é fruto da imaginação. Existiu de verdade. Tinha até endereço: Rua Januária, esquina de Rua Camilo Prates, próximo da antiga Padaria Real, na Rua Bocaiúva, em Montes Claros, importante cidade do sertão norte-mineiro. Com frequência passávamos na porta da casa dele indo para o centro da cidade, no sentido Praça Coronel Ribeiro (salvemos a praça, se ainda há tempo!), ou quando voltávamos. Ao nos aproximarmos da casa dele diminuíamos os passos e parávamos na porta para espiarmos lá dentro em busca de algum indício relevante sobre a origem dele.Claro, um homem como ‘Bigode de Arame’, com toda a fama alimentada sobre ele, no mínimo exercitava o nosso imaginário. Ficávamos pensando nele com chapéu de couro dos cangaceiros, mais os cinturões de balas de carabina cruzados na frente do peito. O rosto suado, de quem só toma banho de vez em quando, enquanto nós crianças tínhamos de tomar banho todos os dias, senão o couro cantava lá em casa. Ficávamos imaginando a quantidade de soldados mortos por ‘Bigode de Arame’. E nos perguntávamos: ‘quem sabe no cabo da carabina dele tem marcas da quantidade de soldados por ele abatidos, como marcamos o gancho dos nossos estilingues’? Quase toda vez, ao passarmos na porta da casa dele, lá estava o homem sentado na cadeira de balanço. Movimentava a cadeira devagar, como se fosse proibido balançar com mais força, como fazíamos nos balanços da Praça de Esportes. Enquanto isso, ele cofiava o bigode de modo a torná-lo fino nas pontas. Pouco se poderá dizer agora sobre o bigode dele, além da dita semelhança com o de Salvador Dalí. Nem mesmo a cor se podia saber direito. Ele era fumante inveterado e a cor amarela do bigode podia ser mera consequência da nicotina, que lhe manchara também os dedos da mão direita. Quando ele não era visto fumando, picava fumo de rolo com canivete e o enrolava na palha sempre presa entre os lábios. ‘Bigode de Arame’ usava o próprio canivete para acochar o cigarro e em seguida acendia-o com uma binga, espécie de isqueiro rudimentar composto de uma pedra de faísca e pavio umedecido em querosene.Ele era velhinho. Pelo menos para as crianças, parecia. Assim como velhinha era também a mulher dele. Os cabelos dela esbranquiçados pareciam estar grudados, como ficam os cabelos sujos de quem não os lava com frequência. Para nós, ela era ‘Maria Bonita’ velhinha. Entretanto, quem nos intrigava era o marido dela, se é que de fato pertencera ao bando de Lampião. Na sala da casinha simples onde o casal morava – construção antiga, do tipo colonial, de adobe; rebocada e pintada de amarelo; as portas e as janelas verdes – havia um baú aos nossos olhos, enorme. Nós ficávamos ali na porta vendo o baú. Torcíamos para ele o abrir a fim de nos revelar o que de fato havia lá dentro. Mas ele não o abria. Pelo menos diante de nós, nunca. Isto, claro, aumentava ainda mais as especulações. Chegamos até a apostar míseros cruzeiros. Havia quem assegurasse que dentro do baú tinha carabinas, balas e chapéus de cangaceiro. Além de roupas de couro cru usadas para enfrentar os espinhos da caatinga nordestina. Houve até quem apostasse: ‘é baú de ossos; lá dentro há esqueletos de ‘milicos’ abatidos por ‘Bigode de Arame’ e pelo próprio Lampião’. Mas ninguém nunca conseguira tirar isto a limpo. Tanto tempo depois, se alguém souber informações sobre ‘Bigode de Arame’, seja daqui do Brasil ou do exterior, com base nas características dele descritas, faça o favor de entrar em contato conosco. Juntos, talvez possamos, enfim, desvendar o mistério da origem do homem que, meio século antes, povoou nossa infância e tanto medo nos meteu. Antecipamos pungentes agradecimentos.
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Alberto Sena
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28/7/2010 14:28:36
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Homem Invisível - Alberto Sena Já contei que o meu sonho de ser jogador de futebol profissional não passou de uma tentativa amadora no juvenil do Casimiro de Abreu, em Montes Claros, sob a direção técnica de Bonga. Nessa ocasião, no auge dos 17/18 anos, era veloz, corria que era uma beleza. Ao ponto de entrar em êxtase. Sim, em êxtase. Só que eu não identificava a sensação como ‘um estado de êxtase’. Sentia-me bem correndo e melhor ainda depois, como se tivesse comido uma porção de espinafre do ‘Popeye’. Essa sensação eu sentia antes, muito antes, na época em que brincava de ‘esconder’ na Rua São Francisco e depois na Rua Corrêa Machado, em Montes Claros. Conseguia escapar de vários ‘pegadores’ ao mesmo tempo e ‘salvar’ os companheiros ‘detidos’ ao pé de um poste.Recentemente, o jornal ‘The New York Times’ publicou matéria informando que um grupo de pesquisadores da Alemanha conseguiu comprovar a hipótese: correr produz ‘uma onda’ ou ‘uma sensação de êxtase’. São as endorfinas, substâncias químicas do próprio corpo, comparáveis ao ópio. Segundo a publicação, correr não seria a única maneira de ter essa sensação de bem-estar. Exercícios mais intensos ou de resistência também podem levar o cérebro a produzir as tais endorfinas. Voltando ao tema inicial: era ponta direita veloz e o técnico Bonga me chamava de ‘Homem Invisível’. Mas eu não chegava a ser tão invisível quanto o grande Raphael Reys diz ter sido em épocas que, embora tendo eu e ele vivido quase os mesmos acontecimentos, aí no Arraial, nunca havíamos nos encontrado, cara a cara, a não ser no ‘Almoço Curraleiro’ por ele promovido aqui nesses píncaros, almoço que degusto até hoje na lembrança. Evidentemente, nos dias atuais, não mais disponho da capacidade de correr para fazer jus à alcunha dada por Bonga. Ando. E muito. Mesmo andando, experimento prazer. Talvez até maior do que quando corria veloz.Ao contrário de antes, a consciência da importância de andar é maior. Exercitar o espírito, a mente e o corpo. Sentir o vento tocar o rosto e os raios benfazejos do sol na pele. Sentir-se vivo. E agradecer a Deus pela vida.Andar é exercício completo. Há sem número de exemplos de idéias surgidas numa caminhada. Mas bom mesmo é fazer longas caminhadas. Principalmente em lugares de belas paisagens, quando se pode exercitar a capacidade de contemplar a natureza. Ao ponto de senti-la e dizer: ‘nós e a natureza somos um’.O nosso planeta é lindo! Há lugares maravilhosos à espera de quem gosta de calçar botinas de ‘trekking’, pôr nas costas uma mochila, identificar no mato um cajado e andar. Fazer, por exemplo, o ‘Caminho da Fé’ – Tambaú (SP) entrar para Minas, subir e descer a Serra da Mantiqueira, até o Santuário de Aparecida, 400 km, a pé – é algo inesquecível! Assim como é também inesquecível percorrer o ‘Caminho de Santiago’, desde San Jean-de-Pied-Port, no Sul da França, até a cidade de Santiago de Compostela, na Espanha, 800 km, a pé. Para alguns, ‘uma loucura’ para outros, ‘uma façanha’. O peregrino recomenda a quem se dispuser a fazer esse tipo de caminhada logo na primeira oportunidade. Tudo começa a partir do desejo. Se se tem o desejo de, por exemplo, percorrer o da ‘Fé ’ ou o de ‘Santiago’, a pessoa já pode se considerar a caminho. E que não deixe passar a oportunidade.Se muitos andassem mais, deixassem em casa os carros, teriam saúde para dar e vender; seriam mais felizes; o trânsito de Montes Claros melhoria, até mesmo sem a intervenção do urbanista Jaime Lerner. Embora uma coisa não tenha a ver com a outra.Quem anda faz reflexão, faz oração, contempla, tem mais tempo para observar o que está em volta. Não se estressa tanto quanto quem vive ao volante. Andar não polui o ambiente.Aqui, neste Curral Del Rey, um dos pontos mais próximos e bonitos para uma caminhada salutar é, de um lado, o Parque das Mangabeiras; e do outro lado, o Parque Paredão da Serra do Curral.Do alto da Serra do Curral se pode ter a clara visão do Cerrado, o Sertão de Guimarães Rosa; e a Mata Atlântica, do outro lado. O mais incrível é que pequizeiros são encontrados lá em cima. A prova cabal de que a Serra do Curral é de fato um divisor de ecossistemas. Andem, pois. De passo em passo se chega ao longe.
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Alberto Sena
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16/7/2010 08:57:50
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Nas Mãos de Quem Nasci
ALBERTO SENA
Foi o texto de Mara Narciso, intitulado ‘Praça Irmã Beata,’ baseado nos depoimentos de Ruth Tupinambá, Maria de Jesus Felícia Mota e Maria Eunice Leite, sobre Wilhelmina Lauwen, conhecida como Irmã Maria Beatrix, e muito mais como Irmã Beata, que me proporcionou sensação tal e qual, senão a uma regressão ao útero materno, pelo menos, ao dia do meu nascimento. Nas mãos de quem? Dela, Irmã Beata. Posso dizer, sem exagero: assisti ao meu próprio parto. Assisti claro, modo de dizer. Assisti com os olhos de mãe e os detalhes contados por ela. Não os detalhes do parto em si, mas do pós-parto. Do que aconteceu em seguida. O resto do que se passou naquele dia ficou por conta da minha imaginação. Até hoje, volta e meia, falo com as pessoas, quando tenho a oportunidade, como a tenho agora: ‘nasci em mãos santas’. Se Montes Claros tem alguém candidata a ‘santa’, o nome dela é Irmã Beata, holandesa de nascimento. Talvez esse fato somado à religiosidade de mãe me tenha tornado crente em Deus. A pessoa pode ser considerada a mais sábia do mundo, mas se porventura confessar não crer em Deus, essa pessoa não existe. E não vai aqui nenhum sentimento de menosprezo. Pelo contrário, uma pessoa que nega a existência de quem a criou merece piedade. Se não crê em Deus, o Criador, como crer na criatura sábia, cuja sapiência a cegou? Mas não basta crer em Deus. É preciso sentir Deus em si (sentir e não se sentir Deus). Ele é Ser tão grande que nenhum vivente tem olhos para enxergá-lo no todo. Deus a gente O vê nos detalhes. Nos montes claros, nas florestas do Cerrado, nos animais quadrúpedes e nos pássaros. Na grandeza do mar e em tudo que o povoa. Ele é visto nos rios. E, principalmente, nos seres humanos. Como disse parágrafos atrás, ao ler o texto ‘Praça Irmã Beata’ tive uma experiência de regressão ao dia do meu nascimento. Mãe que me contou: quando nasci, a caridosa freira pegou-me nos braços e disse – preciso reforçar: estou sendo fiel ao que mãe me contou: ‘quê menino bonito, dona Elvira; dá ele pra mim’? E ficou comigo nos braços, ninando. Ela foi insistente, contou-me, mãe. Claro, dona Elvira ficou lisonjeada. Eu mais ainda, embora na ocasião não pudesse manifestar nada neste sentido a não ser aos ‘berros’. Essa brincadeira de Irmã Beata com mãe pode ter sido demonstração do quanto era ela sensível, e psicologicamente, sabia lidar com as parturientes. Ela devia falar a mesma coisa a todas as mães. Mas foi importante saber disso e retornar ao dia do meu nascimento. Poder imaginar as mãos da Irmã Beata me segurando, como se abarcasse uma ‘trouxinha’ envolta em panos. Gostoso sentir o calor do colo dela, alma virgem, e tentar ouvir-lhe as batidas do coração. Um dia perguntei a mãe se ela teria coragem de me dar em adoção à Irmã Beata. Sabem o que mãe disse? ‘Claro que não’! Ainda bem. Pensei. Não ia gostar de viver com ela, ali dentro da Santa Casa, naquele silêncio quase sepulcral, onde não se podia brincar nem fazer barulho. Bom mesmo era ser filho de dona Elvira e brincar livre no quintal, debaixo dos pés de jabuticaba ou à sombra das mangueiras e praticar pontaria com pedradas de estilingue nos vidrinhos de penicilina. À medida que as minhas irmãs se casavam e iam tendo filhos – primeiro Elza, casada com o já falecido Raimundo Lopes; depois Terezinha (Tê), casada com Nelson Murça, hoje com 84 anos – era hora de ir à Santa Casa ver a carinha dos sobrinhos recém-nascidos. Era bom ir à Santa Casa só para subir a rampa até o apartamento onde o sobrinho recém-nascido dormia. Era gostoso ouvir o silêncio dentro do hospital. No apartamento só se podia falar baixo. Mas embora achasse importante ter nascido nas mãos dela, eu continuava renitente: ‘minha mãe fez o mais certo, não me entregou à Irmã Beata’. Fisicamente, não. Mas espiritualmente, em Deus, na pessoa de Jesus Cristo, sempre estive com ela, dentro ou fora da Santa Casa. Para mim, hoje, ao volver ao dia do meu nascimento, acredito: Irmã Beata ‘era santa’. Não por mérito dela própria, mas por conta de Jesus Cristo no seu coração. Ninguém é santo se não estiver em Deus. Vamos refletir: quem é capaz de controlar a fome, a sede, os pensamentos, a respiração, as necessidades fisiológicas, as batidas do coração? Quem sabe o que vai me acontecer, a mim ou a você, no próximo minuto? Fisicamente somos, em verdade, poeira cósmica. Não há porque nos acharmos uns superiores aos outros. Vamos todos virar pó. Importa, sim, cuidar do espírito. Enquanto ainda há tempo.
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Alberto Sena
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8/7/2010 09:01:46
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O Lucro de Itamaury ALBERTO SENA
No meio de nós é comum ouvir a desgastada frase: ‘não li e não gostei’. Mas também se ouve o contrário: ‘li, gostei e recomendo’. Entretanto, isto só não basta. É preciso provar. Li e gostei do livro ‘Doce Prejuízo’, de Itamaury Teles. Gostei pelo seu jeito característico de contar histórias, de manter relação telúrica com o lugar onde nasceu e viveu até se transferir para Montes Claros, onde também plantou raízes e delas trata em vários momentos. Apreciei o livro de Itamaury porque é simples, como o próprio autor, dotado de boa dose de humor, ao ponto de gozar a si próprio como no caso de “Nomes estranhos”. Nessa crônica, ele se mostra conformado com o próprio nome, junção de Ita (‘pedra em tupi-guarani’) e ‘Amaury’, estrela do basquete nacional nos idos de 1954, quem o pai dele admirava. Criticar é fácil. Difícil é construir. Criticar todos nós nascemos sabendo. Elogiar, reconhecer o valor e a competência do outro, sinceramente, são poucos os que aprendem em vida. Inda mais nos dias atuais, diante de tanta concorrência, e quando vemos o atropelo dos valores verdadeiros sem a menor cerimônia. O texto de Itamaury tem força. Essa energia do Cerrado, e nos lembra a vegetação forte, e ao mesmo tempo frágil, coberta de casca grossa, como da cortiça, mas delicada e leve, lá no chão onde nasce o pequizeiro chamado por Téo Azevedo de ‘Esteio do Sertão’. Em ‘Político caçador de onças’, o autor trata de ‘Liobas e Gabirobas’, facções políticas opositoras em Porteirinha, e ao expor o tema, fica a impressão de que, politicamente, aquela terra onde brota ‘ouro branco’ e uvas sem caroços, é o centro do universo. Lá a política lateja como a veia aorta em cada cidadão. E em nível local, os habitantes parecem recitar o dramaturgo alemão Eugen Berthold Friedrich Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que de sua ignorância política nasce a prostitua, o menor abandonado, o assaltante, o corrupto das empresas nacionais e multinacionais e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista e pilantra”. Em Porteirinha, os cidadãos são alfabetizados politicamente. Tomam partido. Importa menos que um ou outro nem saiba fazer o ‘o’ com o fundo da garrafa. Outra coisa chama a atenção no livro de Itaumary: a maneira como ele conserva a linguagem regional dos matutos, característica que as novelas e os modorrentos programas de auditório sepultam a cada dia. Um exemplo da beleza está em ‘Canoro carro de boi’, meio de transporte desconhecido de muita gente das gerações do asfalto. Esses nunca ouviram o chiado das rodas do carro de boi debaixo do sol escaldante do Norte de Minas, conduzido por um peão munido de ferrão para cutucar o cocuruto das parelhas de bois. ‘Doce prejuízo’ para o tempo ao registrar para a posteridade episódios que teriam se perdido na voracidade da vida pós-moderna, quando o hábito da leitura vai se distanciando da juventude à medida que a internet avança com os twitter’s, orkut’s e msn’s. As pessoas têm pressa. E ao mesmo tempo cada vez mais ficam preguiçosas. Ler um livro é sacrifício e muitos só o fazem quando a escola obriga valendo nota. Daí a importância do livro de crônicas, que por ser de crônicas, estas não passam de duas ou três páginas, e podem ser digeridas aos pouquinhos, até mesmo sentado no ‘trono’. Como disse o jornalista Jorge Silveira, no prefácio e na contracapa, ‘primeiro foi ‘Urubu de Gravata e outras crônicas’. Depois, ‘Noturno para o Sertão’. E por último, ‘Doce prejuízo’. Dentro em breve, acredito, sairá um romance. Daqui deste Curral Del Rey a gente não sabe o que se passa nas gavetas das escrivaninhas de escritores conterrâneos. Mas quando é chegado o tempo, ouvem-se os reclames dos textos guardados nas gavetas. E quando acontece de o autor fazer ouvidos moucos, os próprios textos se rebelam e saem por si mesmos das gavetas, regurgitam como uma criança lactente.
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Alberto Sena
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5/7/2010 08:36:38
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Peru Mais Caro e Famoso do Sertão
Para Reinaldo Oliveira, Reinaldinho
ALBERTO SENA
Desde criança se ouve dizer o ditado: ‘vinho, azeite e amigo, o mais antigo’. Reinaldo Oliveira, o Reinaldinho, é desses amigos antigos, formados na seara da adolescência, início da fase adulta, uma das personagens de uma ida à Lapa Grande, em incursão que sempre fazíamos quando aí em Montes Claros éramos felizes e tínhamos certeza. Gente é como um lago cuja água tremula aos beijos do vento. Mas se alguém toca a lâmina d’àgua, ondas vão e ondas vêm. Tanto tempo depois, ao ler a aventura ao ventre da Mãe Terra, Reinaldinho reapareceu trazendo na mochila a pérola abaixo. Divido-a com cada um dos leitores, que, espero se multipliquem setenta vezes sete. É ele quem conta: “Não sei bem se foi neste mesmo dia, mas a turma era parecida, inclusive, Marlúcio "Brasa Mora", Chiquinho e Rubim. Mas tinha também Reinaldo Gordo. Lembra dele? “As tochas eram filtros de óleo antigos que pegamos em algum posto sem saber o perigo que corríamos com a queima do oxigênio principalmente nas passagens estreitas. “No caso de Chiquinho, o mais engraçado foi uma passagem em que ele escorregou e ficou pendurado numa pedra gritando por socorro, balançando as pernas. Na sequência, eu e Rubim fomos escalados para tirá-lo do buraco, e quando o alcançamos, os pés dele estavam a menos de cinco centímetros do chão. “Resolvemos voltar e falamos ao Chico, àquela altura em agonia: "seu caso não tem jeito"! Foi quando Reinaldo Gordo mandou Chico soltar as mãos, e para alivio dele, estava muitos quilômetros distante de um precipício. “O mais interessante dessa incursão à Lapa Grande foi que deixamos nossas mochilas na entrada com uma molecada. Quando saímos, a fome era grande e a surpresa maior: a molecada tinha sumido com nossa comida. “Chiquinho lamentava a marmita saborosa feita por "Dona Di" com muita recomendação. A fome era geral, não sobrou nada. Ou melhor, Tone “Saquim” foi o único a esconder a comida e teve, por livre e espontânea pressão, que repartir com a turma. “O melhor, no entanto, aconteceu na volta para a cidade. "Brasa Mora" arrancou uma cana num canavial próximo. Ele caminhava e chupava a cana quando, useiro e vezeiro nas brincadeiras, soltou um assobio com os dedos na boca e foi prontamente correspondido por um distraído peru. O restante se pode imaginar, mas vou contar: a cana foi usada no alto do pericrânio do peru, que saiu doidão, trocando as pernas. “Imediatamente apareceu a dona do peru e a bagunça se formou. Ela ameaçava ir à polícia. Foi um deus-nos-acuda. Para solucionar o problema, Reinaldo Gordo com toda sapiência, se prontificou pagar o peru. Diga-se de passagem, o bicho ficou doidão, mas vivo. “Reinaldo disse à sitiante que trabalhava na Caixa Econômica Federal e se chamava “Arcanjo”. Ele, “Arcanjo”, pagaria o peru, era só passar lá na Caixa segunda-feira. Claro, Reinaldo Gordo pensou que a mulher ia esquecer o caso e tudo estaria resolvido. “Só que na segunda-feira a mulher foi à Caixa. Pediu para falar com Arcanjo (ele nada sabia) e foi prontamente atendida. Ela foi dizendo logo: "vim receber o dinheiro do meu peru que vocês mataram". “Arcanjo não entendeu nada e perguntou: “quê peru, dona”? E prosseguiu: “não sei nada de peru; não comprei nem matei peru nenhum”. “Nesse meio tempo, Reinaldo Gordo ao vir a confusão armada, entrou no banheiro e ficou de lá observando. Como não houve acordo com Arcanjo, a mulher ameaçava fazer escândalo. Foi preciso chamar o gerente, Chico Pires. “Ele veio e a sitiante explicou: “Arcanjo e sua turma comeram o meu peru de estimação”. Chico Pires quis saber direito sobre o ocorrido e interrogou a sitiante, buscando mais detalhes. “Foi quando ela observou: “Arcanjo tava mais cheinho no sábado”. Reinaldo Gordo não teve como escapar: saiu do banheiro e pagou o peru. Como castigo, ele ficou dois anos tentando receber da turma o dinheiro de volta. “Esta é a história do peru mais caro e mais famoso do Norte de Minas”.
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Alberto Sena
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30/6/2010 15:03:45
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Eles eram felizes e sabiam
ALBERTO SENA
Iniciativa boa essa de Geraldo Maurício – Nenzão – ao organizar o livro ‘Éramos felizes e sabíamos’, no qual ele reuniu 18 autores, 19, com ele próprio, a fim de registrar para sempre uma época, sem saudosismos, quando o viver em Montes Claros era menos perigoso do que nos dias atuais. Meses antes do lançamento, em Brasília-DF e Belo Horizonte, soube do livro em fase de edição, por intermédio de Murilo Antunes, depois da publicação do texto ‘Era feliz e sabia’ no montesclaros.com. Ao lê-lo, Murilo enviou uma mensagem me informando da iniciativa de Nenzão. A coincidência, e isto o amigo, poeta e letrista de belas músicas, destacou: era o título do texto. O meu, publicado no dia quatro de março deste ano de 2010, estava no singular e o do livro no plural. Título que ele próprio dera. Mas, como dizia, a iniciativa foi das melhores, até mesmo pelo fato de ser uma publicação com características próprias, diferente das coletâneas de textos publicadas aqui e alhures. Sei que foi uma tarefa hercúlea por vários motivos, e o principal deles é a dificuldade para publicar alguma coisa neste País, a começar pelos custos de edição e sem falar da preguiça mental que assola principalmente os mais jovens nos dias atuais quando a internet avança sobre potenciais leitores que preferem os joguinhos, os ‘orkuts’ e os ‘msns’ da vida a ler livros. O livro chama a atenção pela diversidade de textos. No mínimo é uma provocação para cada um dos autores a continuarem escrevendo e estimulados pelo gosto de publicar alguma coisa, quem sabe, possam desovar um livro de contos ou um romance que porventura esteja engavetado por puro rigor de autocrítica. Outra coisa é o fato de a publicação ratificar aquilo que Minas, o Brasil e o mundo inteiros sabem: Montes Claros é terra de cultura literária forte como forte é o pequi. Tem sabor, cheiro e embala o espírito de quem confortavelmente senta numa poltrona para viajar ao passado, mesmo sabendo que o passado nem o futuro existem. Real mesmo é o aqui e agora. Montes Claros que gerou um Cyro dos Anjos, um Darcy Ribeiro e outros nomes importantes das artes de modo geral, não podia deixar de produzir novos valores, sempre, porque a roda da vida não para. Ademais, é importante para as atuais gerações terem uma referência do que foi a Montes Claros dos anos 60/70 a fim de que possam construir uma cidade mais interessante ainda, para elas próprias e as gerações vindouras. Digo isto porque observo aqui da janela o quanto um acontecimento atropela o outro no dia-a-dia e a velocidade do tempo, apesar da sua relatividade, aumentou a partir dos avanços tecnológicos. E no mesmo diapasão, a memória volátil das pessoas parece não assimilar os fatos com o mesmo cuidado das mentes mais antigas. Senão, vejamos: quando a vida transcorria pachorrenta, não se tinha notícias de problemas de saúde como o Mal de Alzeihmer, que, como rato roendo queijo, compromete a memória das pessoas nos nossos dias. ‘Éramos felizes e sabíamos’ é pura memória. Memória de Ademir Fialho, Augusto Vieira, Carlos Lindenberg, Eduardo Lima, Felipe Gabrich, Haroldo Tourinho, Luiz Milton Velloso, Márcia Vieira, Murilo Antunes, Nilo Pinto, Paulo Henrique Souto, Raphael Reys, Ruth Tupinambá, Tião Martins, Juventino (Tininho) Silva, Virgílio de Paula, Walmor de Paula. E, claro, memória de Nenzão. E por falar em Nenzão, ele ainda conserva, segundo disse-me ao telefone, a fazenda Pequi, do saudoso pai, onde se pode consumir na bica do alambique, uma cachaça que já embriagou toda a turma acima relacionada, o que o público leitor poderá comprovar, por exemplo, no texto divertido de Luiz Milton. Fui duas vezes à fazenda, a uns quatro quilômetros de Montes Claros, mas sem a companhia de nenhum deles. Numa das vezes, fui com o técnico Bonga, do juvenil do Casimiro de Abreu, no lombo de um cavalo em pelo. Bonga na frente, conduzindo o animal. Não é preciso dizer que cheguei lá com a parte de dentro das pernas escalavradas. Pior foi na volta, pois além das feridas nas pernas, estávamos tontos, menos o cavalo. Não tenho notícia se o livro foi lançado em Montes Claros. Se ainda não foi, podem esperar, o será. Sinto que os participantes, depois desta provocação, qual músico ao experimentar ‘carreira solo’, cada um deve escrever o seu romance. Espero, portanto, em breve, ter a alegria de ler outros 19 livros.
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Alberto Sena
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26/6/2010 11:21:52
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De estilingues e lagartixas
ALBERTO SENA
Quando papai morreu, lembro-me bem, tinha eu 12 anos. Nós morávamos na Rua Corrêa Machado, 238, em Montes Claros. Menino ainda, calças curtas, jogava bolinha de gude com Ari, um amigo da rua de trás. Lúcia, minha irmã, me procurava, e quando me encontrou, disse: __ Corre pra casa, papai não está bem. Embora menino, captei logo a mensagem dela. Corri o mais que pude. Cheguei a tempo de ver papai dar os últimos suspiros. Ouvi os dedos dos pés dele estalarem e alguém dizendo: __ Os estalos dos dedos foram sinais da partida dele. Talvez para me tirar do quarto, mãe me pediu para correr à casa de tia Ambrosina, irmã dela, a fim de dar a notícia da morte de papai. Peguei a bicicleta Monark e, em rápidas pedaladas, fui à casa de tia Ambrosina. Avisei-a e voltei voando. O velório do meu pai foi na sala de visitas de casa. Ele e mãe estão enterrados na mesma sepultura, no Cemitério do Bonfim, de Montes Claros. Uma foto publicada por Augusto Vieira, numa das suas crônicas mais recentes, sobre a inauguração do Banco Econômico, na qual ‘Tiãozinho do Banco’, pai de Tininho, um dos escribas do livro “Éramos felizes e sabíamos”, fazia discurso ao lado de autoridades da cidade, me levou a lembrar de pai. Ele não está na foto, mas o coronel Coelho, à época o delegado de polícia de Montes Claros, está. E o que tem o coronel Coelho a ver comigo e com pai? O leitor atento há de perguntar. Tem a ver pelo seguinte: o coronel Coelho era delegado do tempo dos delegados “calças-curtas”. Ele era amigo de pai. Um dia, pai me levou à presença do coronel Coelho, sob intimação policial. Um PM havia ido me procurar lá em casa para me intimar. Como na época eu tinha só 11 anos, tive de ir à delegacia com meu pai. Chegando lá, com o coração na mão, vi pai e o coronel Coelho se cumprimentarem. E ele, o delegado, perguntou: __ O que você está fazendo aqui? Ao que pai respondeu: __ Vim trazer o meu filho, ele foi intimado. O coronel Coelho ficou uma fera. Disse: __ Como intimaram uma criança para vir à delegacia?! Bom, fui intimado porque, dias antes, armado de estilingue, juntamente com outros amigos de semelhante idade, eu atirava pedras em lagartixas, na Rua João Pinheiro, próximo de casa. Em certo momento passava um caminhão caçamba, do Departamento de Estradas de Rodagens (DER), e me lembro de ter ouvido um barulho igual ao ruído de vidro se quebrando. Um dos amigos, sem querer querendo, dera uma pedrada no para-brisa do caminhão e no mesmo instante o vidro se partiu em pedacinhos. O motorista parou o caminhão e perguntou quem tinha jogado a pedra. Sabe quem se apresentou? Ninguém. Como não fora eu o autor da peripécia, afastei-me do local com medo de que sobrasse alguma coisa para mim. Desci a rua e continuei, juntamente com outros amigos, a caçar lagartixas, quando ouvi os gritos de Lúcia: __ Corre pra casa porque um soldado foi lá procurar por você e papai está uma fera. Fiquei apavorado. No que entrei em casa senti a mão pesada de pai nos fundilhos. Foi a única vez que levei um tapa dele. Apanhar de minha mãe era comum, um dia sim e no outro também, mas de pai, foi a primeira vez. Como estava inocente no caso, fiquei com a minha consciência tranqüila, mas tinha de ir à delegacia com meu pai. Quase morri de medo de ficar preso. Quando ouvi o coronel Coelho dizer “delegacia de polícia não é para menor de idade”, fiquei aliviado. E mais ainda fiquei quando ele se despediu de mim e saiu do gabinete conversando animadamente com meu pai. O episódio deu-me o que pensar. E tanto pensei que cheguei à seguinte conclusão: o autor da pedrada não foi “Dedinho” como alguns meninos apontaram. Ninguém me tira da cabeça: o autor da pedrada, voluntária ou involuntariamente, fora Sílvio Guimarães, que, se não me engano, hoje é médico em Montes Claros. Estou certo disto, sabem por quê? Assim que o para-brisa do caminhão estourou, vi Sílvio sair de fininho e jogar o estilingue dele no mato. Em seguida, ele ficou com a cara de santinho, santinho de pau-oco, enquanto o motorista dizia cobras e lagartixas querendo um culpado de qualquer jeito.
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Alberto Sena
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21/6/2010 12:04:40
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A valentia do cabo Zé Idálio
ALBERTO SENA
Havia em Montes Claros, no tempo dos delegados “calças curtas”, como eram chamados, porque não eram bacharéis em Direito, mas oficiais da Polícia Militar (antes nem militares eram os “calça-curtas”, mas um civil, cidadão comum, daí a origem da alcunha), havia um cabo chamado José Idálio. Era um tipo de estatura baixa, franzino, usava bigodes e os cabelos cortados baixo, com entradas dos lados da testa. Para resumir, o cabo José Idálio, que daqui para frente será chamado de Zé, era temido em todas as hostes pela valentia. Muitas das vezes, ele até extrapolava na valentia. Só era pequeno, mas parecia galinho de briga, um garnisé. A lei era ele. O delegado de polícia na época era o capitão Vasco, da Polícia Militar. Um homem forte, olhos verdes, considerado também valente. O capitão era de Belo Horizonte, mas se casara com uma moça de Montes Claros. Corria a década do golpe de 1964, contra o presidente João Goulart, o Jango, quando até o PM mais simples se revestiu de poder fora do comum. Nessa época, tínhamos a impressão de que as pessoas eram vigiadas por olhos invisíveis, como se câmeras tivessem sido espalhadas por todos os cantos. Nós estávamos dentro da delegacia. Éramos três: o capitão-delegado Vasco; o jornalista Felipe Gabrich, pelo “Diário de Montes Claros”; e eu, pelo “O Jornal de Montes Claros”. Estávamos ali colhendo notícias. De repente, começamos a ouvir gritos de socorro vindos da rua. “Capitão Vasco, socorro; capitão Vasco, socorro...” O capitão se levantou da cadeira num salto e correu para fora do gabinete para ver o que acontecia. Nem bem tinha saído do prédio da delegacia, na Rua Dr. Veloso, ele deu de cara com Jabbur correndo e gritando por socorro. Atrás dele vinha o pequeno Zé Idálio de revólver em punho. Jabbur – o prenome dele, eu não me recordo, mas Gabrich, certamente, saberá dizê-lo – se abraçou com o capitão Vasco, gritando: “socorro, Zé Idálio quer me matar”. Não se sabia o porquê de os dois terem se desentendido, nem é o caso de procurar sabê-lo. O interessante, para não dizer engraçado, foi o sufoco de Jabbur, pedindo socorro ao capitão. Muita gente correu para ver o que acontecia. O Zé recolocou o revólver no coldre e tudo ficou como dantes, “no quartel de Abrantes”, por conta de um “mal-entendido”. Outra passagem envolvendo o cabo Zé Idálio aconteceu antes, muito antes de o autor deste texto trabalhar como repórter do JMC, eventualmente, cobrindo o setor de polícia. Foi no tempo em que a Praça Coronel Ribeiro tinha prestígio, era bem cuidada e o Cine Cel. Ribeiro tinha a maior audiência da cidade. Os melhores filmes da minha vida eu os assisti no Cine Cel. Ribeiro. Naquele tempo, sabiam-se os nomes de todos os monstros sagrados do cinema: Marlon Brando, Kirk Douglas, John Waine, Elizabeth Taylor, Sofia Loren, Gina Lollobrigida, entre outros. Estávamos sentados num dos bancos da praça. Caía a tarde. O movimento era o de sempre. Uns iam, outros vinham, enquanto alguns compravam ingressos para entrar no cinema. De repente, apareceu o cabo Zé Idálio vindo da direção da Montanhesa, um bar que havia na esquina de Rua Bocaiúva. Ele trazia preso um homem seguro pelo cós da calça e com um dos braços dobrado para trás. A certa altura da praça, Zé Idálio começou a socar o homem. Mas foram muitos socos, e o homem gritava tanto, que as pessoas começaram a pedir por ele. Mas o Zé não parava de bater nele. As pessoas continuaram gritando até que o cabo resolveu atender aos apelos e soltou o prisioneiro. Esbaforido, o homem saiu em “desabalada carreira” sem ao menos olhar para trás. Mais tarde soubemos: ele fora apanhado tentando furtar uma pessoa na estação rodoviária antiga, ali próximo da Praça Francisco Sá. Naquele tempo de delegado “calças-curtas” o terror era o cabo. Coitado de quem caísse nas mãos de Zé Idálio. Ele resolvia tudo no braço ou no revólver, pelo menos para amedrontar. A técnica dele era simples assim. Hoje em dia, em Montes Claros, que evoluiu bastante, eu acredito isto não deve ocorrer mais. Hoje os delegados são bacharéis em Direito. Mas em compensação, as ocorrências policiais ganharam feições novas. Tanto de um lado como do outro. É que Montes Claros virou cidade grande. E quando se é grande, a cidade fica “metida a besta”, assim como acontece com muita gente adulta, que deixa escapar o espírito infantil, a simplicidade da criança que morava dentro do peito.
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Alberto Sena
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15/6/2010 09:27:26
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Time de Bonga
Alberto Sena
Meu futuro como jogador de futebol profissional não passou de uma experiência amadora no Juvenil do Casimiro de Abreu, mais conhecido como “time de Bonga”, em Montes Claros. No futebol daquele tempo, os dois ponteiros tinham só duas opções de jogo. Ou entravam pelo meio rumo ao gol ou iam à linha de fundo e cruzavam para a área. Como ponta direita veloz, a minha especialidade era ir à linha de fundo a fim de cruzar ‘na coivara’. Tecnicamente, eu me arrumava com uns cortes pela direita e pela esquerda ou com uma jogada de corpo ou mesmo gaúchas para pegar a bola além do marcador. Mas a instrução era de o meio-campo, com Aloísio, Carlinhos ou Adilson, lançar os ponteiros rumo à linha de fundo. O que acontecia depois sempre me lembrava a ansiedade de um técnico de time de várzea, analfabeto de pai e de mãe; ele costumava gritar para os seus pupilos: “chuta na coivara e frexa”. No meio-campo, Aloísio era mestre em lançamentos. Gritava: “vai...” E dava chutes enviesados, quase todos bem aproveitados, quando não eram com muita força e a bola ia para fora. Não fui ponta direita de marcar muitos gols. Mas proporcionava gols de badeja para os companheiros indo à linha de fundo fazer cruzamento e os gols saíam da cabeça de Ronaldo Chamone ou do pequeno Zoca, que feito Garrincha, tinha pernas tortas, habilidade e agilidade de um craque – ele até jogou no time principal, dos adultos. O técnico Bonga tinha relação quase profissional com ‘a rapaziada’, como gosta de dizer o controvertido Romário, autor de mais mil gols. Com quase dois metros de altura, Bonga fora goleiro profissional e conhecia muito de futebol e nos transmitia toda a sua sapiência deste esporte bretão. O time tinha até atendimento médico no consultório do dr. Barreto. Cada um possuía escaninho. Os uniformes, todo branco ou todo azul, eram limpos e bem conservados; cada um recebia chuteira e tinha roupa de treino, tudo impecável. O time juvenil do Casimiro de Abreu era espelho do time principal. Havia na época uma rivalidade grande entre Ateneu e Casimiro de Abreu. Bonga não admitia fumante no grupo. Se ele visse um de nós fumando, além de tomar o maço de cigarros e jogar fora – e ele tomou algumas vezes – ficava chateado. Era como o pai que se surpreende ao deparar pela primeira vez com o filho fumando. Bonga ficava “de mal” por algum tempo. Entre nós, Chiquinho era o que mais fumava e em compensação era o mais resistente em campo. Num domingo, ele ganhou corrida de resistência na pista da Praça de Esportes, de manhã; e à tarde, jogou os 90 minutos pelo Juvenil do Casimiro de Abreu e ainda marcou um gol. Fomos bi-campeões da categoria e achamos que podíamos ganhar do Juvenil do Botafogo, no Rio de Janeiro, em General Severiano. Fomos levados por Toninho Santos de ônibus dirigido por Renê, irmão de Muzinho. Ele fazia aquelas curvas da estrada do Rio como se estivesse numa reta. O coração ficava nas mãos. Era a minha primeira viagem interestadual. Ficamos hospedados num casarão antigo em Botafogo e antes do jogo fomos à praia, e foi então que muitos de nós vimos o mar pela primeira vez. Depois fomos almoçar no Canecão (não por coincidência, está fechando ou já fechou as portas) e em seguida, nos preparamos para o jogo. Na época, Ferreti era o centroavante do Botafogo e ele, sozinho, liquidou a fatura: 4 a 1 em riba de nós. Ainda assim, achamos que aquilo fora uma fatalidade e convidamos o Botafogo para ir a Montes Claros. E sabe o que aconteceu? O Botafogo aceitou. O jogo foi numa noite, no campo do Ateneu. Eu nunca tinha jogado sob as luzes de refletores. As arquibancadas ficaram apinhadas de torcedores. Empatamos em zero a zero. O nosso goleiro, Duílio, pegou dois pênaltis. E sabe o que o Botafogo fez? Levou Duílio para o Rio de Janeiro. Os comerciantes atacadistas João e José Maria Melo eram os grandes incentivadores do juvenil do Casimiro de Abreu. Volta e meia, eles arrumavam compromissos para nós nas cidades vizinhas, como Janaúba, Januária, Jequitaí, Granjas Reunidas, Engenheiro Dolabela, entre outras. Nós viajávamos na carroçaria da caminhonete dirigida por João Melo. Nunca vi ninguém com pé tão pesado no acelerador. Mas pudera, a caminhonete vermelha parecia conhecer de cor e salteado todos os pedregulhos do cascalho das estradas. João Melo ligava a ignição e o resto era por conta da caminhonete. Só uma vez aconteceu um acidente. A caminhonete capotou. Por sorte ninguém morreu. Eu e outros não estávamos nesse dia. João Batista estava. Ele ficou sem um dedo da mão.
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Alberto Sena
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7/6/2010 17:58:40
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UM TREM CORRE NA TRILHA DELE
(Para Didimo Paiva, pela riqueza de vida)
ALBERTO SENA
Nas últimas semanas, tive e ainda tenho o privilégio de conviver mais de perto com Didimo Miranda de Paiva, que só de jornalismo tem a idade de gente quinquagenária. Durante mais de duas décadas trabalhamos juntos. Isto é, juntos na mesma redação do jornal ‘Estado de Minas’, na Rua Goiás, 36, em Belo Horizonte. Um circunscrito às divisórias de uma editoria e o outro noutra. Quase a vida toda, Didimo editou o noticiário internacional e escreveu milhares de editoriais e artigos. Quero dizer com isto: ninguém conhece de fato o outro na correria desenfreada da rotina de redação de um grande jornal. Ainda mais quando se ocupa cargo de chefia. As solicitações são diversas. Não param. O telefone chama, o repórter pede orientação, o diretor de Redação solicita ou manda fazer alguma coisa. Vai por aí a trabalheira. Sem contar com a necessidade de concentração para ler, rever, escrever e editar páginas e mais páginas de olho no relógio, para não perder o fluxo nem comprometer o ritmo da oficina e a impressão do jornal. Na Redação do ‘Estado de Minas’, em todos esses anos de convivência no trabalho, conhecemos, claro, todos nós, o talento, a competência, o rigor, a disciplina e o espírito libertário dentro do peito de Didimo e que em várias oportunidades deu mostras de justeza em defesa da democracia e de companheiros presos durante a ditadura militar, pós 1964. Além da sua luta ferrenha, sindical, em defesa dos trabalhadores de modo geral. Mas uma coisa é conviver com alguém no trabalho. Outra coisa é conviver mais de perto, sem a correria característica da redação. Como dizia no início, nas últimas semanas tive e ainda tenho o privilégio de conviver com Didimo ao ponto de entrar na vida dele. Escarafunchar o passado dele. Viver o presente dele. E por isto mesmo, conhecê-lo mais do que o conheci durante quase duas décadas e meia de trabalho na Redação do EM. As pontas dos dedos coçam querendo ir mais adiante nessa exaltação ao Didimo. Mas ainda não é chegado o tempo e também porque, de fato, a intenção não era bem essa ao começar a escrever este texto. O que me levou a trepidar nas teclas do computador foi a informação que colhi da boca de Didimo, e certamente cairá no agrado dos corações montesclarenses: uma das mais importantes coberturas jornalísticas feitas por ele, ‘em toda a minha vida’, foi o caderno especial sobre o Centenário de Montes Claros, em 1957. Na ocasião, Didimo entrevistou Simeão Ribeiro Pires, Hermes de Paula e ainda investigou a vida de Dona Tiburtina, entre outras coisas. Fez tudo sozinho. Montes Claros vai completar 153 anos daqui a pouco. Para que cada um possa exercitar a cachimônia e a aritmética, faça as contas. Descubra quantos anos tem o caderno especial que Dídimo fez sobre o Centenário de Montes Claros. O detalhe curioso mesmo é o fato de ele ter namorado uma mulher de Montes Claros durante os festejos do centenário. Ela vive. Segundo garantiu, ficou apaixonado. Não entramos nos detalhes sobre o porquê de o namoro ter acabado. Nem era conveniente ir mais fundo nessa direção. Sequer o nome da namorada foi revelado. Outra informação colhida nas conversas com Didimo: na década de 1960, o Brasil tinha cerca de 30 mil quilômetros de estradas de ferro. Podia-se cortar o País de cabo a rabo, de trem. Caso específico de Montes Claros, com o trem de passageiros. Vinha de Salvador, passava por Monte Azul, no Vale do Jequitinhonha, até Montes Claros. De Montes Claros ia para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro. Hoje, o Brasil usa pouco mais de 11 mil quilômetros de estrada de ferro. 19 mil quilômetros de estrada de ferro enferrujaram e enferrujam ainda cada dia mais. Um prejuízo incalculável. Bens materiais e os problemas socioeconômicos e políticos gerados pelo fato de a opção em termos de transporte ter sido rodoviária, ninguém pode avaliar com certeza. Didimo termina um livro sobre mineração, em que mostra, com a maior riqueza de detalhes, o quanto sofrem os países ricos em minerais. Fiquei pensando se o Norte de Minas não está na iminência de virar ‘território chinês’ por causa do minério de ferro. Mas vamos esperar para ler o livro dele quando chegar a hora. Saberemos, então, o porquê de a riqueza não ficar nos países detentores das lavras. Cria asas ou toma doril. Enquanto conclui o livro, Didimo empreende outra viagem. Esta, imaginária, em um trem. E ao mesmo tempo, é uma viagem tão real como a própria vida dele, desde a sua querida Jacui, no Sul de Minas, até aos anos 2010. Estudioso, digno, defensor dos direitos coletivos, ele é daqueles homens que, de fato, amam a raça humana. Todo dia Didimo se levanta às 4h da madrugada, senta à mesa, pega papel, caneta e vai escrever.
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Alberto Sena
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3/6/2010 08:36:55
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Minha primeira vez
Alberto Sena
A primeira vez que vi o corpo de um homem assassinado foi há muito tempo, quando Oswaldo Antunes, jornalista dono do “O Jornal de Montes Claros” me chamou à sala dele e disse: “a partir de amanhã, você vai fazer cobertura de polícia”. Até então eu cobria Esportes em substituição a José Geraldo Gomes. Aceitei o desafio e uma das minhas primeiras matérias foi o assassinato de um homem a facadas. Não sei se já disse isto aqui, porque eu costumo contar: na cobertura de polícia a gente aprende e apreende um pouco de toda matéria terminada em “gia”: psicologia, sociologia, antropologia, parapsicologia etc. Na prática, para mim, particularmente, foi muito importante. Dizem que a cobertura jornalística do setor policial equivale a um curso prático de jornalismo. E é mesmo. Os principais jornalistas do país, pelo menos os mais antigos, iniciaram carreira na editoria de Polícia. Uma coisa importante é sempre buscar os porquês. Quem me ensinou isto foi Wander Piroli, escritor e editor de Polícia, no Jornal Estado de Minas. Ele dava exemplo: “fulano matou? Por quê? Beltrano roubou? Por quê?” Em busca dos porquês se pode saber como vai a alma humana. Mas isto é outra história. Ia dizendo: a primeira vez que vi um corpo de gente assassinada foi logo depois que um informante ligou da Delegacia de Polícia, ali na Rua Dr. Veloso, para o JMC avisando que um homem havia sido assassinado com mais de dez facadas num lugarejo próximo de Montes Claros. A polícia estava indo ao local e se eu quisesse podia ir junto. Fui. Lembro-me que a estrada era de terra, mas tanta terra que houve quem cuspisse tijolo depois de beber um copo d’água. Chegamos ao lugar e fomos a casa onde havia começado o assassinato. Vou contar como se deu e deixar todos bem informados para o que virá em seguida. Uma mulher dera não sei quantos “cruzeiros” ao amante para que ele assassinasse o marido dela. Só assim ela acreditava que os dois poderiam “viver felizes para sempre”. Se é que se pode viver feliz para sempre tendo na consciência o permanente fantasma de alguém. E aconteceu que, na noite anterior, quando o marido chegou a casa e pediu a mulher para abrir a porta, quem o atendeu não foi ela, mas o amante. Armado de faca tipo peixeira, ali mesmo ele deu a primeira facada no marido traído. O marido se afastou e tentou se desvencilhar do golpe seguinte, mas o matador foi mais rápido e o esfaqueou pela segunda vez. O homem deu uma meia volta e correu para dentro de um matagal próximo. O assassino o perseguiu e foi lhe dando facadas nas costas uma atrás da outra até que o marido traído não resistiu mais correr porque perdera muito sangue. Caiu. E do modo que caiu ficou. Nós saímos da casa àquela altura vazia e fomos seguindo as pistas de sangue. Entramos por dentro do mato, numa distância de uns 200 metros da casa. Deu para se ter uma ideia do que o marido traído passou, correndo do amante, tentando se desvencilhar da faca seguidas vezes. Dentro do mato, a alguns metros antes de chegarmos próximo de onde jazia o cadáver, já se percebia a presença dele ali estirado, por causa do excesso de sangue coagulado no local e o mato bastante alquebrado. Ficou claro: mesmo esfaqueado o homem lutara contra o amante da mulher. O cadáver estava de barriga para cima, uma das pernas encolhida e os braços estirados. Rígido, a boca aberta, cheia de formiga saúva. Os olhos arregalados pareciam de quem morrera sem acreditar: o assassino, amante da própria mulher, era alguém que frequentava a casa dele e se passava por “amigo da família”. “Mulher paga amante para matar marido”, eis a manchete da página de polícia na edição seguinte. Foi nessa ocasião que comecei a apreender até onde podia ir a crueldade do ser humano, quando não se tem coração para atribuir real valor à vida, e se relativiza a importância de um ser vivente.
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Alberto Sena
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28/5/2010 07:09:09
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No ventre da Mãe Terra
Alberto Sena
Combinamos levantar às 5h. Um passaria na casa do outro. Juntos, íamos à Lapa Grande. Éramos amigos. Vários. Certamente, não me lembrarei de todos. Isto aconteceu há décadas, quando ir à Lapa Grande significava andar por trilhas no meio do mato, ouvir o canto de passarinhos logo cedo e até deparar com pequenos animais, como teiús, calangos, almas de gato, pássaro grande, de rabo comprido e vôo pesado. Imagino: hoje a cidade já chegou à Lapa Grande. Faziam parte do grupo: Marlúcio (“Brasa Mora”), Chico Gomes, Rubinho Sena, Reinaldinho, Madureira, Cícero Stru e outros. Como nós íamos precisar iluminar o interior da lapa e ninguém tinha lanterna, combinamos levar querosene para improvisar tochas e assim resolveríamos o problema da escuridão. Cada um cuidou de fazer a sua matula e levar refrigerante, vinho, do tipo garrafão, naquela época, era o que se bebia; senão cerveja e cachaça, o que não era o caso de levar na excursão. E como era chique fumar, nós fumávamos, e cada um tratou de levar a sua dose de veneno. Fumávamos cigarros Minister, em embalagem branca com a marca em azul. Era atraente. ‘Brasa Mora’ passou lá em casa. Juntos, fomos à casa de Cícero Stru, próxima da minha, na Rua Corrêa Machado, esquina de Rua Dr. Veloso. Fomos à casa de Chico Gomes, na Rua Bocaiúva. E descemos a Rua General Carneiro para acordar Rubinho Sena e, em seguida, nos encontramos com os demais ali na Praça Dr. Carlos. Cada um levava sua sacola de mantimentos. O sol de Montes Claros rachava paralelepípedos. Fomos andando, cada um querendo expandir mais a satisfação de estarmos indo passar o dia na Lapa Grande. As ruas da cidade estavam vazias de gente, de carro e de bicicleta. Saímos da cidade e fomos seguido trilhas rumo a Lapa Grande, sobre a qual se contavam histórias e aventuras mil. Lá chegando, na entrada aprontamos as tochas. Cada um ficou com uma. Antes subimos numa elevação já dentro da lapa, logo na entrada. Houve quem subiu nela e não conseguiu descer do topo sem ajuda. Acendemos as tochas e embrenhamos lapa adentro. Deparamos com morcegos, aparentemente não hematófagos. O morcego hematófago transmite a raiva. Toda noite ele vai ao mesmo lugar onde atacou o animal na primeira vez e fica grudado, sugando o sangue do bicho, transmitindo germes da doença mortal, também para o ser humano. A Lapa Grande é dos melhores pontos turísticos de Montes Claros. Além dos mistérios que a lapa encerra, era agradável entrar pelos corredores e rastejar em alguns lugares aparentemente inacessíveis, para encontrar lá no fundo um rio de águas límpidas. Não sei se o rio ainda existe. Aonde a cidade chega, infelizmente, a natureza desaparece porque o bicho homem põe as mãos cheias de dedos e estraga tudo. Em um ponto onde todos tinham de rastejar por estreito túnel para atingir um dos salões da lapa, foi um deus-nos-acuda. Chico Gomes sofreu crise claustrofóbica, passou mal sem poder respirar. Íamos um atrás do outro. Como Chico estava mais ou menos no meio do grupo, a situação dele nos assustou. Mas não recuamos. Fomos incentivando o companheiro a seguir adiante até nos depararmos com um salão. A exceção dos morcegos, nenhum animal nós encontramos. Vimos estalagmites, formações de baixo para cima; e estalactites, formações do teto para baixo, mas não tocamos em nada porque já tínhamos noção da importância de preservar os bens naturais. Encontramos o rio e experimentamos entrar na água. Gelaaadaaa!!!. Incursionamos por vários ambientes da lapa e depois iniciamos a saída. Até que sair foi mais fácil do que entrar. Mas foi engraçado na saída. Rimos até doer a boca do estômago. Ao chegarmos do lado de fora, à luz do sol, um olhava para o outro e disparava a rir. Nem todos tinham ideia do que se passava, mas riam assim mesmo. Houve crise de riso porque cada um tinha marcas nas narinas por ter respirado lá dentro da lapa a fumaça escura do querosene. Eram como dois canudos pretos nas entradas do nariz. Chico Gomes, aliviado, crise de riso controlada, jurou nunca mais experimentar sensação tão estranha como a claustrofóbica, inda mais na Lapa Grande, no ventre da Mãe Terra.
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Alberto Sena
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23/5/2010 09:36:21
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Viva o Divino; salve Chico Rei
Alberto Sena
Darcy Ribeiro, com toda verve libertária, de homem que nutria profundo amor ao ser humano, costumava dizer: “o meu sonho é ser Imperador do Brasil”. Quem o ouvia dizer isto achava no mínimo que Darcy estava sendo incoerente com tudo; toda a sua carreira de professor – ele era tudo, mas gostava de ser chamado de professor - antropólogo, indigenista, escritor, político etc. Dizia isto e sorria, para depois explicar: “meu sonho é ser Imperador do Brasil nas Festas do Divino, no mês de agosto, em Montes Claros”. Mês de agosto em Montes Claros era diferente de mês de agosto em qualquer lugar do planeta. O Sol assumia cor avermelhada e dava a impressão de estar ao alcance da mão. Ficava como Lua Cheia, enorme bola solta no espaço. Longe de nós 150 milhões de anos-luz, Sol com alguma semelhança ao de Montes Claros só se veem em Brasília, porque erigida no Cerrado; ou em Israel, no Oriente Médio, onde, diferentemente daqui, o Sol alaranjado, as águas do Mar Mediterrâneo o engolem não por acaso, a cada ocaso. Os raios do Sol de agosto se misturavam com a bruma característica da estação de seca na região do Norte de Minas, e a bruma se confundia com a fumaça de queimadas, quando os agropecuaristas assim preparavam o terreno para lavorar e plantar capim. E era então este um sinal de que havia chegado o tempo do desfile dos catopês. Enfim, as festas do Divino Espírito Santo. O espetáculo de simplicidade dos catopês penetrava a menina dos olhos e ia direto ao fundo do mar onde moram os mais elevados sentimentos humanos, e de lá uma voz dizia: chegou o tempo de lembrar a gente caçada como bicho do mato, a gente aprisionada como fera, a gente trazida à força para o Brasil de antanho nos chamados navios negreiros. Darcy sonhava ser Imperador do Divino. Este escriba, do alto da sua insignificância, tinha pretensões outras: ser catopé, ostentar a beleza das faixas coloridas da cabeça aos pés; os espelhos na testa a espalhar em todas as direções os reflexos do Sol escaldante de Montes Claros. Queria suar como suavam os catopês a bailarem felicidade do momento; a reviverem as lembranças do passado – e a memória dos antepassados –; e a sonharem sonhos de um futuro alvissareiro. Mas foi tarde – e antes tarde do que mais tarde – que se foram caindo os véus e se soube por meio de pesquisas nos alfarrábios, o porquê de gente simples o ano inteiro viver a expectativa de se sentir na pele de príncipes, de reis e de rainhas nas festas do Divino, em agosto. Os experts em matéria de folclore, como Saul Martins, para citar um, contam que os catopês todo ano lembram Chico Rei. E quem foi Chico Rei? Um príncipe negro africano trazido à força para o Brasil só com a passagem de vinda em navio negreiro. Aos poucos ele comprou a própria liberdade e fundou uma espécie de cooperativa para alforriar escravos. E assim, em torno dele os escravos alforriados formaram “um reinado”. Daí o costume. É preciso lembrar Chico Rei em meio às festas do Divino, em agosto. A primeira notícia que se tem das Festas de Agosto é de 23 de maio de 1939, ocasião em que são homenageados o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Em que pese toda a seriedade dos festejos de agosto aqui evocada, não custa nada contar um episódio engraçado. E na sequência um acontecimento de final trágico, para dar mais substância ainda ao ambiente folclórico. A cena se deu em plena Rua Dr. Santos. Os catopês vinham em cantoria. Bailavam. Na porta de uma casa em estilo colonial, pouco abaixo da Praça Coronel Ribeiro (salvemos a praça!) de calção e nu da cintura para cima, estava um jovem. Ele observava atentamente os catopês e suas fitas coloridas, esvoaçantes. Sem que ao menos suspeitasse, por trás dele veio o irmão menor. Num gesto rápido, de criança sapeca, puxou para baixo o calção do jovem. Por eternos segundos, ele ficou peladão diante dos catopês e dos circunstantes. O riso foi geral. Num átimo, ao se vir pelado, o espantado jovem puxou o calção para cima e, chorando de vergonha, correu ao encalço do irmão. O final fugiu do universo folclórico e caiu na realidade de alguns anos adiante. A lembrança escapou por uma fresta do baú. O jovem peladão morrera afogado numa piscina. Na ocasião, disseram, “ele estava praticando pequenos furtos e a mãe dele fez um pedido a Deus: “prefiro ver o meu filho morto a vê-lo preso como ladrão”.
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Alberto Sena
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17/5/2010 07:44:07
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Uma viagem que seria outra
Alberto Sena
“Eu não estava, mas estavam: Joe, Cássio, Picolino, Tinim, Ademir, Buteco, Lidê e mais uma dúzia da nossa turma (Joe há de lembrar mais nomes), indo de Belo Horizonte para Montes Claros. “O propósito era curioso: Edgar Pereira, então candidato a deputado, alugou um dos vagões do trem para seus ‘eleitores’ montesclarenses. E lá se foi a rapaziada para o sertão. “Lá pelas 7 da noite, o trem parou em Sete Lagoas. A turma já estava ambientada no vagão-restaurante, a tomar umas e outras jogando baralho. O chefe do trem veio organizar a fuzarca e pediu que eles interrompessem a farra para darem início ao serviço do jantar. “Claro que a solicitação não foi atendida. Um policial na plataforma da estação interpelou o Lidê e o Buteco para que parassem a confusão. Joe, de enxerido, gritou pra um deles: “quê que tá rolando aí, bicho?” “O policial achou que era para ele, berrou de lá: “não tem nenhum bicho aqui não”, e recolheu o rapaz para a delegacia. “O trem prosseguiu sem o mano (no sentido lato, não no sentido paulista da palavra). Joe se lembrou de um advogado amigo do meu pai, pediu a uma pessoa na delegacia que tentasse se comunicar com ele e a pessoa, gentilmente, o fez, tirando Joe detrás das grades muitas horas depois. “No trem que havia seguido com os mancebos, mais um incidente de percurso. Pela algazarra, baderna, bebida e baralho, todos os companheiros de viagem de Joe foram expulsos do trem em Curvelo. “Enquanto isso, Joe, sem saber de nada, foi, de carona em carona, até chegar a Montes Claros. “Qual foi sua surpresa ao chegar à casa de Buteco, onde supostamente estaria sua mala? Ninguém havia chegado ainda a Montes Claros, o que acabou acontecendo na noite do dia da eleição. “Resultado: não dava mais pra votar, nem aqueles que votariam mesmo no Edgar Pereira. Ele perdeu vários votos, mas a rapaziada ganhou uma história e tanto pra contar depois”. Como o leitor atento deve ter notado, a narrativa não é minha. É do amigo Murilo Antunes, grande poeta, letrista, publicitário nas horas vagas. Como tratou de registrar logo no início da narração, ele não participou de nada. Joe quem contou tudo depois, o que foi corroborado pelos demais. Mas eu tenho leve suspeição quanto ao fato de Murilo não ter ou ter participado da fuzarca. Para contar tudo com essa riqueza de detalhes, acho que ele tirou foi o cotovelo da reta. “Eita” turma danada! Foi o que disse logo depois receber a mensagem. Se se pensar bem, cada um de nós tem uma história vivida no trem de passageiros. Carmen Lúcia Antunes, que viveu uma vida ali na Rua Bocaiúva, todo dia via o trem passar porque a linha férrea dava para os fundos do quintal da casa dela. E ela diz que se lembra muito bem, como se tudo estivesse acontecendo neste momento, o pai dela, Sr. Jonas, comprava uma cabine de trem e ali toda a família viajava no conforto para a capital. Eu mesmo, quando morei na Rua São Francisco, com mais ou menos dez anos, o quintal de casa dava fundos para a linha férrea. Com os meus irmãos e irmãs fazíamos a mesma coisa. Quando vinha o trem corríamos para os fundos do quintal e lá ficávamos acenando para quem chegava. Quando alguém da família viajava e sabíamos que chegaria naquele dia, então a festa era maior. Acontecia de o trem parar antes de chegar à estação, e então ali mesmo pai ou um dos irmãos apeava e logo estava desfazendo as malas em casa. O trem de passageiros nos traz recordações. O apito só já abre a tampa do baú. As passagens são muitas. Idas e vindas. Acredito que, mais dia menos dia, o governo federal investirá pesado em ferrovia a fim de aliviar o transporte de automóveis. As rodovias estão como estão. As fábricas cospem carros e as concessionárias vendem na base de prestações de 90 meses e por isso as ruas estão abarrotadas. Repare: em 100 carros nas ruas, mais de 90 são ocupados por só uma pessoa, o condutor. Daqui a pouco estaremos todos fadados a ficarmos dentro dos carros, parados, no meio das ruas congestionadas, principalmente nas grandes cidades. Os trens, ao contrário dos carros, são mais práticos, confortáveis e econômicos. E com a grande vantagem para os nossos dias: não poluem o ambiente com monóxido de carbono e coisas tais.
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Alberto Sena
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13/05/2010 10:47:48
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Cidade hospitaleira
Alberto Sena
Montes Claros é cidade hospitaleira. Sempre foi. Mas essa particularidade já lhe rendeu alguns dissabores. De tanto receber bem o visitante, se é gente mal-intencionada, acaba se aproveitando da hospitalidade. É aí onde mora o problema. Certa feita apareceu na cidade um homem que se dizia mágico, mestre em hipnose. Na época o método hipnótico freudiano estava em alta. Já nem sei mais como é que se escreve o nome do cara. Mas a pronúncia lembra algo como ‘Orietebei’. Vamos fazer de conta que era esse o nome dele. O homem já chegou com o aval de gente da soçaite de Montes Claros. Não digo quem o trouxe porque de fato não o sei, mas o homem, galante, conquistou algumas das fêmeas cobiçadas da cidade naquela época. ‘Orietebei’ disse que ia dar um curso de mágica no auditório do Colégio Imaculada Conceição. Antes, circulou por todos os cantos da cidade e se projetou, demonstrando, já naquela época, como se faz marketing pessoal. Ele até deu alguns exemplos de magia. Dizia ser descendente de clã de mágicos, cujo nome estaria inscrito no Livro do Guiness etecétera e tal. Ele desafiou uma turba de jovens, ali na porta do bar Montanhesa, na Praça Coronel Ribeiro. Claro que todos já perceberam a temporalidade deste caso. A Montanhesa era na esquina de Rua Bocaiúva e hoje, acredito, nem deve existir, pois como escuto daqui do alto do mirante da Serra do Curral, a Praça Coronel Ribeiro está indo para o beleléu. Ele pediu que cada um se sentasse no meio-fio e ficasse com as mãos entre as pernas. Os que aceitaram o desafio se sentaram e depois de alguns instantes, ele disse: “agora, se forem capazes, levantem-se”. A maioria permaneceu sentada, mas houve quem se levantou. Em volta de ‘Orietebei’ se formou uma aura de suspeição. Com o passar dos dias, na cidade as pessoas começaram a perceber: “ele não é bem o que diz ser ou parece ser”. Mas uma coisa não se podia tirar dele: a capacidade de conquistar as mulheres. E foi neste particular o abuso dele. Imagine Montes Claros e a religiosidade constatada em cada porta; e os hábitos e os bons costumes, os motes de pregação e de castidade etc. Já nem sei mais como aconteceu, mas de uma hora para outra, ali na Rua Dr. Veloso, onde funcionava a Delegacia de Polícia, o nome ‘Orietebei’ passou a ser ouvido com frequência. Saía da boca de pessoas que se diziam prejudicadas pelo tal e foram à Delegacia registrar queixa. Então, alguns policiais saíram no encalço do suposto mágico. É possível que ‘Orietebei’ soubesse alguns princípios de magia porque duma hora para outra, ele desapareceu com uma mulher da sociedade montesclarense. O acontecimento foi um escândalo, deu até notícia em jornal, na página de polícia. A mulher ficou vidrada, caiu na lábia de Orietebei, a quem pedira que fizesse uma experiência hipnótica com ela. Ele atendeu, mas a hipnose só durou o suficiente para passarem uma noite em Januária, onde a mulher caiu na real e se livrou de ‘Orietebei’. Parentes dela foram lá e a trouxeram de volta para Montes Claros. Os tempos agora são outros. Muita coisa mudou na cidade. Crescimento para tudo quanto é lado. Por causa da BR-251, que leva a Rio-Bahia, tema abordado por Waldyr Senna recentemente, a região do Norte de Minas ganhou movimento extraordinário, e recebeu, e ainda recebe problemas de toda ordem. Mas As pessoas estão mais atentas para não caírem em golpes como o de ‘Orietebei’. Uma só coisa, eu acredito não mudou em Montes Claros: a hospitalidade. Senão, uma pá de gente conhecida, que já esteve na cidade e a apreciou tanto, não sairia falando tão bem do clima, do calor humano, do pequi, do araticum, da pitomba, do umbu, do requeijão, da cachaça, da farinha, da carne de sol, do doce de marmelo, do doce de cidra, do Mercado Municipal, dos restaurantes e pizzarias da Avenida Sanitária, do Automóvel Clube, do céu quase ao alcance das mãos, das noites de Lua Cheia, da exposição agropecuária, das moças bonitas, das festas, dos grandes homens, das grandes mulheres, da cultura, da intelectualidade...
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Alberto Sena
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11/5/2010 12:39:04
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Trem não para na estação
Alberto Sena
Quem leu “O trem de passageiros” deve ter sentido saudade do trem Montes Claros / Belo Horizonte e vice-versa. Magela Sena é uma dessas pessoas e diz ter muita história para contar. Escritora, ela lançou ano passado o livro “Labor Clube Internacional de Montes Claros”. Mas era realmente uma das coisas mais preciosas da cidade o trem de passageiros. Saía de Salvador e entrava em Minas Gerais pelo Vale do Jequitinhonha, passava por Monte Azul e chegava a Montes Claros, de onde ia para Belo Horizonte e de lá ao Rio de Janeiro com o nome de “Vera Cruz”. De BH / Rio era trem elétrico. Uma senhora viagem. Apesar da demora, as vantagens eram muitas para quem gostava de apreciar as belezas da Mãe Natureza e ao mesmo tempo experimentar a sensação de ter contato com gente, pessoas diferentes, de todos os cantos. Era boa oportunidade para estudos socioeconômicos e antropológicos do brasileiro. Quem é mundissensor, certamente iria gostar de fazer hoje uma viagem desta. No fundo, bem no fundo, uma viagem ao interior de si mesmo, tamanha profundidade e a oportunidade de sentir, ver e ouvir as mais incríveis histórias dignas de serem narradas por Darcy Ribeiro e Gabriel Garcia Marques, que vão fundo na alma humana. É incompreensível o porquê de terem acabado com o trem de passageiros, por mais que tenham argumentos para provar por A mais B que era necessário mesmo. Na realidade, o quase fim da ferrovia começou com o incremento da indústria automobilística, introduzida por JK. Não foi à toa que o batizaram de “presidente estradeiro”, porque a partir dele as rodovias ganharam cada vez mais espaço e de pouco em pouco a ferrovia perdeu investimento até dela se esquecerem. E deu no que deu. Mas incentivar o ressurgimento da ferrovia é possível, sem prescindir, claro, da malha rodoviária precisada de manutenção constante; tapa buraco aqui, ali e acolá e os buracos estão de volta dando prejuízos de vidas humanas e materiais. O Brasil é muito grande e um ramal ferroviário poderia cortar o país de cabo a rabo, reduzindo gastos de toda ordem e principalmente de manutenção. Depois de publicado o texto sobre “O trem de passageiros”, o amigo Wagner Gomes, o tempo todo de olho nos acontecimentos da política, gente fina da Montes Claros querida, enviou um vídeo muito interessante: “o trem chinês não para”. É um trem de alta tecnologia, diferente do “Trem Bala” japonês. Desenvolve alta velocidade e embarca passageiros por meio de plataformas móveis nas estações. Uma cheia de passageiros à espera do trem substitui a dos viajantes que irão desembarcar. Para fazer isto, a velocidade é reduzida, mas o trem não para. Evidentemente, caso o governo brasileiro resolva investir em ferrovia, não irá ressuscitar a Maria-Fumaça ou a máquina a óleo. Irá ao mercado buscar o que há de mais moderno, rápido e eficiente em matéria de trem. Para os de hoje os trilhos são imantados e os trens nem tocam a superfície. Muito menos precisam de dormentes de madeira originários das matas naturais praticamente dizimadas, como aconteceu com a aroeira. Só não sabemos se a velocidade dos trens de última geração permite aos passageiros o prazer de apreciar as belezas naturais de um lado e do outro da linha. Porque o gostoso mesmo, no caso dos trens antigos, era a possibilidade de debruçar na janela e contemplar a vegetação, os animais no campo, as pessoas às voltas com a rotina das roças. Mas independentemente (Putz! Que palavrão!) de tudo isto, o importante é que surja, em Montes Claros, outro ministro Francisco Sá, a fim de trazer para a região o que há de mais moderno em transporte ferroviário. Se isto acontecer, um Francisco Sá II, a sociedade montesclarense terá que arranjar um lugar de destaque na cidade para erigir outra estátua, como a de Francisco Sá, para deixar, ele (estátua) e o nome dele vivos para a posteridade. Assim como estão vivos para a posteridade o nome e a estátua do primeiro, lá onde ele olha na direção da Avenida Francisco Sá, de corpo inteiro, em riba de um pedestal, como quem diz para o mundo inteiro ouvir: “Montes Claros, coração robusto do sertão”.
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Alberto Sena
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5/5/2010 23:31:16
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O trem de passageiros
ALBERTO SENA
Uma das coisas mais preciosas que havia na cidade era o trem de passageiros Montes Claros / Belo Horizonte e vice-versa. Posso contar aqui uma série de passagens nossas nesse trem, tanto indo como voltando da capital. Desde os cinco anos de idade eu viajava de trem com a minha família: pai, Zé Bitaca; mãe, Elvira; e uma penca de irmãos. Compadres e amigos também. Não é que eu seja antigo assim, mas já viajei de Maria-Fumaça. Uma vez só, ao que me lembro. Fiquei encantado com o apito estridente da máquina. Mas logo a máquina a óleo chegou a Montes Claros e a viagem até a capital ficou mais breve. Durava em média 15 horas. Com a Maria-Fumaça eram 24 horas de viagem. O trem saía às 5h e às 5h do dia seguinte desembarcava os passageiros na Estação de Belo Horizonte. Para a meninada tudo era festa, mas para os adultos era um deus-nos-acuda, inda mais porque tinham a responsabilidade de tomar conta das crianças, além de malas e mais malas. Claro que não dá para contar muitas histórias duma vez e então vou me concentrar numa, anos à frente, quando fui prestar, sem sucesso, vestibular de Odontologia em Diamantina. Salvo engano, o trem saía de Montes Claros às 19h. Fiquei namorando até as 18h30 e saí correndo para casa a fim de pegar a mala e voar para a estação ferroviária. Quando cheguei próximo do viaduto, pouco depois da passagem de nível da Rua São Francisco, o trem acabava de sair da estação. Parei e fiquei esperando a passagem dele por mim e foi a continha de segurar a mala com a mão direita e com a esquerda agarrar a alça do vagão de passageiros para tentar pisar no estribo da entrada do trem. Fiz tudo direitinho. Ou quase. Não contava com a velocidade crescente do trem e, com o peso da mala na mão direita e a mão esquerda agarrada na alça de entrada, mais a velocidade do trem que me fazia correr sem querer, eu não tinha força para arremessar a mala para dentro do vagão. Tropeçava nas britas colocadas na lateral da linha férrea. Duas eram as opções, e eu precisa escolher uma, rapidamente: continuaria correndo, agarrado ao trem, ou soltaria a mão da alça do vagão? Por livre e espontânea pressão, tive que tomar a segunda opção. Larguei a alça do vagão e sem querer saí em desabalada carreira pisando nas britas, com a mala na mão direita, até me estrebuchar no chão. Fiquei com os braços e as pernas esfolados, mas em compensação, evitei estragar a mala a mim emprestada por minha irmã Wanda com mil recomendações. Perdi o trem. Mas não o “trem” da mala. Limpei a roupa da melhor maneira que pude e me dirigi ao ponto de táxi da Praça Francisco Sá, onde o antigo ex-ministro, que levou a ferrovia a Montes Claros, ganhou uma estátua, e na postura em que está parece ainda pronunciar a frase história sobre a cidade: “Coração robusto do sertão”. Tomei um táxi e pedi ao motorista para rumar, depressa, para Bocaiúva. Cheguei lá muito antes do trem, em tempo de fazer surpresa aos colegas que pensavam antes de eu aparecer: “ele não é mineiro, perdeu o trem e o vestibular”. Era muito bom debruçar na janela do vagão de passageiros e observar a paisagem que parecia passar rápida, mais do que o trem. Sentir o chacoalhar das rodas de ferro em contato com os trilhos, o balanceio dos vagões. Tomar cerveja no vagão do restaurante. Conhecer pessoas. Pessoas boas. Outras nem tanto. Nunca me conformei com o fim do trem de passageiros Montes Claros / Belo Horizonte e vice-versa. Para dizer a verdade, achei isto uma estupidez. Trem é de grande economia e eficiência. Ainda mais hoje em dia, quando os trens modernos viajam a toda velocidade, como o “Trem Bala”, do Japão, que experimentei um dia. Trem de ferro é mais eficiente do que caminhão. Caminhão desgasta rapidamente. Exige manutenção freqüente e cara, dos veículos e das rodovias, ao contrário do trem e da linha férrea. Trem seria a melhor opção, principalmente para o nosso país, de extensão territorial comparável a de um continente. Além do transporte de passageiros, um vagão transporta mais cargas do que muitos caminhões juntos. Quando o trem de passageiros apitava na estação, o da máquina a óleo, diferentemente do apito da Maria-Fumaça, repercutia no peito com força nostálgica. Sempre achei o apito do trem semelhante ao dum navio quando deixa o porto e navega rumo às águas da vida, quebrando as ondas do mar adentro.
(Alberto de Sena Batista é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi repórter e editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Abastecimento, Meio Ambiente e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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28/4/2010 09:03:20
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O paginador competente
Alberto Sena
Ele era paginador do “Mais Lido”. Mas antes de falar sobre ele, o paginador competente, convém fazer um intróito aos que acabam de chegar. E para que não peguem o trem andando, saibam todos que estamos em plena festa virtual para celebrar “O Jornal de Montes Claros” – a “lenda” ou o “quase utópico”. Todos se lembram que pedi ao Waldyr Senna para me ajudar a compor o rol dos convidados. E ele, prestativo, fez a lista da qual já tomaram conhecimento, aqui neste montesclaros.com, onde circularam convites e todos foram convidados. Os vivos e também os mortos. Quando se lembrou de relacionar o nome do paginador competente, o Senna escreveu: “Marcionilio, antes do Zé”; e entre parênteses, a notícia: (“foi para Divinópolis (MG), onde morreu”). No JMC de antanho sempre sobrava um tempinho para ir à Oficina a fim de ver e ouvir o ruído característico das linotipos e observar a agilidade dos linotipistas digitando as notícias escritas à máquina de datilografia em laudas de papel jornal. As linotipos gravavam os textos em plaquinhas de chumbo e estas seguiam percurso razoável dentro da máquina até se formarem uma após a outra do lado do operador. Era interessante ver o passeio das plaquinhas de chumbo nas linotipos. Saíam quentinhas. Se se pusesse a mão queimava. Tudo ali na Oficina produzia ruídos. O das linotipos era gostoso de ouvir talvez até pela emoção que o repórter sentia ao ouvir e ver o que escrevera gravado no chumbo. O ar cheirava fumaça de chumbo quente. Dois eram os linotipistas – Walter Andrezzo e Milton Ruas. Andrezzo sempre manteve as unhas grandes. Era magro, levemente curvado para frente. Tinha bigode. Fumava que nem condenado. Os dedos das mãos amarelos de nicotina e voz sempre baixa; manso. Era um tipo mais parecido com noctívago jogador de carteado. Eficiente, muito bom de serviço. Respeitado. Milton também. Competente, ágil. Mais novo que Andrezzo, mas profissional. Tanto quanto o outro. O fato de Milton ser mais novo tornava-o mais acessível para se tirar uma pitada de prosa. Eram mais com ele as conversas. Milton fumava; nós fumávamos (agora mais não). Sobre o que falávamos nem me lembro. Não importa. Importante é a lembrança da pessoa. Lá no fundo da Oficina ficava a impressora. Daqui ainda pareço escutar o ruído dela. Movimento lento, barulhento. Quem pilotava a impressora era Tião Camurça. Segundo disse Waldyr ao me enviar o rol de convidados: “Tião Camurça (ainda vive), era cantor que “cantava”. Tião era também, na época, camarada engraçado. Gozador. Ele curtia com a cara de todos. Era eficiente com a impressora. Imprimia o jornal todinho e depois ia encher a cara de cerveja. Às vezes acontecia de a impressora quebrar e então era um deus-nos-acuda. Próximo da primeira linotipo, na entrada da Oficina, ficava a mesa sobre a qual havia bandejas de aço onde Marcionilio procedia à paginação das matérias gravadas em chumbo. Ele paginava de acordo com um esboço numa lauda de papel que Waldyr lhe entregava. As mãos sujas de graxa; o cigarro pendurado na boca; os olhos se fechando por causa da fumaça, Marcionilio organizava todo o material gravado no chumbo de acordo com o desenho, digamos, a “diagramação”. Marcionilio era de estatura média, os cabelos encaracolados, bigodinho matreiro. Era de sorriso fácil. Mas se atrapalhava nas palavras e às vezes não entendia o significado e assumia ares explosivos. Isto ele era: explosivo. Mas um bom sujeito. Do tipo que, sabendo levar, tudo se acerta. Depois que acabava de paginar uma a uma, cada página e tudo ficava pronto, Marcionilio passava cordão grosso várias vezes ao redor de cada uma formatada no chumbo e encima da bandeja. O cordão era para compactar de acordo a página e evitar o tal do empastelamento na hora de levá-la para Tião Camurça imprimir. Se acontecesse um empastelamento era o caos! Não me lembro se alguma vez aconteceu. Marcionilio era paginador competente, mas precisava ter com ele certo cuidado no trato. Contavam-se dele que, antes de ir trabalhar no JMC, quando ainda estava na oficina do Diário de Montes Claros, o ex-chefe quis elogiá-lo, dizendo: __ Você é paginador competente! Ao que Marcionilio respondeu, na bucha: __ Competente é a p.q.p!
(Alberto de Sena Batista é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi repórter e editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Abastecimento, Meio Ambiente e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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26/4/2010 10:22:29
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A água fez chuááá no Verde Grande
Alberto Sena
O jornalista Luiz Ribeiro, com a sua peculiar simplicidade, envia mensagem me lembrando de um episódio que, sem falsa modéstia, para mim foi motivo de satisfação e de um Prêmio Fenaj de Jornalismo: “O roubo do rio Verde Grande revolta a Jaíba”, reportagem publicada em 1988, no Jornal Estado de Minas. Na ocasião, Luiz iniciava sua brilhante carreira jornalística e me conta agora, tanto tempo depois: “me lembro que, numa tarde, quando era “foca” no “O Jornal de Montes Claros” (acho que o pessoal lá nem sabia o meu nome) vi chegar um homem num Fusca branco trazendo sua própria máquina de escrever; e ele ficou na Redação usando a máquina por algum tempo. Depois fiquei sabendo: era Alberto Sena. Aquilo despertou minha curiosidade, sempre aguçada. Depois vi o resultado, uma série de matérias denunciando os pivôs centrais de irrigação que estavam “sugando” o Rio Verde Grande...” O Verde Grande faz parte da minha vida desde a infância. Muitas foram as vezes em que banhei naquelas águas ainda limpas. E quando adulto, repórter do EM, não pensei duas vezes ao ser informado de que, pela primeira vez, o rio secara por causa da ganância de um grande empresário, que instalara em sua propriedade 11 pivôs centrais, cada um de 500 metros de raio. Quando ele ligava os pivôs, o rio simplesmente desaparecia sugado à semelhança de quando alguém suga no canudinho suco de laranja de um copo. Rumei de Belo Horizonte à Jaíba em companhia do fotógrafo Eugênio Paccelli e o motorista Cirilo (“Tira-Gosto”) e andamos sobre o leito do rio praticamente seco por mais de um quilômetro. Encontramos poças d’àgua onde peixes aflitos se debatiam pela vida. Apuramos que vários eram os irrigantes do rio, mas o principal deles era um megaempresário. E por causa disto, durante muito tempo ele foi chamado de “ladrão do rio”. Levado pela cobiça, com recursos da Sudene, o empresário intentou instalar na região da Jaíba três projetos agropecuários. Num deles, às margens do Rio Verde Grande, pretendia colher feijão e algodão, se espelhando em projetos que vira em viagens à Califórnia (EUA), onde os fazendeiros norte-americanos se utilizavam das águas de geleiras para irrigação. Subsidiado pela Sudene, ele construiu silos modernos, sede e outras benfeitorias no projeto, sem o cuidado de verificar: o que é bom para agricultores norte-americanos podia não ser para um megaprodutor ambicioso do Norte de Minas. Ele não levou em consideração o fato de o Verde Grande ser “rio velho”, cuja cava, cada ano mais rasa, não comporta, como não comportou, exploração tamanha. Resultado: deu, literalmente, com os burros n’água. Ao ligar, simultaneamente, os pivôs, quem dependia de água – os ribeirinhos e outros irrigantes – ficou chupando o dedo. Isto, claro, causou revolta, ao ponto de os prejudicados ameaçarem invadir a propriedade dele para pôr termo ao que à época foi considerado um abuso. A notícia chegou à Redação do Jornal Estado de Minas e fomos incumbidos da missão de verificar “in loco”, o que de fato estava acontecendo ali na Jaíba, região sobre a qual desde criança, eu, particularmente, ouvia as mais incríveis e fantasiosas histórias. Pela primeira vez fui lá e pude constatar que se tratava mesmo de uma região com características peculiares. Deparei-me com resquícios de florestas dotadas de árvores imensas, a exemplo da Amazônia. Foi lá que, juntamente com Paccelli e Cirilo, que testemunhei uma das cenas mais lindas, nunca vista em lugar nenhum: uma espécie de congresso de aves como pássaro-preto, cardeal, sofrê, rolinha marrom e pedrês enfileirados nos arames farpados de cercas. Eram tantos, mas tantos, que davam a impressão de estarem suspensos no ar porque os arames nem apareciam. Vimos borboletas mil, multicoloridas, num espetáculo que só a natureza pode nos proporcionar. Mas vimos também, e principalmente, o sofrimento dos ribeirinhos e dos pequenos irrigantes que, vítimas da cobiça de um empresário imprevidente, padeciam à míngua a falta d’água. Depois de publicada a primeira reportagem, no EM, no dia seguinte a água voltou a rolar pelo leito do Verde Grande. E já na Redação, em Belo Horizonte, quando o telefone tocou, do outro lado da linha uma voz de mulher extasiada de felicidade, dizia: “a reportagem saiu e em pouco tempo ouvimos o barulho da água fazendo chuááá”.
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Alberto Sena
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23/4/2010 16:47:29
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Coçando o coração do Zé
Alberto Sena
Em linguagem jornalística, quando um repórter publica, sozinho, uma notícia ou reportagem relevante, costumam-se dizer que deu um ‘furo’. Pois é, Augusto Vieira, apelido ‘Bala-Doce’, que por mera questão de ordem alfabética figura na lista de cronistas deste montesclaros.com abaixo de mim, deu-me um senhor ‘furo’, não de reportagem, mas nesta saborosa tarefa de “cronicar” a vida vivida nesses montes, hoje nem tão alvos como nos primórdios, quando se amarravam cachorro com linguiça. Andei adiando um texto sobre José Mário de Araújo, mais conhecido por Zé Amaro, e nesta quinta-feira, 22, ao clicar no nome de Augusto Vieira para saber se ele havia postado algum texto novo, eis que me deparo com o ‘furo’, o único, posso dizer, sofrido em todos esses anos em que me debruço no parapeito da janela para ver a vida e as pessoas passarem. Mas tudo bem, não dá para me estressar por isso. O que vale é a experiência de cada um. E a minha experiência em relação ao Zé Amaro é totalmente diferente da do nobre amigo, em companhia de quem, recentemente, me fartei, no restaurante ‘Casa Cheia’, lá no Mercado Central de Beagá, durante o ‘I Almoço Curraleiro’ promovido aqui, nestes píncaros poluídos, pelo extraordinário e, se me permitem dizer, extravagante Rapfael Reys, que figura abaixo de mim e Bala-Doce por causa também da já exposta questão de ordem alfabética. Morei durante uns 12 anos na Rua Corrêa Machado, 238, em frente à entrada do antigo campo do clube de futebol União, do qual nasceu o Casimiro de Abreu. Na Rua Dr. Veloso, próximo do Asilo São Vicente de Paulo, perto lá de casa, morava quem? Zé Amaro. Baixinho, gordinho, barrigudinho, como descreveu Bala-Doce, com jeito característico de pronunciar as palavras, sempre engolindo letras. Morávamos tão próximos um do outro que, posso dizer: éramos vizinhos. Não sei quantas vezes por dia, obrigatoriamente, eu passava na porta da casa de Zé Amaro, indo ou vindo do centro da cidade. E de tanto passar na porta da casa dele, acabei amigo de alguns dos seus filhos. Com o mais velho, Paulo, eu não tinha tanta intimidade, mas com Zé Francisco, Marcos e Beto, o relacionamento de amizade começou por causa de uma mesa de pingue-pongue. Viciado com eu era nesse esporte, andava quase sempre armado com uma bolinha de pingue-pongue no bolso, pois de um momento para outro, do dia ou da noite, podia ser desafiado para um duelo com alguém, seja na União Operária, na Rua Bocaiúva; no Sesc, na Rua Padre Augusto; ou na Praça de Esportes. Num belo dia, ao passar na porta da casa de Zé Amaro, ouvi o ruído de bolinha de pingue-pongue, e a partir de então comecei a conviver com Zé Francisco (ele tinha uma pinta bem na ponta do nariz), Marcos e Beto. Passei a frequentar a casa e ficava encabulado com a filharada dele. Se não me engano, eram dez, todos do sexo masculino. Muito tempo depois, já longe desse arraial, do qual alimento saudades tantas, eu soube que, de tanto tentar, ele conseguira uma tão sonhada filha, mas não tive a oportunidade de conhecê-la. Armazeno grande estoque de lembranças daqueles anos, ali na casa de Zé Amaro, e deste ponto em diante me detenho na figura dele. Noutra ocasião narrarei peripécias vividas com a mencionada trinca de filhos dele. O Zé tinha fama de sovina, como disse Bala-Doce, mas era de coração enorme, maior que a barriga. Volta e meia quem passava na porta da casa dele testemunhava as suas boas ações. Ele ajudava, sem distinção de sexo, pessoas necessitadas, que o procuravam em busca de esmolas, porções de arroz, feijão e coisas do gênero. Mas ninguém saía da casa do Zé Amaro, impunemente: antes, tinha que coçar as solas dos seus pés. Era comum, então, à noitinha, observar o Zé no alpendre da casa sentado numa cadeira de lona, do tipo espreguiçadeira, com os pés sobre as pernas de alguém que ali fora buscar auxílio, os olhos fechados, se deliciando com as cosquinhas de unhas e dedos nas solas dos pés. Quem passava na porta da casa dele quase sempre via um coçador e então se sabia: estava retribuindo a caridade do Zé que, sem dúvida alguma foi, senão o primeiro, um dos precursores do comércio atacadista de Montes Claros. Era cômica a cena. Mas, ao coçarem a sola dos pés, aquelas pessoas simples massageavam o coração do Zé.
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Alberto Sena
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22/4/2010 07:47:42
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Aprendi e apreendi com quem convivi
Alberto Sena
O viver significa aprendizagem constante. Aprendo e apreendo coisas todos os dias. Ninguém neste mundo sabe tudo ou nada tem a aprender. O aprendizado por meio da leitura de um livro, por exemplo, é algo surpreendente. Se for obra-prima, então, pode-se aprender e apreender uma porção de coisas. Livros como, por exemplo, “Os trabalhadores do mar”, de Victor Hugo; ou “Moby Dick”, de Herman Melville – só para citar dois, pois muitos outros há, evidentemente – são de um aprendizado fora do comum. Quem quiser aprender e apreender ensinamentos sobre baleia, “Moby Dick” é rico em informações do gênero. Posso aprender e apreender muito no convívio com gentes. Uma pessoa sábia é como um livro aberto do qual jorra sapiência como numa cachoeira. Tive a sorte de conviver com pessoas do mais alto quilate: escritores, jornalistas, poetas etc., mas aprendi muito também com gentes simples, sem tanta instrução, pessoas autodidatas ungidas pela luz divina como porteiros, faxineiras; gentes alfabetizadas e analfabetas também. É importante fazer “leitura de gente”. Isto eu aprendi com o falecido Leonel Brizola. Não tive nenhuma convivência pessoal com ele. Mas um dia li uma entrevista dele numa revista e em um dos trechos Brizola dizia: “venho de longe, faço leitura de gente”. Quem o conheceu sabe: isto é verdadeiro, pois o homem, inclusive, tinha um discurso convincente, apesar de muitos só terem reconhecido isto depois da morte dele. Convivi com José Geraldo Gomes, conterrâneo desses montes claros, e o que dele apreendi pratico hoje ainda ao fazer entrevistas ou reportagens. Naquele dia em que com ele andava rumo à Redação do “O Jornal de Montes Claros” para ser apresentado como seu substituto, Gomes me repassou ensinamento basilar para elaborar o texto jornalístico, o “lide”. Desde então – e lá se vão uns 40 anos – nunca mais tive a oportunidade de me encontrar com ele, pessoalmente. Foi por meio deste novo aprendizado, o de “cronicar” a memória das vivências aí no arraial, e graças ao dinamismo da internet, que, enfim, redescobri José Geraldo. Ainda não sei onde ele mora. Não tenho o endereço nem o telefone, mas eis que recebo dele mensagem por ter lido o meu texto “Confesso que vivi”, título de um poema de Pablo Neruda, do livro “Para nascer nasci”. “Alberto” – ele disse: “É evidente que temos muita vivência em comum, pois afinal nosso habitat foi o mesmo. E ainda há pouco, escrevi um soneto, em que dizia, “Confesso, com meus olhos, eu vivi. “E vendo seu artigo, deste nosso tempo, percebi que realmente escrevi o que sentia, mas o que muitos de nós que vivenciamos esta fase áurea, na qual não inclui totalmente Itamaury, por ser mais novo, poderia perfeitamente ser o autor de minha poesia, pois reflete um sentimento que, ainda hoje, está presente em muitos de nós. Anexo, envio meu soneto para sua apreciação. Um abraço, José Geraldo Gomes”. Com a devida autorização de Gomes, publico o soneto, “Olhar de Amor”, abaixo: “Conheço todas as mulheres que me amaram;/ Ainda que na inocência de minha adolescência; / Pois seus segredos jamais se desviaram / De meus medos, sempre em efervescência./ “Na minha pureza tola, de rapaz menino; / Vi amor desabrochar em seus olhares; / Mas na minha intimidade de menino tímido, / Deixei muitos amores escaparem./ Quantas vezes vi uma boca a me declarar, / Coisas de amor, que confesso, queria escutar,/ Sem mover os lábios, apenas com o olhar. / “Hoje, meus olhos ao sorrirem envelhecidos, / Com as rugas cobertas pelo amor que senti / Confesso; com meus olhos; eu vivi”/. Nesta oportunidade, aproveito para me dirigir a todos com os quais aprendi a me tornar o que sou. Não que eu seja lá grande coisa. Em primeiro lugar, agradeço a Deus. E abaixo Dele, agradeço a todas as pessoas com as quais convivi. E se em meio aos que me leem neste momento tiver alguém da minha convivência no passado ou no presente, por favor, sinta o calor do meu abraço de gratidão, pois com todos aprendi. E apreendi.
(Alberto Sena é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi de repórter até editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Meio Ambiente, Abastecimento e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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19/4/2010 08:02:46
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Confesso que vivi
Alberto Sena
Itamaury Teles envia mensagem dizendo que as horas-dançantes da “boate” da Praça de Esportes eram realizadas das 11h às 13h de domingo, depois da missa, para garantir a presença das “moças do internato do Colégio Imaculada Conceição”. Há até uma lógica nisso. Aos domingos, as freiras permitiam a saída das internas a fim de passearem pela cidade, irem às matinês etc. E elas saíam como bichinhos de madames. Quando presos por muito tempo, ao saírem os bichinhos esbanjam vitalidade e inquietação. Teles viu “saudosismo” da minha parte ao pintar a Praça de Esportes daquele tempo. A ele e a quem mais interessar possa, digo: “cronico” a memória não porque gostaria de voltar a viver o tempo de antanho, e muito menos ainda para estimular o tal sentimento de saudade. Isto nada tem a ver comigo. Tenho tentado, aqui, pintar, mesmo não tendo o dom, um quadro de Montes Claros onde eu – e muitos outros que comigo viveram aqueles tempos – fui feliz e sabia. Mas não tenho saudades. Acho, o dramaturgo Nelson Rodrigues tem razão quando diz: “jovens, envelheçam, envelheçam”. Hoje sou feliz e sei, apesar das agruras vividas e do sofrimento alheio visto ao redor. Não reclamo da vida. E se alguma vez reclamei e se alguma vez reclamar, não será em causa própria, tanto é o sofrimento aqui e alhures. Confesso: não estou satisfeito com o mundo tal qual é. Se dependesse de mim para mudá-lo, tudo já estaria às mil maravilhas. Mas sou como o beija-flor: levo água no bico e procuro fazer a minha parte para debelar o incêndio na floresta. O sofrimento padecido por bilhões de almas no mundo é causado pelo próprio homem. O egoísmo é a raiz de todos os males, os sofrimentos, os pecados. Mas só o fato de estar vivo, podendo comunicar com os outros, já é motivo de felicidade. O fato de se estar em paz, com saúde, isto também é motivo de felicidade. Ser feliz 100% é impossível. Vivo os momentos de felicidade. Enquanto vivi em Montes Claros tive muitos, mas muitos momentos de felicidade. Como por exemplo: frequentar a Praça de Esportes, as horas-dançantes na “boate”, no Clube Montes Claros, no Automóvel Clube; as idas e vindas ao Pentáurea, ao MaxMin e à Lagoa da Barra; as incursões ao Redondo, ali próximo do aeroporto; aos goles no Vixe e na A Cristal; aos comes e aos bebes nos restaurantes Mangueirinha e Espeto de Ouro; as idas ao Parque de Exposição, ao Parque Municipal e à Lapa Grande; as visitas à sapataria de Tião Boi e à oficina de Bonga; as partidas disputadas pelo juvenil do Casimiro de Abreu; as investidas à porta do Colégio Imaculada Conceição para namorar e espiar as garotas e com elas trocar olhares... Foram momentos de felicidade que este montesclaros.com fica pequeno para relembranças tantas. Mas sem saudosismo. Sem nostalgia. E muito menos banzo. Como diria Pablo Neruda, no livro “Para nascer nasci”, eu, particularmente, “confesso que vivi”, em Montes Claros. Vivo muito mais hoje. O passado passou e o futuro virá, certamente. O importante é plantar agora. Porque tudo que se planta, se colhe. Então, semeemos boas sementes, classificadas, livres de pragas. Quem planta arroz, não colhe feijão. Com sinceridade: não gostaria, por exemplo, de voltar aos meus 20 anos. Estou satisfeito com a idade atual. Sinto-me muito mais lúcido, com mais maturidade para refletir sobre o viver, e, sobretudo, consciente da minha insignificância perante o Criador do Universo e também perante o semelhante. Nada melhor do que avançar em idade para compreender mais essa coisa maravilhosa chamada vida. E agradecer por ainda estar vivo. Entretanto, em sã consciência, convicto estou: não sou daqui. Estou de passagem. E quando chegar o momento de ir embora irei; sem temor. Tenho fortes suspeitas: vive-se melhor não aqui, mas para onde irei. E para onde irei? Não sei. O importante, enquanto aqui estou, é semear e estimular a fé. Já se disse: “a esperança é a mãe da fé”. A comunicação com Deus se dá por meio da fé. Depois, quando se vai desta para outra – melhor, espero – não se precisa mais da fé. Só a caridade permanecerá, porque a caridade e o amor são a mesma coisa.
(Alberto Sena é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi de repórter até editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Meio Ambiente, Abastecimento e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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19/4/2010 07:30:05
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Mandaram Pirulito tomar banhoooo
Alberto Sena
Mergulho no baú de relembranças e apanho lá no fundo o grito dos meninos que recebiam das mãos de dona Maria, da Expedição do “O Jornal de Montes Claros”, e das mãos de Zé Branco, a edição do dia quentinha, ainda com a tinta fresca e a plenos pulmões gritavam correndo pela rua: “Jornal de Montes Claros de hooooje”. Eles saíam para todos os lados. Uns seguiam correndo a Rua Dr. Santos pela esquerda e outros pela direita e ganhavam o centro de Montes Claros gritando repetidas vezes: “Jornal de Montes Claros de hoooooje”. A cena era semelhante à algazarra que crianças promovem quando termina a aula na escola. E num piscar de olhos a edição se esgotava. O JMC tinha o que o leitor gostava de ler. Tinha a “Coluna do Secretário”; tinha “Fatos e Personagens”; tinha a “Coluna Cock-Tail” e tinha também “Rua da Amargura”. Era um jornal vibrante, com notas sociais, de esportes e de ocorrências policiais, exercia forte influência política na cidade, e como disse noutro dia, neste mesmo espaço, contribuiu, decisivamente, para que Montes Claros alcançasse o grau de desenvolvimento de hoje. Mas os meninos de então, como dizia Waldyr Senna Batista, a propósito da festa virtual que promovo com todas as personagens vivas e falecidas, os que fizeram a lenda do jornal, “... eram crianças e se tornaram adultos e atualmente me reconhecem na rua e conversam comigo como se eu fosse computador para armazenar na memória aquela cambada toda”. Era incrível! Inda mais quando eles saíam pelas ruas gritando a manchete daquele dia. Como da vez em que o capitão Pedro Ivo veio da capital especialmente para apurar o assassinato do fazendeiro Olímpio Campos, líder político em São João da Ponte, e de prestígio em Montes Claros. Ele fazia discurso em riba dum palanque, numa noite, e foi abatido, se não me engano, com três tiros. O pistoleiro fugiu “em desabalada carreira”. O caso ganhou repercussão nacional. A polícia local não parecia em condição de apurar o assassinato. Veio então o capitão Pedro Ivo, a mando da Secretaria de Estado da Segurança da capital. Este repórter que “vos fala” estava na Delegacia de Polícia, na Rua Dr. Veloso. Folheava o “livro de queixas” debruçado sobre a mesa. O capitão Pedro Ivo abriu a porta do delegado é ordenou ao sargento de plantão, gritando:
__ Sargento, manda “Pirulito” tomar banho.
O capitão não me conhecia, ainda, não sabia que eu era repórter do “Mais Lido”. Havia circulado a informação de que a polícia prendera um suspeito de apelido “Pirulito”. Mas na Delegacia ninguém confirmava nada, até que o capitão abriu a porta e deu a ordem ao sargento. Sem querer, ele confirmou para mim a notícia. Como naquele momento não havia mais ninguém na recepção além de mim e o sargento, não tive dúvida: corri para a Redação do jornal a fim de dar a notícia em primeira mão. Naquele dia, princípio de noite, os pequenos vendedores saíram em disparada, gritando: “Jornal de Montes Claros de hoooooje”, e logo em seguida, a manchete, furo de reportagem nacional: “Mandaram Pirulito tomar banhoooo”. Repórter, além do mais, precisa contar com a sorte, estar no lugar e na hora certos. Só assim, hoje em dia, é possível dar um furo de reportagem, porque a imprensa escrita, enquanto não busca (e se buscar encontra) um diferencial, circula no dia seguinte depois que tudo já foi lido na internet, ouvido no rádio e visto na TV. Reflexão e análise do fato talvez sejam caminhos sensatos para a imprensa escrita, se não quiser cair na desdita, e cada dia se tornar mais perecível, mais do que legume, verdura e fruta na Pedra da Ceasa ou na barraca da feira.
(Alberto Sena é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi de repórter até editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Meio Ambiente, Abastecimento e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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15/4/2010 15:33:20
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Coração robusto do sertão
Alberto Sena
Quem acompanha as crônicas publicadas neste prestigioso veículo inventado por Paulo Narciso, deve ter lido uma das minhas mal traçadas linhas em que eu, morrendo de saudade dessa terra muitas vezes chamada em discursos por João Valle Maurício de “coração robusto do sertão”, frase proferida pelo ministro Francisco Sá, disse: “Essa cidade possui o céu mais bonito do planeta e o luar mais lindo do sertão”. Só quem não conhece Montes Claros ou quem perdeu a capacidade de contemplar o belo é que discorda disso, talvez porque não teve a oportunidade de ler “O homem e seus símbolos”, livro de Carl Gustav Jung, onde ele fala da importância de apreciarmos a natureza – as nuvens, as árvores e tudo mais – como forma de estimular a criatividade. Quem não tem esse costume, e se puder adquiri-lo, no mínimo resgatará a natureza, humana. Mas, voltando ao luar de Montes Claros, certa feita, quando era repórter do jornal “Estado de Minas” fui incumbido da missão de investigar a “seca verde” que, ciclicamente, acontece na região. Saímos à tardinha de Belo Horizonte – Vera Godoy, fotógrafa; Cirilo (“Tira-Gosto”), o motorista; e eu, num Fusca azul. Logo a tarde se esvaiu e tivemos a oportunidade de contemplar, ao longo da estrada, belo pôr-do-sol. Veio a noite. Fomos surpreendidos por enorme Lua Cheia. A impressão era de que a Lua ia nos engolir ou a qualquer momento cairia sobre nós. Que espetáculo! Pernoitamos em Montes Claros. No dia seguinte, entrevistei algumas pessoas e enviei material por telex, pois internet naquela época não existia. Saímos de Montes Claros e fomos à Janaúba, e, em seguida à Porteirinha. Visitamos uma produção de uvas sem caroço em Porteirinha e ganhamos de presente duas caixas. Seguimos em frente comendo uvas e fomos para Mato Verde. Chegamos lá à noitinha e nunca vimos quantidade tão grande de sapos saltitando pelas ruas desertas, numa flagrante visão de descontrole ecológico. Por todos os lugares por onde nós passávamos, eu ia enviando material para o jornal. Como não dava tempo de redigir o texto à máquina de datilografia, em alguns lugares mandava material redigido diretamente no telex e seguíamos adiante. Vera Godoy ia fotografando tudo. Passamos por Monte Azul e chegamos a Espinosa, terra natal de Carlos Lindenberg, atual diretor de Redação do jornal Hoje em Dia, e de lá nos embrenhamos para o Vale do Jequitinhonha. Passamos por vários municípios constatando a “seca verde” em todos os lugares. Mas, em compensação, tínhamos em cada canto o encanto de belas paisagens. Detalhe: é nítida a divisão entre o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha. Quando se entra no Vale a paisagem muda, mas continua linda, cheia de serras de azul cintilante. Pudemos contemplar a beleza da natureza – os pássaros: cardeais, sofrês, pássaros-pretos; e animais: veados, tiús e calangos, além das multicoloridas borboletas. Sem dúvida, esta foi uma das muitas boas viagens que fiz, aliando o trabalho à satisfação de curtir as belezas que Deus criou para nossa contemplação. Depois de quilômetros e quilômetros rodados, chegamos à bela cidade de Pedra Azul, terra de Paulinho, Murilo e Joel Antunes, Caio Júlio e também Roberto Tanajura, o Bob, que, infelizmente, não está mais no meio de nós. Lá chegando, cumprida a nossa obrigação, fomos à casa de Tanajura e a mãe dele disse: “está na fazenda”. Ensinou-nos o caminho e lá fomos nós para a fazenda a fim de lhe fazer uma surpresa. Tanajura, de fato, ficou muito alegre com a nossa chegada. Ele tinha acabado de surpreender dois caçadores nas suas terras. Os homens tinham abatido um veado e ao serem surpreendidos, fugiram deixando a caça para trás. Bob não teve alternativa: recolheu a caça e levou-a para a sede da fazenda. Para a nossa satisfação, ele pegou uma das ancas do veado, fez alguns furos nela e colocou toucinho para untá-la, sem o que a carne assada fica seca, e temperou-a com “tempero especial em homenagem a vocês”. Colocou-a no forno de barro, abriu uma garrafa da melhor cachaça da região, pegou o violão e cantou várias músicas enquanto a carne assava. A noite caía e a carne do bicho já estava assada. Garfo e faca às mãos, copo de cachaça do lado de cada um, nos sentamos do lado de fora da casa e debaixo de uma das luas cheias mais lindas, pois era o auge dela, saboreamos a carne da caça abandonada pelos caçadores. Foi a melhor carne que comi em toda a minha vida. (Alberto Sena é de Montes Claros (MG). Começou no Jornalismo aos 17 anos, na Redação do “O Jornal de Montes Claros”. Foi de repórter até editor no Jornal “Estado de Minas” nas editorias de Agropecuária, Meio Ambiente, Abastecimento e Economia. Trabalhou no “Hoje em Dia” e na “Gazeta Mercantil”. É Prêmio Esso de Jornalismo (Direitos Humanos) e Prêmio Fenaj de Jornalismo (Meio Ambiente). Como repórter, rodou o mundo. Fez duas vezes a pé o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha).
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Alberto Sena
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15/4/2010 07:19:12
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Felizes aqui e lá na eternidade
Alberto Sena
A “Praça de Esportes”, a Montes Claros Tênis Clube, era o centro da nossa Galáxia, na década de 1960/70. Toda cercada de fícus, devidamente aparados dos lados e em cima, o que lhes dava formato uniformemente quadrado, de fora a fora – Ah! Se os fícus falassem! – era o ponto de encontro da juventude daquela época e também dos adultos, pois a cidade pouca opção de lazer possuía. Nas férias escolares, de manhã, a moçada corria logo cedo para a Praça de Esportes. À tarde, para variar, lá estávamos todos nós, novamente. Aos sábados e domingos, a praça ficava assim, ó, apinhada de jovens de ambos os sexos. As opções de esportes eram várias. Uns nadavam e nadavam. Havia grandes acrobatas do trampolim. Aprígio era um deles, sob a vigilância rigorosa de Sabú, camarada boa praça, porte atlético, pele queimada de sol e cabelos negros, sempre bem penteados. Eram duas as piscinas. Uma Olímpica, onde eram realizadas competições, e outra para as crianças, onde ficavam balanços e escorregadores. Os que não estavam dispostos a nadar podiam jogar pingue-pongue debaixo de um telhado feito a propósito, com abertura para todos os lados. Ficava próximo de um pé de jambo vermelho, fruto raro de se encontrar. Havia duas mesas de pingue-pongue oficiais e jogadores excepcionais que exibiam os dotes com raquetes de borracha que proporcionavam jogadas “cheias de graxa”, com muita rosca. Zé Venâncio, meu irmão, era um dos craques. João José Gomes, irmão de Francisco Gomes – o Chico, grande figura, irmão também de Marta; Bichara (beque do Ateneu, este parecia ter ferro na testa, mas isto era uma exibição à parte) também jogavam muito bem. Modéstia às favas, este “escrivinhador” daqueles tempos vividos, jogava bem pingue-pongue. Garanto: ainda jogo. É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. Quem sabe, se pedalar, a bicicleta anda. Havia duas quadras de futebol de salão (futsal) e uma pista circular, toda gramada, um pouco menor do que campo de futebol oficial. Estes eram importantes espaços, porque enquanto uns jogavam futsal outros treinavam futebol na pista para, concomitantemente jogar no Casimiro de Abreu, no Ateneu ou no Ferroviário. Ali surgiram craques como Jomar, recém-falecido; seu irmão João Batista, Bichara, Fernando Gontijo, Milton Henrique, entre outros. Os irmãos Veloso (Haroldo, Wagner, Helton, Adauto etc.) e os irmãos Gomes (Geraldo, José Carlos, Wagner, Doínha), Flávio e Nilo Pinto, Lourinho Alcântara; os Gabrich (Felipe, João Carlos e Ricardo), Ildeu, Cícero “Cuecão”, Chico Ornelas, Cícero “Stru”, Rubinho, Popó, “Tiupas”, Cláudio e tantos outros estavam sempre ali se divertindo. Ao redor havia uma pista de corrida. Atrás da pista, no que seriam os fundos da Praça de Esportes, tinha uma quadra de tênis para justificar, certamente, Montes Claros “Tênis” Clube. Mas acho que ninguém jamais viu alguém jogar tênis ali. Eu pelo menos não me lembro de ter visto. Havia em cada extremidade da quadra paredes de fícus e dos lados tela de arame. O gostoso é que num dos lados da pista havia vários pés de jambo vermelho. O Ginásio Darcy Ribeiro, salvo engano, ainda não existia. Bem ao lado da quadra de tênis tinha um imóvel, mais parecido com uma casa adaptada para salão de festas, com palco ao fundo. Podem até achar engraçado, mas, aos domingos, o melhor programa era, depois da missa na Catedral ou na Matriz, ir para esse lugar, por toda cidade chamado de “boate”, onde se realizavam horas-dançantes com conjunto musical ao vivo em plena luz do dia, das 11h às 13h. Dançando de rosto coladinho num calor “arretado”, como se diz em “baianês”, a nós só faltava tapar a luz do sol com peneira a fim de transformar o ambiente numa boate, no sentido intrínseco da palavra, para assim podermos dançar no escurinho ou sob o lusco-fusco de imaginário jogo de luz. Na “boate” gerações de montesclarenses iniciaram namoros. Espero que, pela graça de Deus, continuem namorando, mesmo depois de velhinhos, porque muitos se casaram e, certamente, se vivos ainda forem, serão felizes para sempre. Aqui e lá na eternidade
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Alberto Sena
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10/4/2010 13:43:41
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Amiga do Alemão
Alberto Sena
Este montesclaros.com é como sino. O som das badaladas ressoa, de tal modo, que alcança pessoas em pontos distantes, como o amigo Paulo Henrique Souto, que, ao terminar de ler o texto “Por que tanto horror?”, sobre o fim trágico da Praça Coronel Ribeiro de lembranças mil, deu a sua colaboração para o esforço “Salve a Praça Coronel Ribeiro”, agora no estertor. “A Praça Cel. Ribeiro – lembra Souto – assim que foi urbanizada recebeu o footing da Rua Quinze, anterior, portanto. Depois da praça acabou isto de paquerar na rua, saiu da moda, e acabou. Fundamos clubes, lembra-se? Organizávamos as festas nas casas de amigos. Morei, e você frequentou, na Praça Cel. Ribeiro anos, e acho que você participou de algumas das minhas famosas quadrilhas juninas; faço anos dia 11 de junho, comemorava sempre com uma big festa, muitos casais, às vezes tinha 50 pares, o quintal era enorme, hoje é uma garagem”. Souto se recorda como se tudo estivesse acontecendo agora, do tanto que “brinquei de finca na praça; lembro-me do “seu” Maldonado, que morreu quando uma barca do parque de diversões bateu na cabeça dele; isto me marcou pra sempre, e me lembro muito de Fu Manchu, um seriado no Cine Cel. Ribeiro; saudosa memória, saudáveis lembranças”, conclui. De Itamaury Telles me veio outro eco do som do sino: “Li e gostei muito da sua crônica. Desde pequeno, sempre estive na Praça Cel. Ribeiro, onde morava a minha avó, Laura, mãe da minha mãe. Lá morei quando trabalhava no “O Jornal de Montes Claros”, em 1971”. E ele conta mais: “o bangalô que acabam de derrubar – quando deveria ter sido tombado – era o da minha avó. O meu avó, morto em 1929, o construíra dez anos antes, para o nascimento da minha mãe, que sexta-feira passada (2 de abril) completou 90 anos”. Itamaury diz que tentou impedir o fim do bangalô: “escrevi, faz alguns meses, uma crônica, intitulada “Um certo chalé avoengo”, quando implorava o tombamento do imóvel que, desde 1919, fazia parte do cenário do antigo Largo de São Sebastião. Mas o tiro saiu pela culatra. O dono foi mais ágil que a incúria dos mandatários municipais, e o chalé “já era”. “No próximo sábado”, ele concluiu: “faço publicar, em minha coluna no jornal “O Norte de Minas”, meu desabafo sobre o que vi. Como na canção dos “Demônios da Garoa”, “cada tauba que caía, doía no coração”. Foi triste. Com atitudes grotescas e insensíveis como esta, vamos morrendo aos poucos...” Memória é o que há. Sem memória, ninguém vive, vegeta. E daqui destes horizontes, não mais belos do que os montes claros, chego à seguinte conclusão: Montes Claros está se tornando, como se diz, “amiga do alemão”. Isto é, está sofrendo de Alzeihmer. Mas este parece ser um problema não só de Montes Claros, mas do Brasil de modo geral. Enquanto em países mais desenvolvidos costuma-se preservar o velho para exploração turística, inclusive, aqui a cultura é outra. Por motivos e justificativas vários, o negócio é jogar tudo no chão para construir algo novo. Quantas casas importantes de Montes Claros existem hoje na lembrança dos que nelas viveram ou delas conhecem a história ou guardam uma foto amarelecida pelo tempo pendurada na parede? E neste exato momento, me lembro de uma casa que para mim era intrigante, próxima da Escola Normal antiga, perto da Matriz. Aquela casa, retratada aqui neste montesclaros.com por Ruth Tupinambá Graça, na seção “Montes Claros era assim”, para mim era motivo de reflexão toda vez que passava na porta dela rumo à escola. O que mais chamava a atenção era a quantidade de portas daquela casa, se não me engano, sete só na frente, em estilo colonial. Era de Antônio Gonçalves Figueira, de cuja fazenda surgiu o Arraial das Formigas e do arraial, montesclareou. Pergunto aos meus sete leitores – dois deles conhecidos, o Souto e o Telles: em sã consciência, uma casa como essa, do Figueira, da qual temos agora só a foto, não tinha de ser preservada também, a qualquer custo? Imagine-a restaurada e conservada, transformada num museu, e a meninada das escolas lá dentro, em estudo prático da história de Montes Claros. Nós ali dentro também para contar às gerações: “Aqui, gente, era a casa do...”
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Por
Alberto Sena
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8/4/2010 08:05:22
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Por que tanto horror?
Alberto Sena
Li no Mural, dia desses, uma reclamação postada por Waldomiro, de sobrenome não sei qual. Ele havia acabado de passar pela Praça Coronel Ribeiro, aí em Montes Claros, e dizia ter ficado entristecido com o quadro de abandono que viu. Distinguiu, em meio ao abandono, um “simpático bangolô”, que, como ele mesmo citou, estava indo ao chão, como na música de Adoniran Barbosa, “Saudosa maloca”. Segundo Waldomiro, tudo ali na Praça Coronel Ribeiro “sugere abandono, descaso, humilhação urbana”. Como ele descreveu, “o jardim está feio, a copa das árvores há muito não vê uma poda, a iluminação está péssima, sugerindo um quadro quase macabro”. Daqui desses horizontes nem tão belos quanto antes, fiquei imaginando aí os montes, que já foram muito mais claros, e num átimo revisitei a Praça Coronel Ribeiro dos nossos tempos de menino, da época da adolescência e também da fase de adulto, pois, de Montes Claros saí, aos 22 anos, em busca de outros sonhos, fantasmas novos. Quando criança, na matinê das 2h da tarde, no Cine Coronel Ribeiro, do grande médico e amigo Mário Ribeiro, irmão de Darcy, com quem convivi já adulto; vivi a mais forte sensação da vida, quando assistia aos filmes de Rock Lane, Roy Rogers, Rex Alen, Tarzan e Jim das Selvas. Saía correndo de casa, na Rua São Francisco, além da linha férrea, acompanhado de Célia (que virou corisco), Lúcia e Wanda, minhas irmãs tão queridas – como o são Tê, Elza, Ladinha, Zé, Tone e Waldyr – com os braços cheios de revistas em quadrinhos para trocá-las com quem tivesse exemplares por mim não lidos, fugindo das vistas dos comissários de menores, pois naquele tempo – vejam só! – era proibido trocar revistas e figurinhas na porta do cinema. Para mim, era uma glória quando o relógio badalava duas horas, e devidamente acomodado na poltrona de compensado, envernizada, começava o filme com a figura do condor e a meninada gritava, como se, gritando, o bicho alçasse vôo mais rápido. Ou aprontava gritaria quando a empresa cinematográfica era a Metro-Goldwyn-Mayer, com o seu famoso leão, e aparecia em seguida, na tela, um pontinho preto. O pontinho preto ia crescendo pouco em pouco e se transformava na figura de um homem montado num belo cavalo branco, para êxtase da meninada. Era Rock Lane, em carne e osso, na tela! E ao recontar isto, só não choro, mas sinto arrepio por todo poro. Depois de assistida a fita, corríamos – minhas irmãs e eu – para o bar da esquina, do outro lado da praça, a fim de disputar a compra de picolé de groselha, que uma senhora gorda, severa, mão me lembro do nome dela, suando em bicas, se esforçava para atender a criançada. Era uma farra. Muito calor, do sol. Calor humano imenso. Anos depois, adolescente, ia com os amigos à Praça Coronel Ribeiro fazer parte do footing, a fim de flertar com as donzelas, moiçolas cheias de viço, os cabelos aos ventos e os sorrisos abrangentes; as olhadas para trás e para frente. Elas de mãos dadas com as amigas, comentando coisas da gente. Montes Claros seguia o seu curso, pachorrenta. Até que não sei por que cargas d´água, o footing se mudou escorrendo pela Rua Dr. Santos, entrava à esquerda, lá embaixo, na Praça Dr. Carlos e se escoava pela Rua Simeão Ribeiro, até A Cristal. Indo e vindo. Foi a partir disso que a Praça Coronel Ribeiro começou a perder movimento. Mas o Cine Coronel Ribeiro permaneceu vibrante. Depois dos filmes para maiores de 18 anos, sentávamos nos bancos da praça para comentar as fitas vistas e então as conversas se iam prolongando, entravam por casos vários. Era o tempo romântico. Tinha poesia, tinha esportes. Naquela época, nós líamos romances, revistas em quadrinhos e até fotonovelas, pois era o auge delas. E com os hormônios da testosterona correndo pelas veias, às vezes tudo terminava na casa de Edna, na casa de Anália ou em Zé Coco, pois foi assim que os moços de então descobriam os prazeres da carne. Com as namoradinhas, nada além de beijo na boca ou “sarro”. Tudo isso me veio, como disse, num átimo, ao ler a procedente reclamação de Waldomiro, que, estupefato, assim como eu, neste ato, viu o fim lamentoso da Praça Coronel Ribeiro, onde divagávamos. E nas prosas ganhávamos asas. Voávamos o mundo inteiro. Esta foi, pela primeira vez, que, ao recordar os velhos tempos, me veio um aperto, aqui, no peito. Por que não cuidar da nossa memória, minha senhora? Por que não conservar o velho e construir o novo, meu senhor? Por que tanto horror?
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Alberto Sena
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5/4/2010 11:07:52
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Pedras atiradas no lago
Alberto Senna
A vida pode ser comparada de várias formas. Uma delas pode ser como um lago de água suavemente movimentada pelo vento, onde atiramos uma pedra. Quanto mais pedras nós jogamos mais a água se movimenta e forma ondas. O vaivém das ondas é o resultado das pedras atiradas, aquilo que recolhemos na praia do lago. Expedi outro dia, por meio das ondas deste montesclaros.com, convites para a virtual “festa de arromba”, do “Mais Lido”, cuja lista de convidados vivos e falecidos foi formatada a quatro mãos, por Waldyr e por mim, e eis que, ali na praia recolho um resultado dessa pedra lançada no mar da nossa vida. Veio da parte de Arnaldo Antônio de Jesus, lá de Taiobeiras (MG), para cuja transcrição, eu peço a ele licença: “Para ajudar Alberto Sena enviar os convites para a “festa de arromba” do “Mais Lido”, venho pedir aos mestres Waldir Senna e Oswaldo Antunes permissão, pois faço parte dessa família. Tive o prazer de conviver e aprender nessa conceituada escola, que foi “O Jornal de Montes Claros”. Durante 14 anos da minha adolescência e juventude, fiz parte da equipe dos anos 80. Gostaria de acrescentar nesta lista de Alberto os nomes daqueles que continuaram a fazer, nos anos 80, “o Mais Lido”, até a última edição, como o nome do “Rei Falcão” (falecido), linotipista vindo de Imperatriz (MA), que dizia ter ganhado na loteria por duas vezes e gastado tudo em passagem de avião; Avilmar Gonçalves, “Negretinho”, grande profissional da máquina de fazer títulos; “João Babão”, responsável pela impressão na “moderna” impressora; “Luís Jaburu”, seu auxiliar; João, o homem dos “clichês”; Geiza, a simpática recepcionista; sem deixar de mencionar os nomes de Luiz Ribeiro, Pedrão, Girleno Alencar, Edson e dos colegas jornaleiros, “o Mudo”, Cirilo “Treme-Treme”, Rosquinha e João Batista de Xavier, hoje advogado – lembrando que o amigo “Zé Branco” faleceu. Obrigado, Alberto Sena, por me fazer voltar aos anos de muita felicidade e aprendizagem da minha vida, justamente no dia do meu aniversário”. Pelo que deduzo – e divido isso fraternalmente com cada um dos meus sete leitores – esta pedra recolhida ali na praia do lago já veio lapidada, é preciosa. Outras ainda vão tocar o coração e a lembrança de mais gentes. Arnaldo completou a lista de convidados. Confesso que não tinha meios de convidar um por um, sem a ajuda dele, principalmente porque nem sabia que essas pessoas também fizeram parte do time. Não tive o prazer de conhecer e muito menos conviver com elas. De maneira que agradeço ao Arnaldo pela iniciativa. E confirmo: todos já fazem parte da lista de convidados. Falta agora só marcar o dia, hora e local da festa virtual, que pode acontecer em todo momento. Depende do movimento, do vaivém das ondas. Falta contratar os comes e também os bebes, mais um bom conjunto musical, porque acontecimento deste tipo, entre vivos e mortos, jamais se realizaria sem uma música, de preferência, celestial. É uma grande oportunidade de nos encontrarmos – vivos e mortos. Os vivos para contar aos mortos sobre a situação atual do nosso mundo, que, se por um lado anda imundo, por outro tem muita coisa boa para ser divulgada. Os mortos, para nos dizer como é o outro lado da vida, porque os vivos só sabem um pouco do que acontece se viverem numa situação de pré-morte – dizem: “a gente entra por um túnel e depois vê um ser de luz e... depois volta ou vai em frente”. Se o pré-morto for em frente, acredito, não volta. Um dia ressuscitará como Jesus Cristo ressuscitou. De duas uma: não volta porque o outro lado deve ser muito bom e ninguém vai trocar o certo pelo duvidoso. Ou não volta porque voltar a viver neste “mar de lágrimas” em que se está transformando o mundo só sendo sado-masoquista. Muitos choram de dor na barriga, enquanto poucos choram é de tanto rir, e de tanto rir sentem dor no abdômen, malhado; ou não; proeminente, ou não. Mas assim mesmo riem.
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Alberto Sena
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2/4/2010 08:32:45
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Identificado o autor do bilhete
Alberto Sena
Deslindado o mistério do autor do bilhete anônimo deixado no alpendre da casa do sargento Leite, na sede do Tiro de Guerra, o TG 87, lá pelas bandas da Vila Ipê, em Montes Claros.
Quem leu o texto intitulado: “Veneno da Madrugada”, publicado aqui neste “montesclaros.com” sabe do que estou falando. É que o atirador Ornelas – Chico Ornelas – depois de ler a crônica, se é que posso chamá-la assim, telefonou-me dando nome ao boi, quer dizer, ao atirador. Imaginem todos como é que as coisas acontecem. 42 anos depois, o autor do bilhete se revelou em um encontro de atiradores realizado em Montes Claros, no final do ano passado. Fui convidado para o encontro, mas, infelizmente, não pude comparecer. Dia 29 de março deste ano, à tarde, eis que fui surpreendido pelo telefonema de Ornelas: “li a sua crônica e sei quem escreveu o bilhete”. Ele foi logo dizendo. E disse ainda mais: “participei do encontro e o caso do bilhete, por coincidência, foi um dos assuntos lembrados”. Ornelas, muito gentilmente, mandou-me todas as fotos tiradas na ocasião e pude ver que a nossa tropa se transformou, 42 anos depois, numa tropa de barrigudos, com algumas poucas exceções. Reconheci todas as caras, mas não me lembrei do nome de todos. Lembrei-me do nome do atirador Câmara (Roberto), hoje médico; o atirador Nélio, o próprio Ornelas; atirador Narciso (José Regino), irmão de Paulo Narciso; e do “cabo” Souto (ponho aspas em cabo porque tudo não passava de um arranjo dos sargentos; ele era atirador como nós; não tinha feito curso de cabo coisa nenhuma). Sobre o “cabo” Souto tenho uma historinha particular para contar. Num belo dia de sol, o sargento Marcos incumbiu o “cabo” de comandar o nosso pelotão. Ele ordenou que marchássemos levantando os pés nas alturas. Eu achei aquilo desnecessário e desobedeci ao comando dele. Ao que Souto veio correndo na minha direção, com toda autoridade de “cabo” e ordenou: __ Sena, marcha direito! Não dei ouvidos. Continuei marchando como achava mais sensato, pois não via necessidade nenhuma de levantar as pernas tão alto assim. Meu número de guerra era 10. Claro que o “cabo” ficou irritado com a minha rebeldia. Como estava no comando do pelotão, acho que ele tinha até razão, mas eu, já no final do exercício, com 58 pontos perdidos (com 60 pontos o atirador era excluído e mandado para a capital), com o saco cheio daquela coisa toda, teimei em continuar marchando diferente dos outros. Ao que o “cabo” Souto gritou: __ Sena, marcha direito! Continuei do mesmo jeito. Ele ficou possesso e gritou lá de trás: __ Se você não marchar direito vou chutar suas pernas! Eu disse: __ Venha chutar. É claro que ele não foi e me ameaçou: __ Vou dar uma parte de você ao sargento. Na sede do TG, ele cumpriu a ameaça e o sargento me chamou num canto para dizer que eu seria excluído porque já havia perdido 58 pontos. E completou: __ Você só não será excluído se o “cabo” Souto retirar a parte; converse com ele. Eu já estava para explodir de revolta daquilo tudo. Vivíamos em pleno auge do movimento Beatles e uma coisa que muito me incomodava era ter de cortar os cabelos tipo “príncipe Danilo”. Meus cabelos eram grandes, antes, e ao cortá-los a auto-estima foi lá embaixo. Ademais, tinha de acordar todo dia às 4h da madrugada, sendo que muitas vezes chegava em casa às 2h, vindo de alguma festa, coisa que naquela época acontecia com a maior freqüência, para me apresentar no TG às 5h em ponto. Ficava o dia inteiro igual zumbi, pingando de sono. Resultado: não conversei com o “cabo” e deixei o caso rolar. Sei que o atirador Câmara e outros amigos conversaram com o “cabo”, e ao final da instrução, o sargento reuniu o pelotão e perguntou: __ “Cabo” Souto, como é que fica; vai retirar a parte contra Sena? Ao que ele respondeu: __ Sargento, eu bem que podia não retirar, porque ele foi orgulhoso e não veio conversar comigo. Mas em todo caso, vou retirar. Foi um alívio. Imaginem, depois de tanto sufoco ter de ir para Belo Horizonte e perder mais um ano na vida? Mas, enfim, retomando o início do texto, pois acabei me divagando, foi deslindado o mistério do bilhete, como eu escreveria, naquela época, no “Mais Lido”, pois já era repórter cobrindo o setor de polícia. O autor foi o atirador 121, Atayde. E o que estava escrito no bilhete? Perguntei ao Ornelas. E ele me respondeu: __ Isto o Atayde não quis informar. Disse que nem no pau-de-arara revelaria.
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Alberto Sena
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31/3/2010 00:26:54
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Os convidados para a festa do “Mais Lido”
ALBERTO SENA
Às vezes é preciso explicar o óbvio; então, vamos lá: jornal nenhum do mundo é feito só por jornalistas. Aliás, jornalista não faz jornal, escreve. Quem faz jornal mesmo são os funcionários da oficina. Tanto é verdade que, se a Redação fizer greve, uma pessoa só, digamos, o dono, faz o jornal circular com a ajuda dos funcionários da oficina. O contrário não é a mesma coisa. Se a Oficina entrar em greve, adeus jornal. Com o JMC, o “Mais Lido” ou “O Jornal de Montes Claros” do meu tempo (década de 1960) e depois de mim, não era diferente. Escrevíamos, mas quem fazia o jornal mesmo eram os funcionários da oficina. E de tanto falar aqui sobre o “Mais Lido”, que recentemente fez 20 anos de fechamento, para tristeza de todos nós, me veio a ideia de homenagear aquela turma que, de maneira artesanal, fazia o jornal circular três vezes por semana. Veio-me, pasmem, até a ideia de propor a oportunidade de promover aí nesses montes que ainda creio ser claros, um simpósio ou o que valha, sobre o JMC, mas pelo visto a coisa não foi adiante. Ideias, minha gente, não faltam na cachola. O que falta é quem execute as idéias que aos borbotões brotam. De maneira que, na falta de um simpósio sobre o nosso “quase utópico jornal”, como diria o dono dele, Oswaldo Antunes, vamos fazer de conta que, daqui e agora, vou promover uma festa a fim de lembrar aquela gente que fazia o jornal de então. Para organizar a festa, enviarei convite a todos, mas antes preciso contar com a ajuda da memória de elefante do meu irmão Waldyr Senna. Ele tem na ponta da língua os nomes das pessoas que fizeram do jornal uma lenda. Vou convidar os vivos e também os mortos, pois esta será uma festa de arromba, tão boa que vai parecer coisa do outro mundo. Claro, eu não posso fazer uma coisa desta sem antes pedir licença ao dono, Oswaldo, e também ao próprio Waldyr, pois respeito a ordem hierárquica e o fato de serem eles os mestres e por isso mesmo são os primeiros convidados. Antes de enviar daqui da capital os convites, peço, portanto, a ajuda de Waldyr na formatação da lista de convidados e, tenho certeza, ele vai dizer, com o seu jeito característico: “já soube, por outras vias, do seu propósito de promover encontro dos sobreviventes do JMC. Não acho a ideia boa nem ruim, nem vice-versa. É uma ideia que talvez não se concretize por falta de sobreviventes. Ou então, o encontro deve ser realizado logo para aproveitar os que ainda insistem em sobreviver”. Se a festa fosse realizada décadas atrás, a lista de convidados me seria enviada por carta ou por telefone, mas como vivemos a era da internet, tudo se resolve pela via eletrônica, desde que ele encontre um tempinho disponível para listar os convidados, pois o homem até hoje trabalha e trabalha. Como trabalha! De antemão, peço desculpas, se porventura eu me esquecer de convidar alguém, mas adianto: a lista de convidados sairá quentinha da memória de Waldyr, como saíam as plaquinhas de chumbo da linotipo do JMC prontinhas para a paginação do jornal na oficina da Rua Dr. Santos, 103, aí em Montes Claros. Eis a lista: “Walter Andrezzo – linotipista (falecido); Milton Ruas – linotipista (não sei por onde anda); João Dias (e não José) – paginador (surge de vez em quando); Dona Maria – expedição (foi “expedida” há tempos); Heloisa (sumiu, reapareceu e de novo sumiu); Tião Camurça – impressor (cantor que “cantava” – ainda vive); Zé Versiani – grande figura, barulhento e agitado (vivo); Zé Colares – paginador dos mais eficientes (morto ); Marcionilio, antes do Zé (foi para Divinópolis, onde morreu); Odete Orlina (secretária, consta que não está bem, mas sumiu); Florival Ferreira (ótimo repórter, foi trabalhar na CEF, em Paracatu – ou seria João Pinheiro? – onde “mexe” com rádio); Flávio Pinto – que você conhece, tem até livro publicado; Caio Lafetá – de rápida passagem (foi-se); Reginauro Silva (dirige um jornal aqui, de Rui Muniz); Hélio Ribeiro (virou professor e nunca mais eu vi); Garcia (ou, se preferir, Nenzinho, ou “Astronauta”, como dizia Lazinho, pois ele tinha aparência de um ET devido aos óculos) – é mototaxista e o encontro sempre; Lazinho – preciso falar? Sempre que ele me via “jogando pedra”, naquele aperto doido, chegava advertindo: “cuidado, você está trabalhando demais, olha o infarto” (morreu há uns quinze anos, de infarto do miocárdio); figura da melhor qualidade, sempre presente na nossa memória); Waldemar Brandão – ótimo profissional, foi para o Banco do Brasil em Brasília, onde foi redator de uma revista do BB; aposentou-se e mora em BH, fazendo o quê, não sei; centenas de vendedores do “Jornal de Montes Claros de hoooooooje”, que eram crianças e se tornaram adultos e atualmente me reconhecem na rua e conversam comigo como se eu fosse computador para armazenar na memória aquela cambada toda); estes, certamente, sobreviverão muito tempo ainda, mas não poderão ser convidados para a grande festa que você pretende promover; envelheceram muito, pois eram crianças e agora são adultos e ninguém sabe por onde andam”. Recebida a lista, acrescento, entre os convidados: Zé Branco (ainda vive?), Lúcio Benquerer, Robson Costa (falecido), Carlos Lindenberg, Paulo Narciso, Itaumary Telles, que entrou em meu lugar logo que saí do JMC para o jornal Estado de Minas; Paulo Braga e... Se me esqueci de mais alguém, repito, peço desculpas. Mas todos se sintam convidados para a festa. De modo geral, os montesclarenses ausentes e presentes, inclusive o ex-escravo, Tuia, que tinha uma casinha de madeira azul na garagem da casa velha da rua Dr. Santos, 103.
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Alberto Sena
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29/3/2010 14:27:31
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| Caro Flávio, Esta mensagem é para lhe dar, digamos, “uma bronca”. Por que ficar tanto tempo assim nos privando dos seus belos textos? Com exceção do que postou dia 28, o último foi no dia 20 de novembro do ano passado. Será que você anda tão apertado assim de costura que não vem tendo tempo de escrever as crônicas que tão bem nos faz e nos ensina? Ora, com efeito – diria a minha mãe Elvira – faz assim não. Escreva mais sobre a nossa Montes Claros querida, que, infelizmente, a cada dia vai se contaminando com os vícios de cidade grande e perdendo a memória. Não se trata de saudosismo. É preciso que deixemos para as atuais gerações e as que ainda virão informações de que a nossa cidade nem sempre foi como é atualmente. Basta uma espiada nas manchetes enviadas diariamente por Paulo Narciso para verificarmos o quanto Montes Claros se transformou e ainda vai se transformar. Como diria Waldyr, enquanto ainda há tempo, vamos registrar a memória dos “sobreviventes”, nós que ainda insistimos em viver, porque somos viciados nessa coisa maravilhosa chamada vida. Foi um prazer enorme ler as suas tão bem traçadas linhas que sempre nos levam a realimentar esperanças. Grande abraço, Alberto Sena.
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Alberto Sena
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25/3/2010 09:49:56
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Veneno da Madrugada
Alberto Sena
O escritor colombiano Gabriel Garcia Marques fez um livro intitulado “Veneno da Madrugada”, publicado em 1961. Para quem ainda não o leu, um resuminho: acontecia de a cidade acordar com panfletos apócrifos publicando questões íntimas de determinadas pessoas e ninguém conseguia descobrir a origem. Alguém punha para fora os podres alheios e isto criava o maior constrangimento na cidade, um esboço de Macondo, lugar fictício criado por Garcia Marques e devidamente dissecado por ele no livro “Cem Anos de Solidão”. Uma história semelhante aconteceu em Montes Claros, anos depois da publicação do “Veneno da Madrugada”. Mas não se deu como no livro, porque não foi panfletagem por toda a extensão da cidade. Foi na sede do antigo Tiro de Guerra, pelos lados da Vila Ipê, onde a turma cumpria o dever que, imaginem, um poeta – Olavo Bilac – teve a ideia de criar: o serviço militar. O TG era comandado, na ocasião, pelo sargento Conga, porque o sargento Lafayete havia ido embora, e enquanto não vinha o substituto dele – sargento Marcos – o comando era dividido com o sargento Leite, um homem com traços de índio do Mato Grosso. Ele tinha várias falhas de dentes e por isso falava assobiando. Teria sofrido um problema na gengiva que o obrigara a fazer extrações. Sargento Leite tinha tudo de sargento: força na voz de comando, exigente, disciplinador, farda impecável, quepe de pala sempre engomada e costumava torrar os atiradores por causa do menor deslize. Quase todo dia tinha revista de cabelo e barba. A ordem unida era pesada. Havia bastões que os atiradores utilizavam na educação física, substituindo os fuzis de 1900 e borrachinha. De vez em quando, dentro da sede, era praticada a desmontagem e montagem de fuzil e mais para frente tiro ao alvo numa área distante da cidade. Não se sabe por que cargas d’água, numa manhã, lá pelas 5h, quando os atiradores chegaram para se apresentar, o sargento Leite estava que nem uma fera, bufando e cuspindo por entre os dentes e ninguém sabia o porquê, nem mesmo os atiradores de plantão que lá passaram a noite. O sargento assumiu o comando do pelotão e ordenou: _ TG! Seeenntido! E todos ficaram como se tivessem engolido um cabo de vassoura. Nessa posição o sargento deixou a turma enquanto indagava em altos brados: __Qual foi o engraçadinho que deixou um bilhete no alpendre da minha casa nesta madrugada? Fez-se silêncio. Dava para ouvir até mesmo o vôo dos mosquitos e o canto do bem-te-vi ao longe disputando espaço. O sargento abaixou a cabeça e deu vários passos firmes para lá e vários passos firmes para o outro lado. Disse: __ Quero que o engraçadinho se apresente, agora. Sabem quantos atiradores se apresentaram? Nenhum. O silencio perdurava. E o sargento assobiando por todas as falhas de dentes disse que iria punir a turma até que “o engraçadinho”, como ele chamou, aparecesse. E ordenou: __Meia volta, volveerrrr! Em seguida: __Ordinário, maarrrchee! E a turma marchava. Levantava os pés o mais alto possível, como ele exigia que fosse. E mais adiante o sargento ordenou: __ Aceleradooo! E todos começaram a correr. E quase imediatamente, deu outra ordem: __ Rastejar. E depois: __ Levantar. E foi assim: acelerado, rastejar, levantar; acelerado, rastejar, levantar... Isso durante, digamos, umas duas horas. E nada de aparecer o “engraçadinho”. Por ordem do sargento o pelotão voltou para o TG com os braços e os joelhos esfolados, fardas rasgadas e sujas de terra ou lama, de acordo com o terreno onde uns e outros tiveram de rastejar. Foi um dia de cão. A cidade toda soube do ocorrido, que foi até notícia em jornal. Alguns pais de atiradores ficaram indignados. Os que tinham mais acesso às hostes militares trataram de tomar uma providência, reclamando ao comando na capital e o sargento foi chamado à atenção. Apesar de toda pressão para o “engraçadinho” se apresentar ou ser denunciado por alguém que pudesse ter visto algo suspeito, ninguém apareceu para assumir a autoria do “veneno da madrugada”, um dos títulos que lançaram ao mundo Gabriel Garcia Marques para se tornar um dos maiores escritores da América Latina, Prêmio Nobel de Literatura. Detalhe: a não ser o autor anônimo, claro, e o sargento, ninguém nunca soube o teor do tal bilhete.
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Alberto Sena
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22/3/2010 14:06:13
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A explosão da cidade
Alberto Sena
Faz uma data não vou a Montes Claros. Fisicamente, porque nas lembranças estou sempre aí. Não dá para esquecer uma vida vivida intensamente nessa cidade, que possui o céu mais bonito do planeta e o luar mais lindo do sertão. Aí, tenho a sensação de estar mais perto do céu. Talvez seja pelo fato de a cidade estar num planalto. Posso dizer, e se eu estiver errado me corrijam: a nossa geração pegou a parte melhor da vida no arraial. Quem quiser que faça comparação entre o ritmo de vida da cidade na década de 1960, entrante na década de 1970, com as loucuras que vemos nos dias de hoje por meio das manchetes que Paulo Narciso nos manda diariamente pela via eletrônica. Em contato com o jornalista Itamaury Telles, disse a ele que pretendia ir muitas vezes a Montes Claros, mas da vez derradeira que fui, num Natal, caí na bobagem de ir ao centro da cidade para tentar capturar alguns dos meus fantasmas e quase tive crise de pânico. Naquele trecho da Praça Dr. Carlos, bem ali onde era o antigo mercado municipal, um casarão antigo que o prefeito Toninho Rebello demoliu (dizem que este foi o único erro que ele cometeu), bateu-me um desespero que não tive outro remédio senão sair o mais depressa possível dali. Guardadas as proporções, nem na China vi tanta gente naquele vaivém frenético se misturando com bicicletas, motos e carros. Valha-me Deus! Hoje me lembrei dessa cena do Natal, que me remeteu ao tempo em que o coração da cidade pulsava bem ali na Rua Dr. Santos, 103, na casa velha sede de “O Jornal de Montes Claros”, quando um dia o jornalista José Fialho Pacheco, repórter do Jornal “Estado de Minas”, em um das suas primeiras idas à cidade, comentou: __ Vai explodir. __ O quê?! Bomba?! Perguntamos apreensivos. Ele se referia à cidade, que já naquela época experimentava excessivo movimento em meio às estreitas ruas. Quem conhece a nossa história sabe que tudo começou a partir de uma fazenda do bandeirante desgarrado do bando de Fernão Dias Paes Lemes, Antônio Gonçalves Figueira. As ruas de Montes Claros foram feitas mais para o tráfego de charretes e carroças. Montes Claros sempre foi pólo de desenvolvimento. Na época, recebia levas de gente vinda do Nordeste brasileiro, rumo a São Paulo. Muitos eram retirantes e apeavam do famigerado pau-de-arara, fugindo da seca nordestina. Alguns ficavam e se transformavam em “tipos humanos” da cidade. O mais famoso deles foi Tuia, ex-escravo. Diziam que ele tinha mais de cem anos (dele trato em ocasião oportuna). Havia mais: Geraldo Tarugo, Requeijão, Requebra-que-te-dou-um-doce, entre outros. Nos dias atuais, cumpre-se a profecia do jornalista Fialho Pacheco, que, movido pelos impulsos do coração, se transferiu para Montes Claros logo depois, e em seguida, para Juramento, onde foi prefeito, constituiu família e viveu os seus últimos dias. Mas antes de vir para Montes Claros, ele me cedeu lugar no Jornal Estado de Minas, na editoria de Polícia, à época dirigida pelo jornalista e escritor Wander Piroli, autor de livros como “A mãe e o filho da mãe” e “O menino e o pinto do menino”, que já no século passado alertava para o perigo dos estragos que fizemos ao planeta em termos ambientais. Montes Claros de hoje padece os mesmos males que afetam as grandes cidades do País. Não dá para barrar o tempo. Querer a cidade estanque é inimaginável. A renovação perpetua o mundo. Mundo, oh mundo, nave que viaja pelo espaço em alta velocidade hoje em dia. Mas nem de longe, Montes Claros lembra a cidade sobre a qual Rahvi, um dos meus filhos, nascido em Belo Horizonte, emitiu basilar frase ao andar a primeira vez pelas estreitas ruas, ali pela década de 1980, quando ele tinha dois anos de idade: “pai, aqui, até cachorro anda devagar”. A cidade de fato explodiu. Fialho só não previu a extensão da explosão, que ecoa pelo Brasil e o mundo afora. Mas se os montesclarenses não encontrarem maneiras de conter os excessos – os assassinatos, as execuções, os assaltos em plena luz do dia, entre outras ocorrências policiais típicas de cidade grande, dá para imaginar como será a Montes Claros de 2020 ou 2030? Sem querer imitar Fialho Pacheco, mas imitando-o, fica o alerta, enquanto há tempo (há tempo?): é preciso pensar a cidade de amanhã, sob os aspectos político, socioeconômico, urbanístico e ambiental, porque a próxima explosão será com a força e a energia de muitos megatons.
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Alberto Sena
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18/3/2010 20:49:34
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A didática do professor Márcio
Alberto Sena
Era o primeiro dia de aula de Português. Nós estávamos excitados com o início de nova fase da vida estudantil. O professor era nosso conhecido, de nome, apenas: José Márcio Aguiar. Famoso na cidade por ter sido professor de gerações anteriores à nossa, logo que foi dado o sinal para o início da aula, toda a classe estava acomodada em seus devidos lugares. O professor entrou trazendo uma pasta preta numa das mãos e papéis na outra. Márcio Aguiar cumprimentou a turma logo na entrada. Tinha os cabelos bem penteados, certamente untados de brilhantina, tão na moda naqueles idos da década de 1960. Usava guarda-pó branco e calçava sapatos marrons de salto um pouco mais alto que o normal. Ele pôs a pasta e os papéis sobre a mesa e olhou a turma de um canto ao outro como quem quisesse guardar a fisionomia de cada um. Éramos mais de 30 jovens, a maioria do sexo feminino. Naquela época, a Escola Normal era como uma catedral do ensino em Montes Claros. O detalhe é que o casarão já carecia de uma reforma. Tínhamos notícia de que, volta e meia, o reboco das paredes caía e até o forro de madeira pintada de azul deixava cair pedaços de vez em quando (Houve um dia, em plena aula, que um pedaço do forro desabou e saímos correndo da sala). Mas no primeiro dia de aula do professor Márcio, uma sumidade em matéria de Língua Portuguesa, ele se apresentou como era praxe, e, em seguida, perguntou o nome de cada um. Ficamos esperando o que aconteceria depois. Guardando silêncio, ele andou de um lado para o outro à frente da lousa, chamada quadro negro, e depois iniciou a aula contando o que sempre contou aos seus alunos – posso assegurar, sem medo de errar, muitos dos seus ex-alunos que porventura estiverem lendo este texto vão se lembrar: o professor Márcio contava a mesma história a todos, sempre no primeiro dia de aula, e como era de didática rica, não deu para eu me esquecer dela. Ele iniciou: “um homem ia andando tranquilamente pela rua, em um belo dia de sol, quando, para sua surpresa, foi interceptado por um assaltante lhe apontando revólver”. Aqui, cabe um parêntese: (assaltante a mão armada era incomum naquela época. O máximo que acontecia na cidade era ocorrência de ladrão de galinha. Assalto a mão armada é próprio dos nossos dias, quando Montes Claros registra os mesmos problemas de segurança das metrópoles brasileiras). Fechado o parêntese, o professor prosseguiu a narrativa: “o homem levantou os braços ao se vir ameaçado pelo assaltante armado, que, ato contínuo, disse: “te mato”. O homem, mais surpreso ficou com o que acabara de ouvir da boca do assaltante – “te mato” – do que com a arma propriamente dita. E sem a menor cerimônia, respondeu ao assaltante: “mata-me, faças tudo que quiseres, mas nunca empregues um pronome oblíquo no início da frase.” (Em verdade, o pronome oblíquo é uma forma variante do pronome pessoal do caso reto. Essa variação na forma do pronome indica tão somente a função diversa que ele desempenha na oração: pronome reto marca o sujeito da oração; pronome oblíquo marca o complemento verbal da oração). E para surpresa nossa, que esperávamos um fim mais trágico do caso, o professor encerrou a narrativa dizendo que o assaltante, “com a cara de bobo”, simplesmente abaixou a arma e desistiu de assaltar o homem. Achamos o final da narrativa meio sem graça, mas marcou-nos o bastante e ficou gravado na memória para sempre. Lembrando agora desse episódio, podemos tirar de duas uma conclusão: mudaram a língua portuguesa ou certas pessoas, inadvertidamente, usam nos dias de hoje o pronome oblíquo no início da frase porque não tiveram um professor como José Márcio Aguiar.
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Alberto Sena
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14/3/2010 08:53:37
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Leonel e a “boneca de Leonel”
Alberto Sena
Demorei um tempo até me acostumar com a ideia de encarar, cara a cara, a “boneca de Leonel”. Devo explicar isto porque, afinal, décadas se passaram e nem todo morador de Montes Claros de hoje sabe quem foi Leonel, de sobrenome Beirão de Jesus, e muito menos ainda o que era a “boneca de Leonel”. Vamos por partes, diria o estripador de Londres, Jack. Leonel era um camarada extrovertido. Hoje emprego este adjetivo, mas no mundo infantil da época, ele era doido da cabeça mesmo. Espalhafatoso, conversava gesticulando muito e com vozeirão de meter medo. Resumindo: Leonel hoje seria chamado “hiperativo”, porque não conseguia ficar quieto. A “boneca” dele era semelhante aos bonecos que vimos nos carnavais de Olinda. Ele teria tirado de lá a ideia. Era imensa, oca por dentro, vestida de chita colorida puxada para o vermelho. Leonel a utilizava para fazer propaganda de lojas da cidade. Ora ele mesmo ficava dentro dela, ora punha alguém para ficar e, do lado de fora, em carne e osso, empunhava megafone e aos berros fazia propaganda de quem o contratara para a empreitada. A “boneca” saía pelas ruas tranquilas de Montes Claros tendo à frente Leonel e banda, atrás turba de meninos e meninas saltitantes, olhos esbugalhados, tentando entender o que se passava dentro dela, querendo ver quem lhe dava vida, através de uma rachadura bem no meio do peito. Leonel foi precursor da propaganda em Montes Claros, um grande comunicador. Seria, digamos, “Chacrinha” daqueles tempos em que as notícias corriam nas ondas do rádio e TV não existia. Os mais velhos que aí ficaram conheceram-no e também a sua famosa “boneca” e me ajudam a não exagerar sozinho o quanto ele foi importante para a cidade. Não é à toa que em Montes Claros uma avenida leva o nome dele. Além de comunicador, o danado do homem era dono da funerária da cidade. Muita gente boa, e também gente nem tão boa, foi levada por ele para o cemitério. Quando a “boneca de Leonel” passava na porta de casa, na Rua São Francisco, acima da linha da estrada de ferro, com medo dela, porque ela mexia para os lados e chegava o momento em que abaixava o tronco e dava um giro de 360 graus em cima da gente, eu me agarrava às pernas de pai, de mãe ou de quem estivesse por perto. Logo venci o medo e me integrei à turba que seguia os passos da “boneca”, enquanto Leonel divulgava aos quatro cantos e aos ventos as novidades de certas lojas, convocando todos às compras. O sol era de rachar o chão. Eu ficava pensando: “Como o homem dentro da boneca suporta tanto calor?”. Foi numa vez que pude perseguir a “boneca” que o resquício do meu temor se esvaiu de vez feito fumaça no ar. Como ninguém é de ferro, em certo ponto da peregrinação chegava a hora de o homem descansar. Leonel parava de gritar pelo megafone, os ajudantes dele punham tambor, tarol e as baquetas no chão, e puxavam de baixo para cima a boneca. E como num passe de mágica, de dentro dela surgia um homem ensopado de suor. A cidade era divertida. Montes Claros nem de longe experimentara o progresso que vemos hoje. As pessoas se conheciam – era Venâncio, de Zé Bitaca; Gêra, de “seu” Nilo; Rubinho, de ‘seu” Cipriano; Saul, de “seu” Abel; Roldão, de “seu” Militão; e assim por diante. Todos conheciam Leonel. Pelo fato de ele trabalhar com funerária, a única, tinha bom relacionamento com a polícia e freqüentava todos os ambientes da cidade, o café de Zim Bolão, o café Galo, A Cristal, o restaurante Mangueirinha e se imiscuía na vida de todos. Enfim, tornou-se homem querido, respeitado. Mas num átimo o tempo passou. A “boneca” foi aposentada. Entrou para a dimensão do folclore da cidade. Leonel pôde se dedicar mais à funerária. Num dia, final da década de 1960, ele apareceu na Delegacia de Polícia, na Rua Dr. Veloso, onde, por ossos do ofício, o repórter tinha de frequentar diariamente. Leonel estava nervoso, preocupado, triste e não sei mais o quê. A polícia, numa controvertida ação, no meio da madrugada, assassinara o filho dele, o mais velho, um rapaz hiperativo tanto quanto ele. O corpo estava seminu em cima da mesa do necrotério, com uma perfuração bem encima do coração. Um orifício do tamanho dum grão de feijão.
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Alberto Sena
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11/3/2010 11:27:13
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| Estava aqui pensando com os meus botões (aos borbotões) sobre o fechamento de O Jornal de Montes Claros, que, ontem, fez 20 anos. Conscientemente, não atinei para a data, mas por uma coincidência ou intuição, fiz o texto sobre como comecei a trabalhar no JMC e foi como se jogasse uma pedra no lago, pois estamos colhendo as ondas. E é aqui, "nas ondas", que reside o conteúdo das reflexões: se o `Mais Lido" foi tão importante na vida de todos nós - fazedores de jornal, leitores etc. - não seria o caso de você, cria do jornal e agora à frente de uma importante rádio que, inclusive, lembrou da passagem dos 20 anos, não seria o caso de você comandar, por meio da rádio, a realização de um evento, um simpósio, aí em MOC, sobre O Jornal de Montes Claros? Estou oferecendo a idéia e me colocando ao seu lado para ajudar no que for necessário. Por meio de uma promoção dessa, exaltando o `Mais Lido` como um veículo - como chamou Oswaldo Antunes, "quase utópico" - que se tornou uma verdadeira escola de jornalismo, porque ensinava fazer jornal diretamente na prática, transformando um produto, digamos, artesanal, em algo de alto nível, responsável diretamente pelo que Montes Claros é hoje, e que, infelizmente, deixou de circular. Acho que esta seria uma boa oportunidade de chamar a atenção da mídia da cidade e, quicá, de Minas e do Brasil. Um simpósio desse, que reuniria muita gente, daria um visibilidade enorme, e ao mesmo tempo, serviria para passar a imprensa daí a limpo. Que tal? Um evento desse ainda poderia pegar viva muita gente daqueles bons tempos. Se nada for feito agora, acho que nunca mais se fará alguma coisa. A não ser que pessoas interessadas, e que não viveram, como nós vivemos, o JMC, tenham a idéia de tomar alguma iniciativa neste sentido, nos 50 ou 100 anos de fechamento do jornal. Fica a idéia. Se você se interessar, vamos conversar. Obrigado e abraços a todos, Alberto Sena.
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Alberto Sena
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9/3/2010 07:27:12
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Quando cabelo pode virar cobra
Alberto Sena*
Era o aniversário de Ladinha, minha irmã, e talvez por isso, em espírito, estive em Montes Claros, dia três de março, já que fisicamente não podia ir, e revisitei a casa onde ela mora com Wanda, que veio ao mundo logo antes de mim, e foi como se abraçasse uma e outra. Depois da visita, do tipo “vim buscar fogo”, aproveitei para esticar a viagem e rever pontos marcantes de Montes Claros, aqueles que continuam intocados na lembrança, porque alguns já se tornaram pó. Foi quando me detive na Praça da Matriz e revi os fícus do seu contorno; sentei-me em todos os bancos em busca das minhas impressões digitais; senti o perfume das rosas; admirei a perspicácia do beija-flor que uma a uma visitou as flores dos jardins. E não contive o ímpeto de adentrar a Igreja Matriz de tantas missas, cruzadas, casamentos e sextas-feiras da Paixão. Pedi a Deus: “tem misericórdia de nós e do mundo inteiro” e saí depois de fazer a genuflexão e me dirigi à Escola Normal lá atrás. Esta foi uma das boas partes da viagem astral. A escola se encontrava do mesmo jeito de quando iniciei o curso ginasial. Quer dizer, pouco em pouco caindo aos pedaços. Já naquela época, dei a minha contribuição para sensibilizar o governador Magalhães Pinto a construir nova Escola Normal, e de fato foi construída, na Avenida Mestra Fininha, e foi batizada com o nome do filho dela, o imortal Darcy Ribeiro. Ali, diante das velhas portas da vetusta escola, lembrei-me do dia em que nossa turma parou o carro do governador Magalhães Pinto, bem em frente onde eram os Correios, e com a cara dentro do carro, pedi: “Governador, manda construir a nova Escola Normal”. Foi quando constatei, de fato, que ele se parecia com o ator norte-americano, nascido russo (morreu em 1985), Yul Brynner (Taidje Kahu), cabeça desprovida de cabelos. Ele nos fez sinal de positivo com a mão e saímos correndo, gritando de alegria, aquela alegria que todos experimentam quando se vive a adolescência. Com a mesma rapidez em que em espírito fui a Montes Claros “buscar fogo”, voltei, e me vi sentado em frente ao computador e dedilhava as teclas, movido pelas lembranças daqueles anos, politicamente, sob os coturnos militares resultantes do ainda recente golpe de 1964. Lembrei-me de certas pessoas do sistema imposto que de tudo faziam para impingir nas cabeças o terror comunista: “eles comem criancinhas!”. Lembrei-me dos professores, grandes personagens. Marcaram gerações, como Francolino, Terezinha Guimarães, Dulce Sarmento, Márcio Aguiar, Pedro Santana, Rameta, Joãozinho, Juvenal e, principalmente, Yvonne da Silveira, além de outros. Escrevi principalmente Yvonne da Silveira porque, no meu caso, ela marcou passagem pela minha vida ao declamar, vezes várias, o belo poema de Jorge de Lima, “Essa Negra Fulô”, que se inicia assim: “Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô! Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
O poema segue, e a quem interessar possa, está acessível na internet. Quero com isso dizer que dona Yvonne declamava com muita garra. E ainda hoje deve recitar o poema de Jorge de Lima, com a mesma competência e plástica, a mesma pantomima que tanto marca a alma dos poetas. Pensava comigo mesmo: “Jorge de Lima deve se sentir orgulhoso de ver uma pessoa recitar os seus versos com tanto realismo; fantástico realismo!” Agora, com o pé no chão, cara a cara com a realidade, essa realidade ilusória, em verdade, chego à seguinte conclusão: posso até não me ter saído tão bem na vida, mas não tenho como negar, eu nem os meus colegas de ginásio – se me dão licença, cito alguns: Ricardo e Fernando Deusdará, Carlos Alberto Prates, Alberto Graça, Marco Antônio Rocha, Antonilda Canela, Oselita Barbosa, Virginia Barbosa e Saulo Wanderley, entre outros – tivemos bons professores. Francolino, um deles, lecionava Biologia e Geografia. Numa vez, na aula de Biologia, uma das nossas colegas, hoje médica (o nome dela não está na lista acima), interrompeu a aula para perguntar: “Fessor, é verdade que cabelo dentro d’água, por muito tempo, vira cobra?” Claro que a turma não a perdoou. Caiu na gargalhada. E Francolino, tez sisuda, mandou-a fazer a experiência e apresentar o resultado à classe.
* Jornalista
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Alberto Sena
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4/3/2010 09:41:33
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Era feliz e sabia
Alberto Sena*
Houve um tempo em que eu encontrava comigo mesmo em todas as esquinas de Montes Claros. Não sou saudosista, aviso logo. Simplesmente, vivi aquela época, década de 1960, e era feliz. Era feliz e sabia. A Rua Doutor Santos era a principal da cidade. Nela ficava (ficava) uma casa antiga sede da redação do “O Jornal de Montes Claros”. Comecei a trabalhar no jornal dirigido por Oswaldo Antunes e Waldyr Senna, que, não por acaso, é meu irmão; dos homens, o primeiro. Mas ele nada teve a ver com a minha ida para o jornal. Aliás, para ele foi surpresa. Para mim, muita emoção. Se me dão licença, conto como foi em rápidas pinceladas, como diria o genial Pablo Picasso. Contei no texto anterior que a sapataria de Tião Boi, na Rua Presidente Vargas (e não Rua Benedito Valadares – obrigado Augusto Vieira pela correção), era o centro do universo. Um dia, cheguei lá, de manhã, para assinar o ponto e eis que encontro Geraldo Gomes (por onde será que ele anda hoje?), repórter do Mais Lido, alcunha do “O Jornal de Montes Claros”, cobrindo o setor de Esportes. O Gomes disse-me que estava me esperando, tinha as malas prontas, ia se mudar para Belo Horizonte e precisava arranjar substituto no jornal. “Conversando com Tião Boi, ele sugeriu você para me substituir” – disse-me Gomes. Fiquei estupefato, mas sem deixar transparecer ao amigo. “Vamos ao jornal que vou apresentá-lo ao Waldyr”, convidou-me, de certo modo, gracejando. Fomos. Lá chegando, naquela casa velha que, se não me engano, era propriedade de Luiz de Paula Ferreira, Gomes me recomendou ficar na ante-sala, enquanto ia avisar ao Waldyr: “Trouxe o meu substituto”, disse ele. E Waldyr respondeu: “Então mand’ele entrar”. Entrei. “Você?!”, ele ficou deveras surpreso. Não imaginava que eu, aos 17 anos, estivesse ali para seguir as pegadas dele no jornalismo. Feitas as apresentações de praxe, Geraldo Gomes me deu a primeira orientação que sigo até hoje: “Você joga futebol (jogava no “time de Bonga”, o famoso juvenil do Casimiro de Abreu com um ‘s’), então faça o seguinte: pegue caneta e papel, anota os lances mais importantes do jogo, e logo que a partida acabar, você sai fazendo a matéria na cabeça; quando chegar à redação do jornal é só escrever”. Por ali, por aquela casa antiga, em cuja garagem morou o ex-escravo Tuia, numa casinha azul de madeira feita especialmente para ele, vários aprendizes, hoje grandes profissionais, passaram. A maioria ainda vive: Lazinho Pimenta, Theodomiro Paulino, Haroldo Lívio, Flávio Pinto, Robson Costa, Carlos Lindenberg, Robério Antunes, Humberto e Adalberto Versiani, Paulo Narciso, Adroaldo,Waldemar Brandão, Itamaury Telles, Reginauro Silva, entre outros. “O Jornal de Montes Claros”, que ainda continua vivo na lembrança, com o tempo sedimentou a fama de “escola de jornalismo”, nas redações dos grandes jornais, principalmente no “Estado de Minas”, onde por vários anos trabalhamos juntos: Robson Costa, Carlos Lindenberg, Fernando Zuba e Paulo Narciso. Naquela época, diria sobre Montes Claros, Robson Costa, se vivo fosse: “a cidade era bem mais tranquila”. Responsável pelo noticiário de polícia do Mais Lido, Robson diria, certamente: “ladrão era amigo do alheio e fugia em desabalada carreira”. O jornal era, enfim, uma espécie de trincheira, sem dúvida, responsável por induzir grande parte do progresso que a cidade alcançou. Exercia forte influência política. Lutou pela Sudene, pelo Distrito Industrial, pela Barragem do Gurutuba, pelo Projeto Jaíba, pela educação etc. Cumpriu o papel de praticar o bom jornalismo. A Rua Doutor Santos era uma espécie de passarela de jovens bonitas. Da porta da casa velha onde funcionou a redação flertávamos moiçolas, cada uma fazendo mais questão do que a outra de esbanjar beleza e charme, vestindo shorts ou minissaias tão em voga naqueles tempos. Tempos em que as desavenças eram resolvidas, senão pelo diálogo, no máximo, no tapa. Só de vez em quando tombava alguém, quando a família dos Mió resolvia dar cabo de um dos parentes. Então o cadáver era levado para o necrotério de Leonel Beirão, onde “dr. Lessa”, que fazia vezes de médico legista, realizava a necropsia. Para lembrar o quanto era interessante viver em Montes Claros daquela época, o mais excitante, o mais emocionante, era quando corria o burburinho pela cidade que naquela noite haveria refrega entre as turmas de “Gerinha Português” e “Gêra do Morro”. O “’Português”, tal e qual galinho Garnisé, era o terror. O outro carregava fama de capoeirista. Essas refregas eram notícia de jornal. De vez em quando pipocavam tiros para o alto, mas ninguém saía ferido. Não era como as brigas atuais, quando Montes Claros quase todo dia lamenta o assassinato de alguém. E no caso dos ladrões, os de hoje não fogem em “desabalada carreira”, mas em alta velocidade, de motocicletas, com a cara escondida dentro do capacete.
* Jornalista
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Alberto Sena
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28/2/2010 11:49:28
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Tião Boi, a jia e as cócegas
Alberto Sena *
Quem viveu a época, em Montes Claros, vai se recordar: idos da década de 1960, na sapataria do Tião Boi, na Rua Benedito Valadares. Um cômodo incrustado na parte lateral do prédio onde funcionava o Clube Montes Claros era o ponto de encontro dos jovens na faixa de 15 a 18 anos. Todos afeitos ao futsal – naquele tempo, a grafia era futebol de salão – e também ao futebol de campo gramado dirigido pelo técnico Bonga, o famoso juvenil do Casimiro de Abreu, com um ‘s’ só, que enfrentou o Botafogo, no Rio de Janeiro, no Estádio General Severiano, e depois, em Montes Claros, no campo do Ateneu. Falava-se de tudo ali naquele cubículo, onde a marteladas Tião Boi punha meia sola em sapatos para ganhar o pão de cada dia. Embora na ocasião não tivesse avançado nos estudos, ele era um homem versado em todos os assuntos. Ali, naquele ambiente cheirando a chulé de sapatos usados, falava-se inclusive de política. Volta e meia o aspirante a deputado, Humberto Souto, lá estava para trocar idéias com Tião Boi. Mas muito mais se falava de futebol, pois à época, as mais incríveis histórias de craques como Manoelzinho, Manoelito, Chinezinho, Jomar, Marcelino e o irmão dele, Moe-de-Ferro, entre outros, povoavam o imaginário de cada um dos freqüentadores da sapataria. Tião Boi tinha barriga proeminente, era um tipo sagaz, inteligente e muitas vezes mordaz e irônico. Um gozador, isso o resume. Mas ele tinha um ponto fraco. Aliás, dois. Tinha alergia a toda espécie de animais anuros, principalmente jia. Bastava pronunciar a palavra jia para ele ficar com o corpo empolado em um instante. O outro ponto fraco era a hiper-sensibilidade às cócegas. Não era necessário tocar-lhe os lados para ele se contorcer em cócegas, ao ponto de até passar mal. Bastava gesticular com as mãos a distância. Tião era digno do respeito de todos os moços. E das moças também, as quais ele atendia com toda deferência, pois era gentil e cavalheiro. Ninguém ousava tocar-lhe nos pontos fracos. No máximo, isso era mote de conversas fora da sapataria, longe da presença dele. Como todo brasileiro, havia em Tião Boi talento para técnico, no caso, de futsal, geralmente disputado no Ginásio Darcy Ribeiro, na Praça de Esportes. Ele dirigia o time do Banco do Brasil. Zé Carlos Gomes, Augustão Bala-Doce e Esquerdinha, entre outros craques, faziam a festa na quadra. Certa feita, por uma questão disciplinar, Tião Boi deixou no banco um dos titulares da equipe. O ginásio estava superlotado e já naquela época donzelas, as mais belas, costumavam assistir às partidas. No banco, um dos craques, cujo nome não convém declinar aqui, mordia a camisa de raiva porque fora impedido de mostrar as suas qualidades para a moça que hoje vive no seu coração. Ninguém soube ao certo quem maculou o acordo tácito entre os moços e Tião Boi. Houve quem achasse que não passava de uma retaliação do craque que ficou no banco de reservas. Quando Tião Boi abriu, no dia seguinte logo cedo, a sapataria para mais um dia de labuta, eis que uma jia enorme, daquelas só encontradas nas margens do Rio Vieira, saltou-lhe em cima. Tião Boi entrou em pânico. No mesmo instante o corpo dele ficou empolado, vermelho. O escândalo feito por ele foi tamanho que em seu socorro acorreram várias pessoas achando que algo de muito grave lhe acontecera. Quando perceberam que Tião Boi estava correndo de uma simples jia, as pessoas caíram na gargalhada. Cabisbaixo, olhando os circunstantes de soslaio, olhos de boi a caminho do matadouro, o sapateiro parecia cuspir pregos, tachinhas, facas amoladas e sapatos com cheiro de chulé nos engraçadinhos. Por mais que ele tivesse tentado, nunca conseguira saber quem teve a ousadia e a audácia de colocar a jia dentro da sapataria, em meio a pregos, tachinhas e couros para meia-sola ou sola inteira em sapatos femininos e masculinos.
* Jornalista
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Alberto Sena
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23/2/2010 09:55:26
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O poeta e o pequizeiro
Alberto Sena*
Movido pela lembrança de Manoel Hygino sobre os cem anos de Cândido Canela, conterrâneo de Montes Claros, e aproveitando que estamos em final da safra de pequi, homenageio o nosso maior poeta e, ao mesmo tempo, enalteço nele, grande defensor do pequizeiro, as propriedades deste maravilhoso fruto do cerrado. Em cem gramas da polpa do pequi, segundo o não menos centenário médico montesclarense, Hermes de Paula, há cerca de 200 mil Unidades Internacionais de vitamina “A”, que, a rigor, é a responsável por colocar o nosso esqueleto em pé. Se vivo fosse o nosso poeta, que conhecia muito de perto o linguajar do sertanejo norte-mineiro, estaria orgulhoso de ver na grande imprensa manchetes como a que publicou o Hoje em Dia de domingo, 21 de fevereiro: “Pequi do Norte de Minas já é exportado”. Cândido Canela, assim como outras personalidades de Montes Claros – Luiz de Paula, Darcy Ribeiro, João de Paula, Reivaldo Canela, Vicente Souto, Teo Azevedo, Beto Guedes, só para citar alguns – foi grande defensor do pequi e muito lutou para conseguir uma lei que proibisse o abate de pequizeiro no território nacional. Na época, o nosso poeta brigava com as armas que dispunha pelo pequizeiro e pelo consumo do pequi, em virtude das suas qualidades alimentícias – o pequi é, em realidade, rico complexo vitamínico – e o seu grito ia além dos contornos dos montes claros por meio de esporádicas matérias publicadas até mesmo no jornal O Globo. Mas ficava nisso. É que o pequi não tinha “poder econômico”. Mas fazia parte da dieta do sertanejo. O pobre se alimentava mal durante os meses que antecediam a safra de pequi, e tirava a barriga da miséria durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, quando, em companhia da família, rumavam para o mato a fim de catar pequi. Eu disse “catar pequi”, porque pequi quando está pronto para o consumo, cai. No pé, o fruto ainda está verde. Foi aos poucos, a partir da década de 1970, que o pequi começou a alcançar o mercado belo-horizontino, quando iniciamos séries anuais de reportagens publicadas no jornal Estado de Minas. Todo ano, até meados da década de 1990, os leitores saboreavam o gosto de pequi em reportagens impressas. Mas foi antes, na década de 1980, que, movido pelas reportagens, a Superintendência do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) editou uma portaria proibindo o abate de pequizeiro no território nacional (hoje já não é portaria, mas lei), fazendo questão de telefonar de Brasília para dizer: “estamos assinando uma portaria proibindo a derrubada de pequizeiros em todo o País, tendo em vista as suas reportagens”. Naquela época, alguns companheiros de redação costumavam gracejar, dizendo: “para quê falar de pequi se não tem valor econômico expressivo?” Não tinha. Aos poucos adquiriu, mesmo porque os feirantes do Mercado Central, ao lerem as reportagens, passaram a encomendar pequi. E foi então que o delicioso fruto (quem não gosta detesta até o cheiro, mas quem gosta não fica sem roer dúzias toda safra) começou a ganhar até as ruas de Belo Horizonte, vendido pelos camelôs. Tanto tempo depois, hoje o pequi já está sendo exportado para Estados Unidos, Itália e Portugal. Virou até tema de prato do chef Claude Troisgros, que enalteceu as qualidades do pequi e ainda nos deu, a nós brasileiros, uma cutucada: “vocês exploram pouco as delícias do cerrado”, em seu português com sotaque francês. Aos defensores do pequizeiro vivos, digo: vamos vencendo a batalha. Claro, se o pequizeiro fosse originário não do cerrado, mas das terras norte-americanas, hoje o pequi seria uma espécie de Coca Cola vendido no mundo inteiro. Aos defensores do pequizeiro já falecidos, os precursores como Cândido Canela, Hermes de Paula, Darcy Ribeiro e os demais, as nossas homenagens de “roedores profissionais”, com o perdão da inevitável, mas educadamente contida, eructação.
Jornalista/ albertobatista@superig.com.br
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