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           Enoque Alves    enoquerodrigues2010@hotmail.com.br

61068
Por Enoque Alves - 5/9/2010 14:28:59
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ III - DEMÓSTENES VENTURA

Enoque Alves Rodrigues

Ao contrário de seu sobrenome, Demóstenes Ventura andava mergulhado numa tremenda onda de azar. Ele residia ali na Praça Joaninha Pena, Centro de Francisco Sá, nosso querido Brejo das Almas. Trabalhava lá pelos lados do Catuni, onde era vaqueiro além de colaborar com as plantações de milho e alho. Sua esposa se chamava Ana, filha do velho Valdomiro Papudo, um dos contadores de causos da Francisco Sá de antanho. Tinham seis filhos, todos menores de dez anos o que indica ter o casal começado cedo sua longa prole.
Sem maiores delongas, há que se ressaltar que a sorte realmente não lhe era companheira. Jamais antes houvera lhe dado sequer um amarelo sorriso. Fugia dele enquanto ele a perseguia implacavelmente.
Se plantasse, por mais que fosse a terra fértil, não colhia. Se jogasse na loteria, ainda que comprasse todas as combinações, não ganhava. Era o azar em forma de gente.
Não, aquilo não poderia continuar assim. Ele teria que dar um jeito naquela sua vidinha monótona, sem graça e sem sorte! Continuaria lutando no sentido de reverter essas mandingas.
Naqueles tempos, a única loteria que existia por aquelas bandas do norte das alterosas, era somente a centenária Loteria Federal do Brasil, que era vendida por cambistas no lombo de cavalos, após percorrerem várias léguas sertão á dentro ou, principalmente, dentro dos velhos trens da antiga EFCB ou RFFSA que seguiam de Montes Claros a Monte Azul, uma das ultimas paradas para se entrar na Bahia. Havia um cambista que era muito conhecido no Brejo, de nome Gasparino, que me parece era ele o responsável por “semear a sorte grande” nas regiçoes do Brejo, Grão-Mogol, Salinas, Taiobeiras, São Geraldo, etc.
Foi ai que Ana, esposa de Demóstenes teve uma idéia:
-“Demoste” - assim ela o chamava, não conseguia finalizar a pronuncia correta-, “apusquê ocê num vende a porquinha e compra tudo de biete de loteria? Amanhã é o dia do Gasparino vim. Ieu sonhei desde antonte que desta veiz vai dá porco na cabeça e o numero é o 36471.Vende a porca, home, e compra tudo de biete...Vai sê batata. Pode acreditá!”
-“Vai tomá banho na soda, muié!!! Adonde já se viu fazê uma bestera dessas? Se eu trabaiando como um doido não consegui ate agora arguma coisa, pusquê seria que eu mudaria nossa vidinha com jogo. Ainda mais arriscano tanto dinheiro?”
-“Tô te falano, home, vende a porca e faiz o jogo com o Gasparino. Ocê vai vê. Vai sê batata. Num tem como num ganhá. Meu sonho num fáia. Vende e joga logo, peste!”
Não teve jeito. A grande convicção de Ana acabou por balançar, sobremaneira, as estruturas emocionais de Demóstenes. Outra opção não lhe restou senão a de fazer o que Ana insistentemente lhe recomendava.
-“Vô vendê essa mardita porca e vô fazê o que essa megera manda!”
Só que ai surgiu um grande problema: enquanto ele não decidia, a porquinha que não era besta nem nada, torceu o rabo e deu no pé. Queimou o chão, ou melhor, escafedeu-se rumo a Salinas. No dia seguinte, Gasparino, o Cambista, passou como de costume no casebre de Demóstenes e, ironia do destino, pôs-lhe às mãos exatamente o bilhete tal qual Ana havia descrito. Pobre Demóstenes, por mais que insistisse, Gasparino não lhe vendeu fiado. Recorreu a vizinhos, mas nada conseguiu. No desespero, contou o sonho de Ana para Gasparino que num sorriso sarcástico disse-lhe: agora não vendo este bilhete nem pelo dinheiro de 100 porcas. Ele é meu!
No dia seguinte, pelo Rádio, veio o resultado: Atenção Senhoras e Senhores. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro informa o resultado da Loteria Federal do Brasil: primeiro prêmio 36471. Segundo informação da Caixa Econômica Federal este bilhete foi vendido no norte das Minas Gerais, ou precisamente na Cidade de Francisco Sá. Boa sorte ao feliz ganhador e que faça bom proveito dessa grande fortuna!
É...
Por vezes, a sorte é como um cavalo arriado: se você não se jogar na hora exata, bate com os fundilhos no chão. Nem sempre há tempo para se pensar.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


60876
Por Enoque Alves - 28/8/2010 14:41:41
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ - MONOTONIA BREJEIRA

Enoque Alves Rodrigues

Tardes tristes e modorrentas eram aquelas tardes da Francisco Sá do inicio dos anos 1970. Se durante os dias úteis da semana o brejeiro, envolvido com a luta pela sobrevivência nem sentia o tempo passar, tomado que era pela árdua lide diária. Aos domingos, único dia reservado para seu descanso, não tinha quase nada de novo a fazer. A Cidadezinha, pródiga em pontos turísticos lindos e atrativos aos forasteiros, não oferecia mais nenhuma sensação a gente do lugar. Os fatos e acontecimentos por ali simplesmente “não aconteciam”. Muitos anos-luz, outrora, distanciavam Brejo das Almas do burburinho dos grandes centros urbanos. Para se sintonizar com as novidades, tinha que sair do Brejo. As noticias lá chegavam a passos de tartaruga e o brejeiro, coitado, vivia ansioso pela falta de informação de outras plagas.
Tardes domingueiras, então? Meu Deus, quanta tristeza. Que tédio!
Os homens não tinham opção. Ou ficavam em casa cuidando dos passarinhos, olhando para o teto ou brigando com as crianças e com patroa, ou embrenhavam-se, de corpo e alma, nos incontáveis botecos de então, aonde afogavam literalmente, suas mágoas, desilusões amorosas, solidão e falta de perspectivas, na pior pinga brejeira de graduação alcoólica beirando aos 100º. Por ser ruim, assim como toda cachaça, era a mais barata ou era a pinga que o parco orçamento permitia degustar, ou melhor, engolir. Ao entrar o primeiro gole goela abaixo, o pouco juízo que tinham simplesmente saia pelas orelhas. E o brejeiro, enquanto suas pernas conseguiam mantê-lo de pé, soltava a língua. Não. Naqueles tempos não era comum se falar da vida alheia. O brejeiro, depois de alguns goles, esquecia-se de tudo e de todos. Sequer imaginava sua vidinha monótona, Severina e extremamente miserável. Ele ficava eufórico. Ficava rico. Contava vantagens. Tudo dentro de uma ingenuidade que beirava a legião dos anjos. Havia sim, alguns fanfarrões e muitos arruaceiros. Mas esses eram poucos e não duravam muito. Ao notarem o quão pacatos eram os “points” e sua gente, sumiam-se em direção a outras freguesias. E quando não tinham mais dinheiro para beber, penduravam a conta para um dia, quem sabe, quando Deus quiser, pagar. Quando já estavam embriagados procuravam, finalmente, o caminho de casa. No entanto, poucos a alcançavam. A casa, não obstante se localizar a poucos metros do bar, ou havia se deslocado do lugar aonde por séculos haviam estado ou simplesmente desaparecia como por encanto. É não era fácil.
Para aqueles que não se entregavam aos deleites da pinga, restava apenas “pescarem” alguma casa que tinha televisão, na época, só havia o preto e branco, e se oferecer para juntar-se aos familiares do dono da casa para assistir “Silvio Santos, vem ai. Há...Hai...Hu...Hui!!!
Como, é claro, poucas casas possuíam televisor. Não havia televisão para todos, e o brejeiro ficava, então, às espreitas de um homenzinho, moreno, baixo, meio gordo, com dois dentes de ouro na boca, que a qualquer momento, como num passe de mágica, poderia brotar de qualquer lugar, vindo de todos os rumos. Era “Zezim Tocador”, puxando seu velho fole, entoando musicas antigas e tristes acompanhadas sempre pelos latidos de seu cão vaza-mundo. Eram musicas como “tristeza do jeca”, “saudade de matão” e outras quinquilharias poéticas de nosso sentimento caboclo.
Todos juntavam-se a sua comitiva e só se recolhiam as suas casas depois de haverem percorrido todas as ruas do velho Francisco Sá, Brejo das Almas dos meus encantos. Éramos felizes e não sabíamos.
É...
Por vezes, não necessitamos de muito para sermos felizes...
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Colunista, Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


60741
Por Enoque Alves - 22/8/2010 11:14:49
ASSIM ERA FRANCISCO SÁ – PEDRO CIPÓ

Enoque Alves Rodrigues

Ele era o mais temido valentão de Francisco Sá, outrora Brejo das Almas. Por onde passava semeava medo, pavor e suplicio a pacata gente brejeira. Os homens ao vê-lo a distancia, fugiam. Não respeitava sequer mulheres e crianças. Bares e demais localidades onde os brejeiros de então se reuniam esvaziavam-se com sua presença. Um simples olhar não correspondido era suficiente para que ele partisse para cima das pessoas sem dó e piedade. Muitos bravos daquela época tremiam nas bases só de ouvir o seu nome.
Pedro Cipó, assim era chamado. Pistoleiro de dedo mole que não pensava duas vezes para puxar o gatilho. Matara muitos sem qualquer motivo, se é que existe no mundo qualquer motivo que justifique que um tire a vida do outro, prerrogativa única e exclusiva do Criador do homem e de todas as coisas. Para disfarçar sua real profissão de pistoleiro, ou seja, individuo que matava por encomenda, mantinha, como fachada, uma pequena venda de frutas e cereais nas cercanias do velho cemitério de Francisco Sá, ou precisamente na Rua das Aroeiras.
Numa das muitas pendengas que arranjava com facilidade acabou por matar um rapazola, ainda imberbe, fazendeiro dos baixios da Serra do Catuni.
Certo dia, desentendera-se com o moço Donato Pinto de Magalhães, rapaz de ótima conduta. Segundo diziam, o Pedro Cipó julgou-se desfeiteado com as respostas que o Donato lhe dera, e prometia mata-lo. Corria o boato de que o pistoleiro tinha o “corpo fechado”, isto é, as armas não davam fogo contra ele e, quando isto acontecesse, as balas não lhe penetravam à pele, perito que era ele na arte da mandinga.
E se encontraram na Rua das Aroeiras, perto da casa de Pedro Cipó, que ameaçava o Donato, dizendo-lhe mais ou menos isto:
- Segura, menino, que vou lhe dar uma lição.
Mas o Donato, moleque, não quis ser mais um alvo da pontaria certeira do Negro Pedro Cipó, e sabia que, se não o eliminasse antes não se defenderia de sua traição.
Por segurança, quando Pedro Cipó marchava em sua direção, Donato, testando os poderes sobrenaturais do Negro, dá um tiro para o ar. E, tcham... tcham... tcham... Para sua surpresa. Eureka! A arma disparou. Incontinenti, sem perder um segundo sequer, dá no gatilho. E era uma vez um pistoleiro de nome Pedro Cipó...
Galgando a sua montaria que estava perto, Donato se evade do local.
No Grupo Escolar onde naquele momento o Professor Neco ministrava suas aulas, ouviram-se os tiros e a gritaria. Donato matou Pedro Cipó... Donato matou Pedro Cipó...
Todos os alunos puseram-se em debandada. Incrédulos e curiosos, queriam certificar-se de que a noticia era verdadeira. Ao professor Neco, que por ser surdo, nada ouvira daquela “revoada de petiz”, restou-lhe apenas continuar defronte ao quadro negro com seu giz a mão, a escrever a lição do dia. Ao tornar-se de frente para a “turma” para tomar-lhe a lição, apenas e tão somente vento havia. Nenhum sinal de seus pupilos. Foi muito difícil ao velho professor, entender, horas depois, o que ocorrera. Principalmente por saber que Donato, menino franzino e inofensivo, de feições franciscanas, jamais antes matara uma barata sequer.
É...
Por vezes, é exatamente de onde não se espera é que se sai. Todos são grandes e valentes o suficiente quando estão em perigo.
Enoque Alves Rodrigues, que atua na área de Engenharia, é Historiador e divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, Minas Gerais, Brasil.


60599
Por Enoque Alves - 14/8/2010 20:35:10
CENAS BREJEIRAS VIII - ANTÃO DAS MANDIOCAS

Enoque Alves Rodrigues

Infante ainda divertia-me sempre que via adentrar o velho Brejo das Almas, ou Francisco Sá, em sua carroça de madeira puxada por uma jumentinha de tez preta beirando a senilidade, Antão das Mandiocas, como era chamado. Vivia ele lá pelas bandas do Catuni, ou para localizar melhor, atrás da serra de mesmo nome que tem, em seu cume, mil metros de altitude.
Sua carroça vinha carregada de milho, mandioca, batata e alho. Seguia em direção ao velho mercado onde em um Box qualquer ele os negociava. Uai, eu disse negociava? Sim, exatamente! É este o termo exato, porque nem sempre ele conseguia caracterizar a venda de seus produtos, trocando-os por dinheiro. Nesse caso, é como já escrevi anteriormente, ele assim como todos os seus iguais praticavam o escambo. Trocava suas iguarias por outras diferentes e assim ia levando a vida, como diria Milionário e José Rico.
Intrigava-me, no entanto, a cordialidade do tratamento que ele dispensava a sua necessária e mais que indispensável animália. Beirava, sem qualquer hipérbole, ao mais carinhoso trato dedicado as moçoilas. Lamentavelmente naqueles longínquos tempos, nos confins de nossa querida pátria amada, salve, salve, não era comum se ver os animais serem bem tratados. Ao contrário, eram muito mal tratados, diga-se de passagem. Vítimas indefesas de covardes contumazes aonde a lei da espora, chicote e ferrão imperava. Antão, não. Ele era diferente. E era isso que me chamava a atenção. A sua jumenta chegava a brilhar, de tão limpa que era. Estava sempre cheirosa e perfumada. Tomava banho todos os dias. Defronte ao velho mercado do Brejo, Antão, antes de desatrelar a carroça de “pretinha” que ele deixava sempre solta a pastar colonião, tirava de um dos bolsos de seu velho jaleco de couro, um pente “flamengo” e punha se pentear-lhes a crina e a falar-lhe aos ouvidos. Não contendo naturais curiosidades pueris, aproximei-me, certa feita, de ambos. Queria ouvir o “diálogo”, ou melhor, o “monólogo” já que “pretinha” não falava, só ouvia. Doces e sábias palavras eram proferidas por aquele simples matuto brejeiro. Eram palavras de gratidão que ele dirigia a “pretinha” pela dedicação diária de toda uma vida com a qual ela o brindava. Agradecia a divina providência por um dia tê-la deixado ainda que enferma, em frente ao seu casebre. Esquecia, no entanto, que se ela ali agora estava, foi exatamente porque ele primeiramente se dedicou a ela, salvando-lhe a vida. Após realizar todo o seu ritual de agradecimentos, Antão das Mandiocas, antes de se retirar para seu trabalho no Box do mercado municipal do Brejo, pedia, humildemente:
-Torça por mim, “pretinha”, para que hoje eu consiga vender alguma coisa para melhorar o nosso sustento. Eu sei que você entende tudo! Você não é uma “cabeça de jumento, não”. Você é uma “cabeça de gente”.
-Uai, eu falei, cabeça de gente?
-Gente!!!
-Cruz, credo! Desculpa ai, “pretinha” se lhe ofendi. Quem neste mundo, além de você me dedicaria tanta amizade, colaboração, respeito, tolerância, humildade e fidelidade?
-Ninguém!
-É...
-Por vezes, a maioria das virtudes não é encontrada nos corações e cabeças humanas onde deveriam sempre estar; mas em lugares tidos equivocadamente, como imprevisíveis e inóspitos: Nos corações e cabeças dos muares.
-“Poor man, poor woman”!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


60497
Por Enoque Alves - 8/8/2010 11:31:58
CENAS BREJEIRAS VII – TONINHO RUAS, O BOM ALUNO

Enoque Alves Rodrigues

Donato dos Santos Silva, não obstante nominar importante instituição de ensino de Francisco Sá, Brejo das Almas, foi, no entanto, homem de pouca ou quase nenhuma cultura. Mesmo assim, é longa a sua ficha de bons serviços prestados ao Município de Francisco Sá.
Militou na política municipal como Vereador, onde exerceu por diversas vezes a presidência da Câmara Municipal. Era ele fazendeiro em cuja fazenda além do cultivo de alhos, algodões e cana de açúcar, dedicava-se também a criação de gado de corte.
Depois do Grupo Escolar Eliseu Laborne, a primeira e mais tradicional instituição de ensino construída em Francisco Sá, ainda na administração do Governador Valadares, o Grupo Escolar Donato dos Santos Silva, foi a segunda instituição de ensino mais importante a ser erguida em Francisco Sá, nos tempos do Governador José de Magalhães Pinto.
Ali estudava com o Professor Neco, o aluno Antonio Marcondes Azevedo Ruas, ou, Toninho Ruas, para os amigos.
Aluno aplicado. Notas excelentes. Havia em pouco tempo decorado a tabuada. Tinha, no entanto, dificuldades em assimilar as letras gramaticais, não obstante sua dedicação. Por mais que Neco insistisse, o aluno Toninho Ruas, não evoluía. Foi ai que surgiu na brilhante e criativa mente do Professor Neco, a idéia de “forçar” seu pupilo, meio que “na decoreba”, a aprender mais celeremente o Português.
-Vamos, então, disse-lhe o professor Neco, iniciar, querido Toninho, com o Hino a Francisco Sá. Quem sabe assim, você decorando o hino, a gente possa avançar melhor!
- Pois não, professor, pode começar que eu acompanho...
- “Do catuni ao rio verde,
Do prata, ao rio do prego;
És sempre rico e formoso,
Só não vendo quem é cego.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Teu solo vasto e fecundo
Produz tudo que se planta;
Ostenta lindas pastagens,
Não há outro que o suplanta.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Os teus filhos prediletos
Trabalham por teu progresso;
Querem te ver entre os grandes,
E entre os grandes ter acesso.
Estribilho:
Brejo das almas
Ou Francisco Sá,
Igual a ti,
Outro não há.
- Terra do Sargento Mor
Antigo Brejo das Almas;
Tens o nome do teu filho,
Que colheu da glória, as palmas.”
Dada a velocidade com que o professor recitava cada estrofe do belíssimo hino de nosso querido Brejo das Almas, e também por ser surdo, foi-lhe impossível constatar que apesar da imensa boa vontade do aluno Toninho Ruas, este não conseguira acompanha-lo. Sequer havia passado da primeira estrofe enquanto o professor de há muito o havia finalizado.
É...
-Por vezes, boa vontade só não basta. É preciso apertar o pé para conseguir “chegar junto”!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


60415
Por Enoque Alves - 1/8/2010 18:12:32
O Esforço dos Malas com alça para superar os malas sem alça do mundo corporativo

Enoque Alves Rodrigues

Transcrevo aqui importante matéria publicada recentemente pela Revista Veja, na seção “carreira”, a qual se refere ao dia a dia de todos nós, bons e bem intencionados trabalhadores, verdadeiros malas com alça que entre outras atribuições peculiares a nossa lide, ainda temos que carregar nas costas as pesadonas malas sem alça. Leiam com bastante atenção e no final me digam com sinceridade, quem dentro de qualquer corporação, quer na área burocrática ou chão de fábrica, não passou pelos terríveis suplícios que são o convívio com os “malas sem alça”. Diz o texto de veja:
-Em meados nos anos 90 o economista Jeremy Rifkin decretou o fim do emprego formal. De acordo com ele, a revolução tecnológica levaria a uma redução gigantesca do quadro de funcionários nas grandes empresas da área industrial e financeira, e o setor de serviços não conseguiria absorver os milhões e milhões de postos de trabalho fechados. Restava aos profissionais do mundo fabril e corporativo, inclusive os altamente qualificados, enfrentar mês a mês de sísifo dos freelancers. Quinze anos depois de Rifkin lançar seu epitáfio, o pior não veio, apesar de todos os solavancos: o emprego estável, com garantias previstas pelas legislações trabalhistas, em formas reconhecidas, não acabou – muito menos em países emergentes, como é o caso do Brasil. Se nas nações desenvolvidas a paisagem não pode ser considerada rósea, embora esteja longe de exibir as tintas do apocalipse, por aqui vem ocorrendo uma forte expansão de alto a baixo da pirâmide hierárquica. Pegue-se o exemplo dos degraus superiores: o numero de funcionários com nível universitário nas grandes empresas, boa parte deles com função decisória, saltou de 436000 em 1998 para mais de 1 milhão em 2008. E o mercado corporativo permanece aquecido.
Enfim, tornar-se mala com alça – ou seja, ocupar um cargo gerencial ou executivo – continua a ser uma meta almejada e realizada por muitos. As estatísticas, porem, passam longe das dificuldades oferecidas pelos malas sem alça - aquele pessoal que dedica toda a sua energia à criação de problemas para os que querem apenas e tão somente trabalhar. Essa fauna abrange desde os colegas fofoqueiros e oportunistas até os burocratas dos departamentos encarregados de zelar pelo bom andamento das operações, mas que se entusiasmam por criar formulários e inventar reuniões tão longas quanto desfocadas. O resultado é um ambiente carregado não só de situações embaraçosas, como de um sem-número de tarefas inúteis. Não há duvidas de que as relações profissionais, de uma década para cá normatizadas pelo ideário politicamente correto, estão mais cordiais nas aparências (o que não é pouca coisa, diga-se). Mas o panorama visto das baias e salas de divisórias que não alcançam o teto poderia ser bem melhor. Uma pesquisa recente feita pelo grupo CATHO, especializado em recursos humanos, mostro que 20% das demissões estão associadas a problemas com colegas e chefes e excesso de pressão. “Um bom ambiente profissional é tão importante quanto gostar do que se faz”, diz a consultora Lia Fonseca, do Portal You & Your Career.
Com base em um levantamento feito junto às principais empresas de recursos humanos no pais, VEJA selecionou os dez problemas mais comuns que se enfrentam hoje nas companhias:
1) Horários pouco flexíveis e excesso de pressão. 2) Treinamentos e entrevistas esdrúxulos. 3) Importância excessiva a diplomas. 4) A valorização de profissionais que vem de fora em detrimento daqueles que já estão há anos na companhia, com bons serviços prestados. 5) Roubo de crédito pelo trabalho. 6) Chefes arrogantes e prepotentes que não sabem delegar e cobra tarefas. 7) Processo de fritura (quando os chefes forçam a demissão do funcionário submetendo-o a humilhações). 8) Medo de pedir aumento. 9) Falta de clareza do funcionário e da empresa na hora de negociar propostas. 10) Dificuldade em lidar com a hierarquia.
- O QUE OS FUNCIONÁRIOS QUEREM DE UMA EMPRESA
Hoje:
1 – Bom ambiente. 2 – Desenvolvimento profissional. 3 – Qualidade de vida. 4 – Possibilidade de rápido crescimento e 5 – Empresa com boa imagem e credibilidade no mercado.
Há cinco anos:
1 – Empresa com boa imagem e credibilidade no mercado. 2 – Bons salários e benefícios. 3 – Desafios. 4 – Valorização profissional e 5 – Carreira internacional.
OS DEZ PECADOS CORPORATIVOS (coisas que quase todo mundo faz, e continuará a fazer, mas não deveria)
1 – PASSAR POR CIMA DO CHEFE: Realizar uma tarefa para o diretor da empresa sem avisar o próprio chefe revela desobediência à hierarquia e falta de profissionalismo.
2 – RELACIONAR EDUCAÇÃO E SIMPATIA COM PODER: Dispensar tratamento diferenciado a cada funcionário da empresa, aumentando a gentileza e a simpatia proporcionalmente ao poder do outro, é sinal evidente de interesse.
3 – INTIMIDADE NO ESCRITÓRIO: Apelidos e brincadeiras pessoais são incompatíveis com o ambiente de trabalho, seja entre colegas, seja na relação chefe-subordinado.
4 – MANIA DE TOCAR NOS OUTROS: É muito inconveniente qualquer tipo de contato físico, até mesmo segurar o braço do interlocutor. A informalidade pode atingir níveis extremos, como massagem nos ombros e carinhos na barriga de gestantes.
5 – SER O FUNCIONÁRIO LIVRO-ABERTO: Deve-se resistir a tentação de contar a mais recente discussão familiar ou amorosa. É uma superposição descabida entre vida pessoal e trabalho.
6 – BRINCAR COM PEDIDOS DE PROMOÇÃO: Comentários como “viu meu relatório, chefe? Não acha que eu mereço um aumento?” só causan constrangimentos e dificilmente resultam em propostas objetivas.
7 – TORNAR PUBLICA A INSATISFAÇÃO: Registrar queixas em e-malls, programas de conversa instantânea, twitter, Orkut, facebook é inaceitável. Além de tornar publica a reclamação, o funcionário produz provas contra si mesmo.
8 – EXCESSO DE FEMINILIDADE: Usar a beleza ou charme feminino para conquistar favores ou benefícios na empresa é antiético.
9 – DEMONSTRAÇÕES DE CARINHOS ENTRE CASAIS: Qualquer demonstração de afeto é inadmissível num ambiente profissional. Pior ainda é fazer comentários sobre assuntos da intimidade do companheiro.
10 – CHORAR NO TRABALHO: Chorar no banheiro é tão ruim quanto fazê-lo em publico. Evidentemente, todos vão perceber a demonstração de descontrole. É melhor sair, dar uma volta e não envolver outros funcionários em seu problema.
E ai, o que me diz? Fez sua analise?
- O que? Você nunca teve problema com os malas sem alça na empresa? Também nunca burlou, ainda que inconscientemente, nenhum dos dez pecados corporativos?
- Que bom, companheiro, que você é e sempre foi autônomo. Que nunca trabalhou como empregado para ninguém. Parabéns!
- Mas se você ainda trabalha ou já trabalhou alguma vez como empregado e diz jamais ter passado por isso, desculpe: você está faltando com a verdade. Os malas sem alça são onipresentes e estão em toda e qualquer empresa. Quer como “entregadores”, “puxa sacos”, “sanguessugas”, “agitadores”, “formadores de opiniões negativas”, “fuxiquentos” e muitas outras “virtudes”. Eles são parte integrante de um processo continuo de obsolescência na empresa, dos quais ninguém se consegue desvencilhar.
-Por vezes, é preferível defrontar-se com o Diabo que ter um “mala sem alça” a sua frente.

Enoque Alves Rodrigues.


60400
Por Enoque Alves - 30/7/2010 17:54:55
Cenas Brejeiras VI - As secas do Brejo - Enoque Alves Rodrigues

1970...1971...1972. Anos difíceis, aqueles. A longa estiagem grassava o norte das Minas Gerais. Ouvia-se ao longe apenas e tão somente o estalar de mamonas e a cantiga triste da cigarra brejeira, lá nos confins do tórrido e esturricado serrado.
O brejeiro, coitado, já não sabia mais a quem recorrer. Novenas e mais novenas, dirigidas aos deuses da chuva, saiam de quase todas as casas, cruzavam as ruas do Brejo das Almas, em direção a velha Matriz, onde eram recepcionadas pelo Padre Silvestre.
Em Francisco Sá, Brejo das Almas, fenômenos sobrenaturais processavam-se, incompreensivelmente. Cidadezinha banhada por vários rios, inclusive em sua maioria, com nascentes dentro do município, e pelos inúmeros brejos que inclusive dão-lhe o nome de batismo, agora o que se via era somente seca. Lagoas lindas e atrativas que faziam a alegria da gente brejeira, e de forasteiros que acorriam ao Brejo para banharem-se em suas águas, como a “da barra”, “das pedras”, “do tabual” e rios como “caititu”, carrapato”, “verde”, “são domingos”, “gorutuba”, “dois riachos”, estavam secando. Definitivamente os deuses da chuva não estavam nem ai para a gente do norte de Minas naquele triênio.
Enquanto isso, no povoado de “Lagoa Seca”, na Fazenda de Darcy Bessoni, o meeiro Manoel Rodrigues, ou Mané da Quitéria, pelejava contra uma dúvida cruel que assim como a seca, calcinava-lhe os cérebros.
Previdente, havia retirado da ultima colheita, doze cumbucas grandes de sementes de arroz, feijão e milho para semear na atual safra. Mas a chuva não vinha e a barriga roncava. Os quatro bacuris e Quitéria, pressionavam-no:
- Mané, você não está vendo que neste ano não vai chover por aqui? Estamos em agosto, homem. Veja o céu como está. É melhor a gente comer logo estes grãos e matarmos a nossa fome do que você enterrar no chão e não vingar ou deixar guardado para caruncho consumir tudo!
- Mané, coitado, olhava para cima e não via nenhum sinal de chuva e lamentava: Céus, quando é que vamos ter pelo menos um pouco de chuva para acabar com essa agonia?
- Não teve jeito. Entre a pressão de Quitéria e o ronco famélico da barriga dos bacuris, a falta de perspectivas de chuvas e a ameaça dos carunchos, ele, por certo, optou por comer os grãos. Decisão inteligente, certo?
- Errado!!!
- Ainda saboreavam a ultima refeição com os grãos quando o tempo virou. Densas nuvens, carregadas de água que há muito não visitavam aquelas plagas, agora, pesadas, pareciam arrastarem-se ao chão. Dali a instantes o toró despencou-se. Água por todos os cantos. Jamais, antes chovera tanto naquela região. As Lagoas Secas que dão nome ao lugar transbordavam-se.
- Assentado próximo a soleira, encontramos agora o nosso Mané com o queixo entre as mãos em forma de conchas, triste e acabrunhado, a observar a chuvarada que caia lá fora. Em seu recôndito, com toda certeza amaldiçoava os deuses da chuva. Ainda meditava sobre a sua falta de sorte, pensando, por certo no que faria dali por diante, quando, eis que um locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, sacudindo um guizo, anuncia a plenos pulmões, em seu velho rádio ABC que mais parecia a um caixote de abelhas:
- “Alô...Alô, meus queridos lavradores do norte das Minas Gerais. Se vocês ainda não plantaram, vamos plantar! Levantem da cama... Mexam-se...A meteorologia informa que as chuvas que estavam atrasadas nesta região, vão voltar com tudo! Daqui até dezembro, é só chuva e sol. Você, produtor, terá todos as razões para sorrir de orelha a orelha. Vai ser a melhor safra que você poderia colher, talvez em toda a sua vida! Colheita melhor que esta você não terá nunca mais!”. Para incrementar sua fala, o tal locutor finalizava com a música “Meu Irmão da Roça”, gravada em 1972, por Leo Canhoto & Robertinho: “Nazareno do olhar meigo e puro; amparai nosso querido lavrador. Dái a ele muita força para a luta; dái a ele esperança, paz e amor”.
Não foi possível ao nosso querido Mané segurar a barra! Tomado por fúria repentina, frustrações e desilusões, sentia-se ali, diante do rádio, o personagem principal daquelas que para ele seriam gozações e ironias do locutor. Chegaram tarde demais os berros de Quitéria para que ele não espatifasse o pobre rádio na parede, depois de proferir esta frase:
- “Seu locutorzinho de uma figa... Vai tirar sarro da sua mãe, seu FDP”.
É...
Por vezes, dizia Sêneca, não existe vento favorável para quem não sabe aonde quer chegar.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 28/7/2010 14:42:01
Cenas Brejeiras V – Policarpo Taioba, o vaqueiro - Enoque Alves Rodrigues
Policarpo Taioba era um vaqueiro que vivia em Francisco Sá, no Brejo das Almas de antanho.
Chapéu de couro com jugular, botas, gibão e um inseparável chicote fundiam-se à sua própria personalidade. Em todos e quaisquer lugares por onde o encontrasse, lá estavam esses apetrechos colados ao seu corpo como se com ele tivessem nascido. Parecia algo congênito.
Nascera, na verdade, em Taiobeiras, mas, ainda criança transferiu-se com toda sua numerosa família para Francisco Sá, Brejo das Almas. Viviam em um pequeno casebre bem no inicio da antiga Rua Padre Augusto. Dona Dezinha, sua mãe, uma senhorinha já beirando os 70 anos era uma biscoiteira de primeira linha. As suas fornadas eram vendidas por dois de seus filhos menores, o Edgar e o Gino, no Mercado Municipal.
Durante toda a semana, Policarpo passava embrenhado nas fazendas de meu padrinho Rosalino, próximo a Lagoa Seca, na lide da ordenha da vaquejada e no pastoreio da bizerrada nos pastos verdejantes. Aos Sábados, retornava ao Brejo quando eu também saia de Terra Branca, fazenda de meu avô, para fazermos as nossas ingênuas, infantis e despretensiosas farras que consistiam em tomar umas “crushes”, refrigerante da época, nos bares do Brejo e depois, já com outros rapazolas, irmos nadar nos dois riachos. Bons tempos, aqueles...
Aos domingos, a diversão era muito rara. Não podíamos repetir a rotina do sábado. Como naquela época poucas eram as famílias que possuíam aparelhos de televisão em casa, toda a petizada ia para o lugar onde eu ficava hospedado, ou seja, para a Pensão da Dona Quino, que ficava na rua, hoje alameda principal, onde quase todos as linhas de ônibus faziam seu ponto final. Lá, naquele velho casarão esverdeado, diante de um não menos velho televisor branco e preto, cuja tela era fixada em uma caixa de madeira, curtíamos os programas de então.
Víamos e não conseguíamos entender como o jovem Silvio Santos tinha tanto dinheiro para que, postado diante de uma interminável fila de vemaguetes, cordinis, rurais e outros carrões da época, realizar a distribuição gratuita a tantos de seus agraciados com essas verdadeiras fortunas capazes de uma só delas, fazer a felicidade de qualquer simples mortal. Belos tempos... Lindos dias, dizia a música do Rei Roberto, fazendo jus aquela ocasião.
No mesmo Canal o Velho Guerreiro fazia vasta distribuição de bacalhau, abacaxis e bananas. Por alguns instantes dava-nos a impressão de estarmos em uma feira livre.
Sentado em um diminuto banquinho de madeira o nosso vaqueiro Policarpo, em sua já mencionada e inseparável roupagem de couro, observada tudo como se estivesse anestesiado.
- Uai, Policarpo, não está gostando da programação de hoje?
- Não é isso não, Noquinho! Faço muito gosto dessa programação, moço! O que eu num consigo entender é a bondade do Sirvo Santo. Como ele tem um coração tão grande assim, moço!
- Coração tão grande? Uai, Policarpo, mas do que é que você está falando, moço?
- Uai, Noquinho, você ainda não entendeu? Por acaso você já viu argúem puraí dando quarqué carro de presente pra outro? Isso não existe em nenhum outro lugá! Só mesmo ai na televisão, c’um Sirvo. Ele é muitcho bacana. Carqué dia desses vô lá em Su Paulo pra pidi um pra ele!
- É...
- Dissestes bem, Policarpo. Somente na televisão se pode ver tanta bondade...
Na prática, por vezes, a teoria é outra.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 17/7/2010 20:10:33
CENAS BREJEIRAS – IV – A CAMINHO DO BREJO

Enoque Alves Rodrigues

Ano de 1971. Acabava de descer na velha estação ferroviária de Montes Claros. Estava retornando de Belo Horizonte onde havia estado em busca de dias melhores, antes de definir os rumos que daria a minha vida Severina de jovem pobre, parca cultura e nível escolar beirando a zero. Anos difíceis e literalmente de chumbo, aqueles... sem quaisquer perspectivas de melhoras a curto prazo.
Saindo da estação do trem, cansado da enfadonha e interminável viagem, sentado agora, sobre minha pequena mala de fibra, onde trazia duas mudas de roupas, estava eu ali a observar a estátua do grande Ministro da Viação e Obras Publicas, o Dr. Francisco Sá, quando eis que surge do outro lado da praça, a Jardineira com destino a Cidade de Francisco Sá, ou Brejo das Almas, dos meus encantos, localidade de meu aporte. Saudoso estava da querida terra onde sempre voltava em busca de algum aconchego para o ego ferido por infrutíferas tentativas. Lá, apesar da curta permanência, por obras inexplicáveis a limitada sabedoria humana, encontrava a paz na medida certa e a carga exata para as baterias. Tinha que investir quantas vezes fossem necessárias até encontrar o meu rumo.
-Sentado ao meu lado, um senhor de idade já avançada, o qual trazia nos ombros um alforje de couro onde, dada a sua inquietude e preocupação, havia com certeza algo de valioso que o obrigava a manter o tempo todo, uma das mãos ocupadas, segurando fortemente ao fundo como se estivesse a conferir o seu conteúdo. Em uma das orelhas portava, à guisa de brincos, um pequenino galho de arruda. Olhou-me, fitamente, e como eu não correspondi, desviando o meu olhar para a paisagem do caminho onde já estávamos próximos ao rio verde grande, disse-me:
- De onde você vem, moço?
- Venho de Belo Horizonte, senhor!
- Uai, mas você não pegou a Jardineira na estação do trem, lá em Montes Claros?
- Perfeitamente, senhor, respondi-lhe: Mas quando peguei a Jardineira, havia acabado de apear na estação de Montes Claros vindo de Belo Horizonte!
- E para onde você vai? Você é do Brejo? Quem é sua família lá?
- Respondi-lhe: vou para Francisco Sá. Sou do Brejo e pertenço aos Rodrigues, cujo patriarca é o velho Liberato de quem sou neto. O meu destino final é a pequena fazenda Terra Branca, de sua propriedade, que fica depois de Cana Brava, lá perto do povoado de Vaca Morta!
Por alguns instantes aquele senhor do qual, até então, sequer o nome sabia, permaneceu estático. Olhar fixo no teto da Jardineira. Mudo...totalmente... Silencioso... Meditabundo... Irrequieto... De repente, frases monossilábicas e desconexas. Observava-o, agora meio assustado por não entender os motivos daquela repentina mudança de atitude daquele que supunha já um novo amigo. Nesse entrementes, fui surpreendido por frases agora inteligíveis como:
- Liberato??? Fazenda Terra Branca??? Aquele velho de barbas brancas é seu avô??? Eu não posso acreditar nisso!!! Fale, ai, moço, que isso não é verdade!!! O que é que você está fazendo aqui?
- Calma, Senhor. Qual é o seu problema com o meu avô? Ele é uma pessoa maravilhosa. Do bem...
- É por isso mesmo! Convivi por tanto tempo com o Sr. João Liberato, aquele santo homem. Vários eitos de roças tiramos juntos em nossa juventude. Sei com que luta ele conseguiu o pouco que tem. Como criou seus dez filhos e eu, como já lhe falei, apesar de ter vivido com ele por tantos anos não consegui assimilar quase nada de suas maneiras e hoje não passo de um “judeu errante”! Não tenho paradeiro... Toda a minha riqueza está dentro deste alforje e a minha sorte, acredite, moço, está neste galho de arruda que trago atrás das orelhas!
Mais surpreso e agora muito curioso, indaguei-lhe:
- Desculpe-me, senhor, mas poderia, nesse caso, me dizer o que há de tão precioso dentro de seu alforje?
- Sim, claro, como não? Trago aqui tudo o que consegui “ajuntar” durante toda a minha vida... e tirando do alforje um montão de moedas, mostrou-me.
- Pasmo. Mesmo sem querer lhe frustrar mas, por consciência, não poderia reter comigo tão importante informação, perguntei-lhe:
- Qual é o seu nome, senhor?
- Natanael Ferreira de Oliveira, seu criado! Respondeu-me.
- Pois é, seu Natanael. Mil perdões, mas quis o destino que coubesse a mim, desiludi-lo: Lamento lhe informar que estas moedas que o senhor trás ai em seu alforje a tantos anos e que acaba de me mostrar, não valem nada! Elas não passam de um monte de patacas de cobres enferrujadas, cunhadas que foram no ano de 1901. De lá para cá, muitas mudanças se processaram em nossa economia. De maneira que os cupins das inúmeras inflações as corroeram de forma tal que hoje, em 1971, é possível que o senhor não encontre ninguém que lhe ofereça um centavo sequer, por elas.
- Frustrado, ainda o escutei dizer:
- Moço, não posso acreditar no que me diz. Esse dinheiro é o resultado da venda de uma grande manada de gado que meu pai fez e o que está comigo é a minha parte da herança.
- Mas quando foi que o senhor recebeu esta herança, seu Natanael?
- Foi no ano de 1902!
- Ah, bom... Está explicado!
- Por vezes é melhor usufruir de alguns segundos de felicidade na vida do que deixar que os mesmos se convertam em pó. Não existe vento favorável para quem não sabe aonde quer chegar.
Inté, meu povo.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


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Por Enoque Alves - 8/7/2010 17:29:45
CENAS BREJEIRAS – III - A NOITE DO BREJEIRO AUSENTE

Enoque Alves Rodrigues

Enquanto Firmino finalizava sua fala, por sinal, muito decepcionante para todos nós que o rodeavam e que esperávamos que fosse verdade o que acabava de nos relatar sobre tantas facilidades em conseguir o almejado sucesso em tempo tão curto, outros “brejeiros ausentes”, preparavam-se para nos brindar com seus lindos “causos”, mas que a partir do que nos fora antes contado por Firmino, certamente não iriam nos causar maiores impactos ou surpresas. Estávamos, todos, a partir dali preparados para qualquer coisa.
Foi assim que Cráudio, fio da dona Marta, (Cláudio, filho da Dona Marta), de posse de seu novo sotaque, o carioca, se aproximou mais da roda e já com alguns quentõezinhos na cuca, deu inicio as suas infindáveis cantilenas de vantagens lá no Estado do Rio de Janeiro, ou melhor, na Cidade de Volta Redonda.
-Lá, sim, dizia ele, é que é lugar de a gente viver. Não falta nada! É só querer trabalhar que o sucesso logo vem!!! Foi assim comigo e com uma dúzia de brejeiros que me acompanharam, mas que não quiseram vir desta vez para a Noite do Brejeiro Ausente por estarem muito atarefados lá no Rio. Eu estou aqui, de certa forma, representando eles, pois não seria justo deixar passar as festas de Setembro no Brejo sem que nenhum de nós pudesse estar "presente" na Noite do Brejeiro "Ausente".
-Uái, Cráudio, disse-lhe Marcolino, filho da Dona Nana da Quitanda: Mais o que é que eles ficaram fazendo lá no Rio? Que trabalho é este que não permitiu que eles viessem festejar com a gente as comemorações mais importantes do Brejo das Almas? Você sabe moço, que o mês de Setembro é muito mais importante para nós brejeiros até mesmo que o mês de Dezembro quando se celebra o Natal e Ano Novo?
-Pois é, respondeu Cráudio, eu sei muito bem disso, mas o que eles ficaram fazendo lá é muito mais importante que qualquer festa ou comemoração. Eles ficaram contando o dinheiro do pagamento que receberam na Usina. É que neste mês devido a um problema na usina, todo o mundo teve que trabalhar dobrado e a conseqüência disto tudo é a grande “bufunfa” que eles agora são obrigados a contar. –Lembrando-se que naqueles tempos o soldo não era creditado em banco, mas pago diretamente ao empregado dentro de envelope-.
-E você, Cráudio, também não trabalhou dobrado na Usina? E onde está o seu dinheiro? Quem está contando para você? Perguntou-lhe, Manoelito de Vaca Morta.

-É simples:
-Como eu já disse, não poderia deixar de vir. Assim eu deleguei a dois colegas meus de lá, que não são brejeiros, para receber o meu pagamento e contar para mim!
-Mas você ta louco, Cráudio! Aonde já se viu isto. Deixar nas mãos de estranhos o seu dinheiro? E o pior: Nem brejeiros são!
-É ai que você se engana, Manoelito: Lá não tem disso de alguém passar a perna nos outros, não! Sabe porque? Exatamente porque todo mundo lá tem dinheiro mais que suficiente para sequer pensar em ficar com algum que não lhe pertence!
Dizendo isto, para surpresa de todos que o rodeavam, arrancou da guaiaca um pacote com mais de mil flores de aboboras emboladas (notas de mil cruzeiros da época cujas cores eram amarelas).
Atônitos e embasbacados ainda fomos brindados por uma “experta” ironia ou seria um simples gracejo pronunciado no mais autêntico sotaque carioca por aquele "novo rico" brejeiro:
-Se querex ficar aqui chorando mitseriax, ox problemax xão de vocêx. Se ao saírem daqui, pegaram o ômnibux errado para outra localidade que não o Rio, ainda há tempo de corrigir o perrcurxo. Lá é como eu falei...A guaiaca cheia não me deixa mentir. Carioca é gente boa, cerrto? Agora é com vocêix. Eu lá consigo trampox pra todox. Podex creer!!!
-E!
Dessa vez era verdade! Quem diria?
Por vezes, a linha imaginária que separa a ficção da realidade não é tão robusta quanto parece.
Inté, meu povo... Um grande abraço.

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.




59957
Por Enoque Alves - 7/7/2010 11:07:35
CENAS BREJEIRAS – 2 - A NOITE DO BREJEIRO AUSENTE

Enoque Alves Rodrigues

Neste intróito peço permissão a grande escritora que o norte de Minas já produziu, Karla Celene Campos, nascida em Montes Claros mas que durante muitos anos de sua infância e adolescência viveu em Francisco Sá, Membro da Academia Montes-Clarense de Letras, da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, etc., para apropriar-me de um de seus textos especialmente na parte que irá corroborar com a minha crônica deste final de semana, sobre algumas festas do brejo e sobre a noite do brejeiro ausente. Diz Carla:
-“Em todos os mapas, registros e documentos oficiais consta o nome Francisco Sá para a setentrional cidade. Porem, mais forte que a linguagem escrita, registrada em cartório, é a linguagem falada, informal, sentida. E é essa linguagem dos usos e costumes do coração que faz com que ninguém se refira ao lugar pelo nome oficial. Salvo nos dicionários, não existem Francisco-Saenses, mas sim, Brejeiros. Brejeiros não visitam Francisco Sá, não existe a noite do Francisco-Saense Ausente. Brejeiros visitam o Brejo e para lá retornam quando Setembro chega, para se encontrarem na “Noite do Brejeiro Ausente”. Caprichos do coração, caprichos.”
Quando chega o mês de Setembro, a Cidadezinha do Brejo das Almas se engalana toda para realizar os festejos comemorativos em homenagem a alguns de seus muitos santos - que neste espaço, com intuito de evitar proselitismos, não declinarei nomes até porque desnecessário seria ao mais simples “brejeiro do brejo”-, mas, principalmente para que os brejeiros se confraternizem, incluindo aqueles, assim como este que vos escreve, se acham distantes da querida terra, sendo que para estes, ou seja, nós ausentes, se instituiu, - vejam se não é muita honra para nós-, a “Noite do Brejeiro Ausente”-.
-Curioso e emocionante para nós brejeiros, que por motivos da força maior que requer nossa lide em busca da sobrevivência, ainda que provisoriamente, fomos privados de participarmos, de vivenciarmos a vida cotidiana do lugar. De respirarmos o puro ar emanado dos muitos morros que o cercam. De caminhar por suas ruas, atos comezinhos e desprovidos de qualquer importância para quem vive o Brejo vinte e quatro horas.
-Pois bem, vinha eu dissertando sobre as curiosidades das “Noites do Brejeiro Ausente”. Vamos lá:
-Outrora, pelos menos assim foram em todas das quais participei, reuníamos, todos nós brejeiros, nascidos no brejo das Almas, ou, como queiram Francisco Sá, vindos de várias partes do Brasil e do Globo, em local predefinido para nossas inocentes comemorações. Ali, cada um, em seu modo de se expressar, pois vários não obstante não se acharem ausentes do brejo por muito tempo, traziam, propositadamente ou não, algum sotaque de seu “segundo lugar”. Assim, bastava que o nobre brejeiro abrisse a boca para se saber de onde ele vinha. Tertúlias inocentes e desprovidas de maldades, já o disse, mas muitas delas por vezes “fugiam” ao bom senso e chegavam a beirar as raias da “crueldade” para quem as ouvia e que por alguma razão de princípios não as queria devolver “a altura”. Refiro-me aos muitos “causos” de vantagens e sucessos inatingíveis em tão pouco tempo, que a maioria daqueles brejeiros ausentes, contavam.
-Sabe, Noquinho, falava-me Firmino, dentro de sua calça amarela boca de sino, cinturão grosso a La Roberto Carlos, grande fivela no formato da cabeça de Jesus de Nazaré, - febre daqueles tempos até mesmo pelo sucesso da Musica cantada composta por Claudio Fontana e cantada por Antonio Marcos-, camisa verde e sapato plataforma, saido do Brejo há apenas seis meses: Lá em Belzonte, no Bairro Carlos Prates, onde moro e trabalho na Fábia de fiação, já consegui fazer o meu pezinho de meia. Em seis meses, já comprei a minha casa que mais se parece a uma mansão. Tenho vários empregados lá para me servir. Acabo de comprar dois “gordinis novinhos em folha”. Só não vim pra cá com eles por que estão sendo licenciados. Não me falta nada lá! Parece que quando eu saí daqui “Deus pós a mão na minha cabeça”. Lá é o Eldorado que tantos falam. A minha conta no banco nem te conto... Ainda bem que dinheiro não fala...
-Uái, Firmino, perguntei-lhe cercado por uma multidão de crédulos curiosos ávidos por facilidades e dias melhores:
-E como é que você conseguiu tudo isso em tão pouco tempo? Estou em São Paulo há quase dez anos e posso lhe dizer que lá, onde muitos por aqui acreditam que se junta dinheiro com rodo, a coisa não é mole. Levanto-me, todos os dias as quatro da manhã, entro na obra as sete horas, cumpro, as vezes, doze horas de trabalho, vou a Faculdade pelo trem dos estudantes que sai do Brás, chego de volta no meu “muquifo” quase na mesma hora de sair para o trabalho, não tenho ou jamais tive qualquer vicio, e, acredite, sô, que até para eu vir aqui comemorar com vocês não é fácil. Dê para nós, meu bom moço, a receita para tanto sucesso em tão pouco tempo!
-Firmino, com seu indefectível ar brejeiro, sorriu... E porque todos o fitassem com olhares inquiridores para obter a resposta que ele, até então, se negava a dar, assim respondeu, forjando, somente para nos gozar, um caipirês que não era dele:
-“Mais ocêis num muda mesmo, eh cambada de molengas! Tá todo mundo ai quereno riqueza fáci. Quer moleza? Vão empurrá bebo na escada... Raspadura é doce mais num é mole... Vai trabaiá, vagabundos! Eu num tenho nada... Cheguei aqui de “cagona” –ele não conseguia falar carona-... É tudo mentira, bando de urubu!
Inté, meu povo... Um grande abraço.

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.



59839
Por Enoque Alves - 3/7/2010 13:19:41
CENAS BREJEIRAS - I - FRANCISCO SÁ ANTIGO

Enoque Alves Rodrigues

De cócoras, na Alameda Central, ponto de encontro da gente brejeira, conversavam informalmente, Neuzão, Almeida e Manel de Vovó, antigos proprietários de bar no Brejo das Almas de então.
- Pois é, já não sei mais o que fazer com o meu bar. Esta seca medonha que assola o nosso norte de minas está consumindo o ´estica o braço` - sim, este era o nome do bar do Neuzão, devido que o bar dele de tão pequeno que era não possuía interior. Os fregueses eram atendidos do lado de fora. Apenas Neuzão ficava lá dentro e quando o infeliz aos berros pedia: ´oh, Neuzão, sorta ai um torresmo!!!`. Ele, lá de dentro do bar com o torresmo na mão, respondia: ´então estica o braço!!!` e assim o torresmo era pescado pelo faminto solicitante que nenhuma outra visão tinha de quem o atendera, senão a de uma solitária e quase fantasmagórica mão que em átimos de segundos após cumprir sua função de deixar o torresmo na mão de quem o pedira, era imediatamente recolhida a espera de futuras incumbências.
Naqueles tempos bicudos, realmente a maré não estava para peixe lá no brejo. Aliás, nem mesmo maré havia. O ´único mar` daquela região agreste de minas, ou seja, o rio verde grande estava secando. Os peixes debatiam-se na lama sobre o fundo do rio onde eram apanhados à mão. Via-se, aqui e ali, alguma planta, dessas que resistem a tudo, como o gravatá, a barriguda e pouquíssimas outras, tentando oferecer algum verde, infrutiferamente. Ouvia-se, ao longe, o estalar de mamonas nos confins do sertão. Até o cantar das cigarras ´chamando chuva` era triste e melancólico. Enquanto elas, coitadas, de tão fracas e debilitadas que se encontravam pela secura, antes de iniciarem suas cantilenas se certificavam de que estavam realmente firmes, em local seguro, afim de não caírem ao chão. Ao passo que, no solo, suas rivais, as sempre prestativas e trabalhadoras formigas, transitavam em seu vai-e-vem com folhagens a tinirem-se de tão secas, presas as suas poderosas hastes. Fazia quase um ano que não chovia nada naquela região e o brejo, mesmo com muitas almas e santos, não conseguiu passar incólume. É a natureza cumprindo o seu curso de imparcialidade.
-Com o seu cigarro de fumo de rolo preso entre os dentes, Almeida, outro dono de bar fazia coro a Neuzão.
-Uái, sô, você num imagina que já faiz quse treis mêises qui num entra niuma vivalma no meu bar. Tô passando um perrengue dos diabos. Lá in casa já num tenho mais o armôço pra vendê pra comprá a janta. Num sei mais o qui vô dá pra Creuza cuzinhá. Os bacuri já estão cansados de beldroega e fubá de miio carunchado. Adespois foi grande o meu prejuízo na tentativa de vendê o meu bar prá aquele mardito ´seo João`, ferroviário de Montes Claros de uma figa. Magina ocêis que pra impresioná ele eu gastei toda a minha reserva, truxe um montão de gente pro bar pra cumê e bebê de graça enquanto ele me visitava e adespois o desinfeliz ainda veio me falá qui num pudia comprá meu bar apusquê era muito movimentado e que ele já tinha trabalhado muito na vida e qui agora ele queria um negocio só pra passá o tempo e não pra trabaiá. Qui eu devia tamêm pensá nisso apois eu trabaio muito. Qui ele nem pudia imaginá o quanto de dinhero qui eu ganhava com tanto movimento. Qui ele já está apusentado e qui num necessita mais de tanto dinhero para vivê. É mole, meus cumpades!!!
-Manel de Vovó, mineiramente, ou melhor, brejeiramente, só observava. Eram muitos os lamentos dos dois amigos. Estavam, sem dúvida alguma, em situação de penúria. Não. Ele não faria coro a tamanha desgraça! Ainda de cócoras, manuseava entre os dedos uma pequena folha de fumo que pretendia mascar. Sem querer dar o braço a torcer. Mas também desprovido de quaisquer condições que o colocasse em melhor situação que seus iguais interlocutores, balbuciou, de forma quase que inaudível o seguinte:
-Uái, sô. Ocêis arreclama apusquê quere! E apontando para o morro do mocó, lá ao longe, quase inatingível a olho nu, completou: ´na barriga do mocó há um tesoro que foi escondido lá pelo bandeirante cujo nome num me alembro. Isto é verdade... num é lêndia...o cumpade firmino mesmo pode confirmá. Ele viu a bola de fogo azú qui sai de tráis do morro e cai lá, exatamente onde o tesoro está. O qui acuntece é qui aqui num tem homes de corage pra ir cumigo lá disinterrá os oro. Apusquê ocêis dois ao invêis de ficá ai chorano misera num vem cumigo` O será coseis tamêm é uns tremendo medrosos qui tem medo de fantasmas?
-Não ouvindo de nenhum dos dois amigos qualquer resposta as suas provocações, decepcionado e supondo-se ser o melhor de todos, bateu-se em retirada.
-É...
-Por vezes é melhor deixar como está para ver como é que fica.
Um grande abraço amigos.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59633
Por Enoque Alves - 26/6/2010 11:05:31
O DR. FRANCISCO SÁ – O HOMEM E A CIDADE - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Não me cabe aqui fazer a biografia do Dr. Francisco Sá, tarefa já desempenhada com grande maestria e eloqüência por escritores renomados, sendo a meu ver, a mais completa delas, a do Bacharel Sidney Chaves. Nela podemos constatar com riqueza de pormenores o retrato fiel da pessoa que foi o Dr. Francisco Sá e que aqui estou tentando exaltar.
Relatarei, para finalizar, alguns tópicos de sua vida, que propositadamente deixei para adicionar neste epilogo, com o intuito de colaborar com pesquisas eventuais sobre este grande Brasileiro de nossa Terra.
-Nasceu na Fazenda do Brejo de Santo André, então pertencente ao território de Grão Mogol, hoje e desde o ano de 1923 ao território do Brejo das Almas, hoje Francisco Sá. Portanto, ao contrário do que muitos pensam, Francisco Sá, não nasceu “brejeiro” do Brejo das Almas. Era “brejeiro” apenas por ter nascido no Brejo de Santo André, no município de Grão Mogol. Assim sendo, quero fazer justiça a nossa não menos linda e vizinha Cidade e ao seu povo hospitaleiro: O gentílico do Dr. Francisco Sá, quando nasceu não era “brejeiro” mas “grão-mogolense”. Parabéns, Grão Mogol, fundada que foi aos 23 de Março de 1840, cuja Bandeira do Município ostenta o mais lindo e significativo lema: “A riqueza está no trabalho”.
-Estudou as primeiras letras com Professor Particular ali mesmo na Fazenda do Brejo de Santo André. Fez o curso secundário em Diamantina e o curso superior em Ouro Preto, formando-se Engenheiro pela Escola de Minas, galgando o primeiro lugar de sua turma da qual foi ele o orador, no ano de 1884, então com 22 anos de idade.
-Foi Secretário do Presidente da Província do Ceará, Dr. Carlos Honório Otoni. Pelo mesmo Ceará elegeu-se Deputado Geral. Regressou para Minas Gerais onde se elegeu Deputado Provincial. Ainda nas Minas Gerais após a proclamação da República foi Diretor dos serviços de Terras e Colonização. Foi Secretário do Governo de Bias Fortes, elegeu-se Deputado pelo Ceará, Estado que depois viria a representar como Senador da República. Três vezes Ministro, sendo duas vezes da Viação e uma vez da Agricultura.
Na condição de Ministro da Viação, construiu, em vários Estados da Federação, Estradas de Ferro e Portos, e deu combate a seca do Nordeste Brasileiro. Prometeu e trouxe, -como “bom brejeiro de palavra”-, na condição de Ministro da Viação do Governo Arthur Bernardes, a Estrada de Ferro Central do Brasil, que veio beneficiar toda a região do norte-mineira. Em sinal de gratidão, o povo ergueu-lhe uma estátua na Praça da Estação, em Montes Claros. Numa placa de bronze, ao pé de sua estátua, estão gravadas as seguintes palavras: “Foi o maior e melhor amigo”.
-Nos anais da História estão gravados de formas indeléveis e inequívocas, varias homenagens a este grande brejeiro do qual todos nós nos orgulhamos mesmo não tendo tido o privilégio de ser-lhe contemporâneo. É nosso conterrâneo e isto nos basta. Ainda que não fosse do Brejo ou de nossa Grão Mogol, mas apenas pelo fato de o Grande Francisco Sá, que nomina minha Cidade, ter nascido no Brasil -que hoje produz tanta porcaria como Político -assim como os Sarneys e os Maluf´s, para citar algumas tranqueiras podres que como múmias do Século zero, antes do Mundo, insistem em manterem-se de pé, a escarnecer de nós, pacatos Cidadãos que carregam este Pais nas costas-, já seria mais que suficiente para nos sentirmos orgulhosos.
A revista “Montes Claros em Foco” do ano de 1962, centenário do Dr. Francisco Sá, à página 452, vários escritores como Nelson Viana, Olyntho da Silveira e muitos outros, além do historiador Hermes de Paula, prestam-lhe, através de inúmeros discursos, grande homenagem.
-A verdade é que, meus amigos, e conterrâneos, com a modéstia que faz parte de minha personalidade, procurei, durante boa parte de minha existência, ir a fundo, aprofundar-me com imparcialidade, sem endeusamento, no “escarafunchar” a vida da Ilustre figura que foi Francisco Sá, o homem. Devo dizer, com humildade, que em razão disso possuo grande acervo de conhecimento escrito ou simplesmente gravados na memória, sobre nosso conterrâneo Francisco Sá. Mas tenho que admitir que por mais que alguém tente, pesquise, garimpe nos “sebos da vida”, jamais se conseguirá juntar fragmentos aqui e ali suficientemente compatíveis ou próximos do que foi Francisco Sá, o homem. Por mais que se investigue ou escreva, sempre ficará algo por relatar.
Um grande abraço.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues, atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada e Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59459
Por Enoque Alves - 19/6/2010 14:07:16
O DR. FRANCISCO SÁ – O HOMEM E A CIDADE

Enoque Alves Rodrigues

1975. Novembro. Sentado atrás de uma velha Olivetti tentava datilografar trabalho de redação livre que teria que apresentar na Escola. Apegado que sempre fui a minha querida Terra, o Brejo das Almas, Francisco Sá, beldade do norte de minas, vacilava quanto a repercussão que poderia não obter, caso dissertasse sobre um pequenino lugarejo encravado em algum lugar do Sertão do Norte de Minas. Estava eu em São Paulo, e como poderia imaginar, por aqui, naqueles tempos, quem além de mim conheceria Francisco Sá, o Brejo das Almas?
-Era um trabalho que valia pontos para as provas finais e eu não poderia jamais desperdiçar a oportunidade.
Foi quando me ocorreu escrever sobre o Dr. Francisco Sá, o homem, não a Cidade, para depois dessa introdução, falar da Cidade do Brejo das Almas. Nasceu ali há exatos 35 anos o meu desejo de ser um divulgador voluntário da pequenina Cidade que me serviu de berço. Iniciava, assim:
- O Dr. Francisco Sá, nasceu na Fazenda do Brejo de Santo André, no Município do Brejo das Almas, Minas Gerais, no dia 14 de Setembro do ano 1862 e faleceu no dia 23 de Abril de 1936. Possuía inteligência extremamente avançada e muito além de seu tempo, foi engenheiro, jornalista, político e um grande Ministro. Exerceu com competência e galhardia por três vezes os Ministérios da Viação Transportes e Obras Públicas, nos governos de Nilo Peçanha e Artur Bernardes de 1909 a 1910 e de 1922 a 1926 e em 1909 assumiu o Ministério da Agricultura Industria e Comércio. Foi ainda Deputado Federal e Senador no período de 1906 a 1927.
Era filho de Francisco José de Sá Filho, rico fazendeiro e criador de gados, sendo a fazenda do Brejo de Santo André onde nascera, propriedade de seu avô. Aos seis anos de idade, Francisco Sá, o homem, recebera da vida tremendo golpe quando seu pai, o fazendeiro Francisco José, no ano de 1868, com apenas 36 anos veio a falecer.
Ficara aos cuidados de sua mãe Dona Agustinha Josefina Vieira Machado dos Santos Sá, que arregaçou as mangas e procurou suprir a ausência do pai dotando-o de todo conforto, educação, disciplina que viriam a ser fatores determinantes em sua carreira de surpreendente sucesso. Na fazenda Brejo de Santo André o Dr. Francisco Sá passara toda a sua infância e parte de sua adolescência quando finalmente se deslocou para a Capital da Republica, Rio de Janeiro, tendo primeiro passado por Belo Horizonte, para concluir seus bem-sucedidos estudos.
-A formação Política do Dr. Francisco Sá, o homem, veio de berço. Seu avô Francisco era ferrenho Republicano e abolicionista.
-Enquanto Ministro da Viação Transportes e Obras Públicas, Francisco Sá, o homem, deitou dormentes sobre os quais repousam centenas de quilômetros de trilhos por onde antes escoava quase toda riqueza produzida nos mais inatingíveis rincões do Norte das Gerais. Timidamente foram surgindo ao redor das estações de trem, povoados que posteriormente se transformaram em grandes e progressistas Cidades. Tudo isso graças a força de suas marias-fumaça a carvão, que depois foram substituídas pelas locomotivas atuais, hoje quase inexistentes. Em homenagem ao grande Brasileiro que foi o Dr. Francisco Sá, o homem, a Cidade do Brejo das Almas em cujo Município nascera, orgulhosa de sua grande inteligência, humildade (pois mesmo tendo nascido em berço de ouro, atingido o mais elevado status social), jamais deixou de se apresentar como “brejeiro”, inclusive em certa ocasião, intrigados, perguntaram-no porque tanta “brejeirice” quando ele respondeu que a divina providência assim o denominou quando o fez nascer no “Brejo de Santo André”, no município do também brejo, o “Brejo das Almas”. Que tantos brejos em sua vida eram suficientes para não deixa-lo esquecer de onde viera. Hoje o Brejo das Almas orgulhosamente ostenta o nome de Francisco Sá, que lhe fora dado pelo Decreto-lei estadual nº 148, de 17-12-1938.
Inté
Enoque Alves Rodrigues, atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada e Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.
Saibam mais sobre o Brejo das Almas visitem o site: http://citybrazil.uol.com.br/mg/franciscosa/index.php


59226
Por Enoque Alves - 11/6/2010 20:36:54
FICHA LIMPA? E AGORA...

Enoque Alves Rodrigues

Notícias divulgadas no dia de ontem em todos os meios de comunicação dão conta de que finalmente, a Lei que impede que indivíduos de conduta pouco ou nada ilibada e que não disponham de bons antecedentes, inclusive criminais, sejam candidatos a quaisquer cargos eletivos já a partir do próximo pleito. Até ai, morreu neves. Porventura não é isso que ocorre com o cidadão comum quando ele se candidata a qualquer vaga de emprego por mais simples que seja numa empresa da iniciativa privada? Na lista de documentos que o futuro funcionário terá que apresentar ao departamento de Recursos Humanos, consta, como exigência principal, a juntada de seu atestado de antecedentes criminais. Sem isso, adeus emprego. Sem contar que mesmo antes do pobre candidato apresentar a documentação, à sua revelia, a própria empresa já se encarregou de fazer um levantamento paralelo rigoroso em sua desgraçada vida pregressa, que muitas vezes beira as raias do ridículo. Mas isso, apesar de certos excessos que prevalecem em um regime capitalista como o nosso, onde predomina a lei do mais forte, ou seja, do fala quem pode e obedece quem tem juízo, são cuidados mais que necessários. São garantias que a empresa retentora da vaga tem que ter. Ela tem o direito de conhecer antes, de cabo a rabo, o colaborador que irá fazer parte de seus quadros e que estará “vestindo a sua camisa”.
Uai, sô, então por quais motivos estes mesmos conceitos teriam que ser diferentes em se tratando do Estado, do qual somos nós o patrão, quando ele vai “admitir” às nossas custas, políticos para nos representarem? Sabemos, perfeitamente que por não existir no Brasil o regime de voto distrital que de certa forma, daria alguma visibilidade ao eleitor de monitorar e analisar a ficha de seu candidato antes de dar ao mesmo seu voto, obrigatório, diga-se de passagem, este, coitado, por absoluta falta de conhecimento e opção, acaba votando em indivíduos sem quaisquer compromissos com a ética, moral e dignidade, totalmente desvinculados de uma conduta minimamente correta, transparente e aceitável. Fecha-se os olhos e narinas e vota-se no escuro no que lhe parece menos pior.
É oportuno ressaltar que a iniciativa que culminou com o projeto de lei denominado vulgarmente de “ficha limpa”, não partiu de nenhum político. Esta iniciativa é da Sociedade Civil. É nossa, portanto. É a voz das ruas de um povo sofrido, calejado e envergonhado com tantas bandalheiras que campeiam nesta Terra de Santa Cruz. Foi através da coleta de milhões de assinaturas nossas que depois foram levadas aos Poderes Constituídos que, por não disporem de quaisquer alternativas que lhes possibilitassem o veto, por estarmos em ano eleitoral, acabaram por transforma-las em Lei, sancionando-a, mesmo a contra-gosto.
Estou certo de que nem mesmo o mais simples e bem intencionado brejeiro, que com toda pureza d’alma habita o cume de nossa linda Serra do Catuni, em meu querido Brejo das Almas, alimenta a doce ilusão de que eles teriam aprovado esta lei se não estivéssemos realmente em ano eleitoral. Ou será que alguém ainda acha que eles são todos bonzinhos assim? A aprovação desta lei que, em tese, foi criada para punir a eles próprios, foi por “livre e espontânea pressão”. Quem em sã consciência daria um tiro no próprio pé? Desta vez e espero que sempre... nota MIL para nós, o povo, e para eles, tontos políticos, nota ZERO. Ou eu estou errado!
Inté!
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas, e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


59123
Por Enoque Alves - 8/6/2010 20:58:17
O PÉ NO BALDE DA VACA BOA DE LEITE...

Enoque Alves Rodrigues

É de domínio popular a velha anedota da vaca boa de leite que após permitir que seu ordenhador enchesse grande balde com seu leite, sem qualquer motivo, meteu o pé no balde, derramando ao chão todo o leite que tanto trabalho custara a ambos para produzir.
Lembrei-me desta antiga e surrada versão para, respeitando as proporções de tempo e de espaço, traçar uma singela e mui oportuna analogia do que tem feito nosso querido Presidente Luiz Inácio, com os Poderes Constituídos do Brasil ou especificamente com o Tribunal Superior Eleitoral.
Refiro-me as cinco multas de valores irrisórios que foram até aqui aplicadas ao Lula por fazer campanha fora de época em prol da candidata a sua predileção.
Conheço pessoalmente o nosso Luiz Inácio com quem convivi nas décadas de 1970 e 1980, em São Bernardo do Campo e confesso-me surpreso com esta sua atitude. Não obstante vários tropeços em seu Governo com o envolvimento de pessoas de sua confiança em atos ilícitos tendo sido muitos deles blindados pelo próprio Lula que não tomou as providências de exonerações pura e simples a tempo, é ele pessoa de bem e que possui índole pura e muito próxima de nós, simples e pobres mortais. É bem intencionado e tem inteligência muito acima da média.
Por isso mesmo não temos outras maneiras de definirmos as razões que o levaram a tantas infrações à Lei Eleitoral ultimamente, da qual ele teria que ser o principal guardião, que não sejam pelos valores ínfimos arbitrados em tais multas, comparativamente aos seus proventos. Ou seja, os valores das multas em reais não são fatores inibidores de suas práticas. Some-se a tudo isso o peso da popularidade do Lula e veremos sem quaisquer dúvidas, que vale muito a pena, sim senhor, correr o risco. No computo geral dos fatores custos benefícios, os benefícios são infinitamente superiores.
Mas aí nos esbarramos com outro adágio popular que diz que a justiça começa de casa e que o exemplo tem que ser dado de cima para baixo.
-Uai, sô! E agora?
-Neste caso não teria o nosso Luiz Inácio, mandatário máximo da Nação, que dar o exemplo para nós que estamos aqui em baixo?
-Sim! Com toda certeza. Ele teria que seguir à risca as letras da Lei!
-Uai!!! E porque é que ele não as segue?
-Simples: Com índice de popularidade beirando os 80% lastreados, em grande parte, na prática de paternalismos com o nosso dinheiro, arrancado de nós mediante impostos desumanos e vergonhosos, mas acertos inegáveis que justificam um governo de razoável para bom, quem, em sã consciência, se habilitaria a bater de frente com o Lula? Não seria mais cômodo e prudente seguir aplicando estas multinhas que jamais serão pagas, mas que são o máximo que a Lei atual permite, fazer vistas grossas e ir empurrando com a barriga até o limite que a mesma lei eleitoral facultará subir em palanques e fazer campanhas? Aliás, estamos em ano eleitoral e são todos eles candidatos.
-Pois é. Lá no Brejo das Almas onde fui nascido temos um outro dito popular que muito justifica a vista grossa e esse empurrar com a barriga.
-Caititu fora de manada, é papo pra onça!
-Ou ainda se preferir: passarinho não canta na muda!
Inté
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes


58993
Por Enoque Alves - 3/6/2010 13:41:22
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO - FINAL

Enoque Alves Rodrigues

Subindo mais adiante em direção a serra do Catuni, antes de se chegar a estrada de Cana Brava, o viajante era presenteado pela mãe Natureza com vista panorâmica indescritível ao passar pelo que antes se denominava ‘vale das barrigudas ou paineiras”. São, para quem não conhece, árvores frondosas, de copas fechadas, que possuem estas duas denominações devido que a primeira se explica por seu caule grosso, podendo chegar a um metro de diâmetro, com grandes saliências principalmente ao meio dando-lhe o formato de barriga. Enquanto que a segunda denominação está respaldada no fato de que seus frutos, quando secos, liberam a paina, algo em forma de algodão, muito utilizada naqueles tempos para o enchimento de colchões e travesseiros. No tronco da paineira há uma incidência enorme de espinhos. Suas flores são brancas e róseas e o fruto aparenta a um mamão que ao contrário do mamoeiro, estes ficam pendurados nas galhas feito pinhas e não no caule. A árvore da paineira pode passar facilmente dos 15 metros de altura.
Depois do vale, caminhando um pouco mais se chegava ao “pé na cova”. Era um velho bar que ficava em frente ao cemitério do Brejo. Ali, não somente os bebedores contumazes mas muita gente importante do lugar ia para degustar a melhor pinga do sertão do norte mineiro. Para lá se dirigiam também nas altas madrugadas, boêmios vindos do famoso “Rancho da Lua” , acompanhados, muitas vezes, por Rogério da Costa Negro, que após pagar-lhes várias rodadas, retirava-se com a mesma fineza e educação de sempre.
Havia naquele bar pinga para todos os gostos e bolsos. Não me aterei as marcas que eram muitas mas as formas e modalidades de certas exposições que muitas dúvidas pairavam sobre minha mente infantil de antanho. Não entendia, por exemplo, porque razão a grande maioria dos fregueses daquele estabelecimento, muitos vindos de Salinas, Grão Mogol, Taiobeiras e outras regiões distantes, preferiam quase que sempre a cachaça, em cuja garrafa, branca e cristalina, repousava, à curtir durante sabe-se lá Deus por quanto tempo, uma longa e agora inofensiva cobra coral. Faziam fila para bebê-la. Enquanto as outras garrafas contendo frutas, raízes e outras iguarias eram moderadamente solicitadas, as com as cobras eram pedidas por berros desesperados:
-Zefa, cadê a branquinha, da coral que picou o coveiro que eu pidi procê há “meia hora”?
-Carma, Tonho, qui ocê me pidiu num faiz nem um minuto e eu tenho qui servi os outro tamém, home! Eu num tenho quatro mão!
-Dizia outro:
-Apusquê ocêis num trais mais povo pra atendê nóis, Diabo?
-Dá um tempo aí, Jazão, qui nóis vai atendê ocêis todo! Dizia a cansada e esbaforida Zefa!
-Cuma cana tão gostosa qui nun tem quem serve! Resmungava outro no canto do Bar.
Ao contrário das outras cachaças que eles, sempre antes de solver o conteúdo do copo, “davam o primeiro trago para o Santo”. Costume este adotado até hoje em grande parte do Brasil e que consiste em jogar fora o que seria o primeiro trago. No caso da pinga com cobra coral eles não jogavam nada fora. Não ofereciam nada pro Santo. Que decepcionado, creio, triste ficava!
Depois da bebedeira, de muitas doses de pinga de cobra, iam todos rumo ao Centro do velho Brejo das Almas e se embrenhavam nos cabarés e inferninhos de então.
-Nem mesmo assim, minha mente brejeira de pequeno infante conseguia assimilar as razões daquela euforia toda. Tempos depois, o grande senhor da razão, se encarregava de me explicar: A pinga com cobra coral curtida dentro da garrafa era consumida à guisa de afrodisíaco, ou seja, era ela naqueles longínquos tempos o “Viagra dos pobres”.
Inté!

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.
Visitem meu blog: http://enoque.rodrigues.zip.net/index.html


58834
Por Enoque Alves - 28/5/2010 20:42:54
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 5

Enoque Alves Rodrigues

Depois de passar pela Casa do velho Mateus Gordo, o maior contador de histórias do Brejo, deparava-se, finalmente, com um descampado onde surgiam timidamente pequenos núcleos à guisa de ruas onde, minutos após, o viajante se defrontava de ambos os lados, com pequeninas e singelas casas, a maioria feitas de adobe e algumas com tijolos queimados, invariavelmente pintadas a cal e com um pequenino vaso à janela onde resistentes flores teimavam em dar o ar de sua graça ignorando o Sol escaldante e a implacável aridez daqueles confins de nosso querido sertão do norte mineiro onde está localizado Francisco Sá, ou Brejo das Almas, beldade das minas gerais.
Ali, outrora, aonde a mãe natureza que privilegiava apenas a berduega como se sua única filha fosse, iniciava, de fato, o povoado do Brejo. Era e o é até hoje sua principal rua. Por lá se entrava e saia do Brejo.
Seguindo mais adiante sem que fosse necessário caminhar muito, se chegava ao centro “nervoso” do comércio Brejeiro: constituía, na verdade, de poucas e tímidas casas comerciais onde se vendiam de tudo. Desde açougues onde as carnes de vacas, bodes, porcos, etc., eram e o são até hoje, em algumas, expostas penduradas na frente do estabelecimento, servindo de aeroporto para o pouso de moscas de passagem por aquelas plagas, até armarinhos de secos e molhados, onde se vendiam de tudo desde um simples botão a mais fina e requintada fazenda, do linho a chita, do tergal ao morim. As Lojas, onde somente tecidos vendiam, eram poucas. A maior delas a qual reinou no Brejo por longo tempo foi sem dúvida a Casa Branca e Costa Negro. Pertencia a Rogério da Costa Negro, seresteiro do Brejo, tremendo “bom vivant”, inclusive com destaque na política da região. De bem-sucedido comerciante, mas de vida perdulária, finalizou seus dias de existência septuagésima neste Orbe Terrestre na mais absoluta pobreza, mas com a cabeça erguida na dignidade que somente os grandes congênitos possuem.
A Casa Viena era outro gigante do comércio do lugar. As pharmacias ou bouticas eram raras. Apenas duas, de cujos proprietários minha mente hoje já não tão prodigiosa assim, não me permite lembrar os nomes.
A Igreja Matriz do Brejo, da qual tanto já tenho falado, lá sempre esteve. Ou seja, sábia e faceira como ela só, jamais quis sair do local mais bonito e privilegiado do Brejo que é a Praça Jacinto Alves da Silveira. Sempre permaneceu ali, de atalaia. Atenta a tudo que ocorre a sua volta. Ela é o que se pode chamar de testemunha ocular do Brejo desde a sua fundação. Ela, a Igreja Matriz com a Praça que leva o nome de seu dono se fundem. Até parece que ela, a Igreja Matriz, ali está para tomar nota de todas as ocorrências e depois as relatar ao Velho Jacinto. Mas ela, a Igreja Matriz, é vaidosa. Nas festas religiosas e dos muitos padroeiros, ela se enfeita toda. Se pinta como as lindas mulheres brejeiras, de suas melhores cores para as comemorações.
-Desculpe-me, Senhor Diretor. Não estou aqui fazendo proselitismo religioso até porque não pertenço a nenhum credo, especificamente. Pertenço, sim, a uma doutrina que não é religião, mas Ciência, da qual não pretendo jamais tentar convencer alguém a segui-la por respeitar o poder do livre arbítrio de cada um. Estou apenas discorrendo sobre o meu fascinante Brejo das Almas e algumas de suas muitas belezas.
Inté, brejeiros. Um grande abraço.
Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.


58688
Por Enoque Alves - 24/5/2010 20:50:41
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 4

Enoque Alves Rodrigues

Depois de passar pelo Casarão cor de rosa do Sr. Antonio Miranda e Dona Edite, atravessar a Chácara de Sá Antonina e o Sitio de Juca Brinco, o transeunte que entrasse no Brejo das Almas vindo de Montes Claros via-se no lado direito da descida uma pequena pousada cujo dono era o velho Mateus gordo. Ali o viajante encontrava além de boa comida, pastagens vastas para seus animais e água abundante para seu banho.
Mateus Gordo era o que se podia denominar de “caboclo bom de prosa”. Pitando seu cachimbo de chifres de bode, carregado com fumo “in natura” produzidos por ele próprio em seu roçado, entre uma baforada e outra, ia vertendo histórias de seus tempos de menino em sua querida de Grão Mogol. Uma dessas histórias, presenciei-o contar por no mínimo uma duas vezes. No entanto, não obstante o interlocutor saber previamente o final de cada historia, era sempre uma sensação nova ouvi-lo contar outra vez, pois ao contrario do final que todos sabiam, cada história ele contava diferente de maneira que nós só sabíamos tratar-se da mesma história quando esta já estava caminhando para o final. Para dar veracidade a esta história ele nos apresentava sempre a “prova do crime”: uma velha e enferrujada espingarda de cano torto, quase em forma de anzol, que segundo ele dizia, era para matar onça na curva. De cócoras, no meio de uma roda de ouvintes atentos, Mateus gordo iniciava sua antiga cantilena sempre desse jeito:
-Foi lá em Grão Mogol quando eu era rapazinho e sai com meu pai para caçar veado no serrado, nas imediações da cidade. Meu pai caminhava na frente com sua espingarda de dois canos e eu ia atrás dele com minha pequena espingarda de um cano só. Eu tinha de seis para sete anos e já sabia atirar. Acertava numa cidra a um quilômetro de distância sem fazer mira.
-De repente eis que surge diante de nós uma tremenda onça pintada acompanhada de seus filhotes. Ela de tão faminta e braba que estava nem viu a gente! Foi meu pai que mexeu com ela puxando-lhe o rabo. Não deu tempo para nada! De um só tapa, ela jogou meu pai longe e partiu para cima de mim... Não dava para eu correr. Tive que encarar a fera! Afastei uns quatro metros para trás e engatilhei minha pequena espingarda de caçar passarinho. Eu pretendia com isso apenas dar um susto nela para que eu pudesse correr. Mas quem foi que disse que a maldita espingarda disparou? Eu apertava o gatilho que acionava o cão da espingarda que picotava a espoleta que não explodia para queimar a pólvora. Enquanto isso, a onça ficava em minha frente, de pé, com os dois braços abertos, como se estivesse me convidando para brigar... Não teve jeito. Joguei a espingarda fora e parti para cima dela. Engalfinhamo-nos, rolando ladeira abaixo até cairmos dentro de um riacho. Nem dentro dágua a gente se desgarrou. Nesse entrementes, meu pai que até então se achava no chão conseguiu se levantar e veio em meu socorro. Ela nem deu atenção pra ele; ao contrário, ficou mais nervosa ainda. Pegou-me pelo pescoço e quando já estava quase me enforcando, meu pai que usava rapé, se lembrou de jogar uma pequena porção na água. Foi minha salvação! Ela começou a se contorcer toda de vontade de espirrar e quando não agüentou mais pôs a cabeça para fora. Foi quando meu pai, de posse de um porrete deu-lhe uma cacetada nas fuças deixando-a tonta, quando finalmente consegui me libertar. Não foi fácil.
-E aonde é que entra nessa história a espingarda de cano torto que está em sua mão, Mateus gordo?
-Não. Ela não faz parte desta história, não mais da outra que oportunamente lhes contarei.
Inté, brejeiros!!!

Enoque Alves Rodrigues é divulgador voluntário de Francisco Sá, Brejo das Almas e atua nas áreas de Engenharia Civil, Pesada, Obras de Artes, Montagens Industriais e Grandes Estruturas.



58643
Por Enoque Alves - 22/5/2010 16:52:21
BRINCANDO DE DEUS?

Enoque Alves Rodrigues

Nesta semana a Humanidade foi surpreendida com a notícia de que cientistas conseguiram CRIAR, pela primeira vez no mundo, uma célula com genoma sintético, ou seja, uma bactéria a qual deram o nome de Mycoplasma mycoides JCVI-syn 1.0.
A comunidade cientifica mundial, inclusive a do Brasil, está fazendo tremendo auê em torno desse feito. São vários os depoimentos de impolutas e inquestionáveis autoridades desta área ressaltando a importância desta CRIAÇÃO para o mundo. Tanta exaltação, elogios e endeusamentos a equipe que participou desse evento que muitas vezes dão a nós, pobres e leigos mortais, a idéia de que o homem reinventou a vida!
-Não é nada disso, meus queridos. Eles não inventaram nada! Não CRIARAM absolutamente nada! O grande problema é que o verbo CRIAR está sendo utilizado para definir esse episódio, que não saberia eu dizer se propositadamente, da maneira mais incorreta possível. Nem precisa recorrer a dicionários para entender isso. Lá está registrado o verdadeiro sentido do verbo CRIAR:
“Dar existência”, “tirar do nada”, “imaginar”, “inventar”, “dar origem”, “produzir”, “fundar”, “instituir”, “começar a ter”, “alimentar”, etc.
Mas o que foi que esse cientista-empresário Craig Venter e sua equipe fizeram, então?
-Eles apenas inseriram um genoma construído artificialmente em uma célula, essa sim, CRIADA pela Natureza cuja célula passou a ser comandada por eles. Somente isso. Ou seja, para se CRIAR alguma coisa tem que se partir da estaca ZERO o que não ocorreu nesse caso, bem como, respeitando as devidas proporções, na mundialmente conhecida clonagem da Ovelha Dolly. Lembrando que para chegarem a este estágio eles realizaram investimentos bilionários em experimentos que duraram quinze anos. Esqueçam, portanto, de que o homem algum dia terá condições de CRIAR a vida, senão pelos métodos tradicionais, através da “cópula fecundativa”. Nada mais!
Não desprezemos, entretanto, o feito. Ele pode significar um importante salto para a humanidade. Mas longe de merecer a divulgação extremada que estão querendo ensejar. Desde a descoberta da Penicilina, não vemos no campo da Ciência, feitos que nos incitem a grandes comemorações. Doenças aparentemente simples, que de há muito já deveriam ter sido erradicadas e banidas do Planeta, grassam, nos dias atuais, de maneira incontrolável e inclemente, vidas humanas, ceifando-as sem dó e piedade.
A Natureza, meus queridos, não permite saltos. Na ordem natural das coisas não se queima etapas. Significa dizer que de nada adianta eles quererem “brincar de Deus”, se ainda não conseguiram sequer descobrir o básico.
-Por vezes, é preferível não acreditar em nada, que se deixar levar por calendas. Pensem nisso!
Um grande abraço.
Enoque Alves Rodrigues.


58625
Por Enoque Alves - 21/5/2010 20:49:02
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 3

Enoque Alves Rodrigues

Outrora, para quem entrava no Brejo das Almas vindo de Montes Claros, passava em frente a um casarão de cor rosa, que pertencia a família tradicional do lugar a qual conhecia de vista. Ali, naquela linda e espaçosa casa, além da paz e tranqüilidade que pareciam reinar, segundo reza a tradição, se fazia o mais fino e requintado doce daquela região. Eram vários os sabores: doce de leite, goiaba, banana, cidra, etc. Os transeuntes inadvertidos quando passavam defronte aquela casa, eram, fatalmente, surpreendidos pelos mais puros e tentadores aromas, que voláteis em forma de fina fumaça, chegavam-lhes até as narinas, penetrando no âmago, por fim atingindo o olfato de maneira, irremediavelmente “destruidora”. Era difícil resistir àquela tentação da gula. Se a boca estivesse seca, devido ao calor e poeira do Brejo, imediatamente umedecia-se. Era como se olhos d’água brotassem do estômago. Às gestantes, coitadas, que passassem por este “flagelo” sem que oportunidades tivessem de provar dessas iguarias, poderiam causar aos seus rebentos “sérios danos”. Depois de muito tempo consegui descobrir quem na verdade residia naquela casa e onde se conseguiria encontrar aqueles doces. Eram produzidos em grande escala e que tinham como destinação, creio, o comércio do Brejo. O casal que os fabricava, sobre quem já tive a oportunidade de fazer pequena e rápida alusão neste espaço em matéria anterior, era impressionantemente sensacional. Era o Sr. Antonio Miranda e a Dona Edite. Ele, um senhor naquele tempo de meia idade e sua senhora, a dona Edite, apesar de muito bem cuidada, parecia ser um pouco mais velha. Tinham muitos filhos, que via com freqüência apesar de não ter estabelecido com eles, por absoluta falta de oportunidade, elos que levassem a uma aproximação de amizade intensa.
-Subindo mais adiante, ainda no inicio da pequena ladeira íngreme, depois de atravessar o sitio do velho Mateus e cruzar uma pinguela, via-se ao longe a pequena chácara de bananas, laranjas, lima da pérsia, cana e outras culturas. Pertencia a Dona Maria Antonia ou “Sá Antonina”, senhora já com idade avançada, mais muito forte ainda, que fazia questão de acompanhar em frente a sua propriedade, os carregamentos das carroças, charretes e cangalhas ao lombo de burros. Ela, a guisa de conferir seus produtos a fim de evitar quaisquer erros de contagens e prejuízos, postava-se com uma velha tabuleta em uma das mãos e na outra segurava um pedaço de carvão com o qual registrava na tabuleta sua infalível contabilidade. Assim como a maioria dos brejeiros de antanho, “Sá Antonina”, jamais, antes estivera sequer em frente a uma Escola. Não sabia ler nem escrever.
-Sendo assim desnecessário seria também dizer que não conhecia matemática, certo? -Errado!
-“Sá Antonina” sabia contar melhor que ninguém! Só que por não saber escrever, por ter pouca familiaridade com os números, ela que não confiava em ninguém a sua contabilidade, executava suas indelegáveis prerrogativas de “contadora”, de uma maneira meio inusitada e pitoresca: Para que nada lhe escapasse às vistas, com o intuito de ficar ao nível do meio de transporte, colocava-se ao lado do mesmo, um antigo catre tecido com couros de bois, catre este, utilizado anteriormente pela “qüinquagésima geração de sua família”, sobre o qual, por ser ela pequenina ao extremo, colocava uma cadeira, contemporânea do catre, onde após organizar suas vestimentas, --uma longa saia amarrada com uma tira de tecido à cintura-, começava a fazer a contagem; era mais ou menos assim: os carregadores saiam de sua chácara por um único portão que dava na rua. Ao chegarem ali onde ela estava, paravam e punham-se a fazer a contagem. Ela, de cima, apenas observava. Quando entendia que a contagem não estava correta, fazia o infeliz carregador repeti-la quantas vezes fossem necessárias ao seu difícil e indócil convencimento. Para facilitar seu trabalho, adequando-o as suas limitações culturais, a contagem era feita invariavelmente por dúzia qualquer que fosse o produto. Dessa forma, os cachos de banana eram fracionados de doze em doze unidades inteiras. Se no final do cacho a ultima fração não alcançasse as doze unidades, ela mandava retira-la, ainda que em tal fração tivesse onze unidades. Quando ela considerava correta a contagem fazia o registro com um simples risco com o carvão na tabuleta o qual representava uma dúzia, sendo os quatro primeiros riscos na parte externa em forma de um quadrado e os dois na parte de dentro em forma de xis. Tinha ela ai em sua contabilidade seis dúzias e assim por diante.
Todos os produtos ali coletados tinham como destino certo o velho e improvisado mercado que como o descrevi na crônica anterior, mais parecia a um “ajuntamento cigano”. Vendiam-se de tudo naqueles confins dos Sertões das Minas Gerais, no nosso querido Brejo das Almas. Quando não havia por lá quem tivessem dinheiro para comprar seus produtos eles negociavam-no entre si por escambo.
-Quanto a “Sá Antonina”, tudo aquilo que ela não conseguia vender desta maneira no atacado, ela oferecia no varejo de forma simplificada que ainda hoje, não obstante o passar de tantos anos, ainda é praticada à beira de qualquer estrada em vários estados brasileiros.
-Como ela, “Sá Antonina” morasse na beira da estrada de Montes Claros – Francisco Sá, ou Brejo das Almas, montava ali às margens uma pequenina mesa de madeira tosca sobre a qual fazia a exposição de seus produtos, disponibilizados para a venda aos estradeiros. Era um sucesso!!!
-No final da subida, após passar a chácara de “Sá Antonina”, do lado esquerdo de quem seguia em direção ao centro do Velho Brejo, cercado por densas e floridas “barrigudas”, ficava o sitio do velho Juca Brinco. Mulato alto, forte, que mancava da perna direita, devido ser esta mais curta que a outra, que, segundo ele contava, era resultado de várias pelejas que tivera com algumas suçuaranas em defesa de suas criações de rezes de seus apetites vorazes. O brinco que fora inserido, compulsoriamente em seu nome, que exatamente pelo fato de a principio ele detestar, acabou “colando”, era atribuído a uma marca de nascença que possuía atrás de uma das orelhas, que, saliente, dava a aparência de brinco. Muito tempo depois, munido de infantil desejo de livrar-se do apelido que o projetara, - era conhecido como o seu Juca “Brinco”, o maior contador de histórias do Brejo-, de posse de suas parcas economias, amealhadas a duras penas com as vendas de carnes de alguns garrotinhos, que certamente não haviam sido notados pelas onças suçuaranas, rumou, aquele simpático senhor para Montes Claros. Ali chegando, procurou um dos melhores cirurgiões da velha MOC de então. Procedimentos cirúrgicos bem sucedidos, encontramos agora o nosso Juca, de retorno ao convívio de seus amigos e familiares no Brejo. Transformara-se, no entanto. Simpático, afável e cordial, traços anteriormente inerentes a sua personalidade, agora era um velho ranzinza e intoleravelmente rabugento. A molecada ao vê-lo, fugia. Os mais velhos, seus amigos o questionavam:
-Mas o que houve com você, Juca! Porque razão você está tão mudado desde que retornou de Montes Claros?
-Sabe o que é, Cardoso. Fiz a maior burrada da minha vida! Gastei toda a minha fortuna para me livrar daquele maldito brinco, por nada!
-Surpreso, Cardoso, voltou a indagar-lhe:
-Mas como por nada, Juca? Você não tem mais o brinco que tantos aborrecimentos lhe causavam. Do que é que você vai reclamar agora homem?
-Pois é, Cardoso. Parece que só você vê que eu não tenho mais brinco, porque para a maioria desses brejeiros bocós da lagoa do sapo, pinguços adoradores de “Chora Rita” e “Providência do Mangal”, eu continuo sendo Juca Brinco. Para eles, de nada valeu o meu esforço. O pior é a gozação deles, sô!
-Mas que gozação, Juca? –Outra vez, Cardoso, surpreso!
-Quando falo pra eles que retirei o brinco numa cirurgia em Montes Claros, eles fingem que não acreditam e ainda me dizem:
-“Uai, sô. -Ocê pensa qui nóis aqui é troxa! A quem ocê pensa que vai enganá, Juca Brinco? Nóis aqui bem sabe qui ocê dexô seu brinco c’um orive lá em Montes Claros, para lustrá ele procê e colocá u’a pedrinha azú aní. Qui depois ocê vai buscá para usá de novo!”
-É!!!
-Por vezes não se deve mexer com o que está quieto. As “marcas e patentes”, mesmo com defeitos de fábrica, tem que ser preservadas!
Um grande abraço, amigos.
Enoque Alves Rodrigues
Agradeço aos amigos do Brejo pela homenagem a minha simples pessoa. Apesar de não me julgar merecedor, estarei ai em Julho ou Agosto para recebê-la e abraça-los.


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Por Enoque Alves - 15/5/2010 11:26:04
RECORDAR É VIVER – REMINISCÊNCIAS DO VELHO BREJO 2

Enoque Alves Rodrigues

Na terça-feira, dia 04/05/2010, fez exatamente um ano em que estive visitando a querida Terra que a Divina Providência designou para que eu reencarnasse na atual existência física. O querido e inesquecível Francisco Sá, ou como nós “brejeiros autênticos” carinhosamente o chamamos, “Brejo das Almas”.
Fazia muitos anos que não retornava ao meu berço natal e como pude narrar em matéria publicada neste mesmo espaço, muitas foram ás mudanças processadas ali, naquele pequeno torrão, encravado em um dos extremos do norte das Minas Gerais, no decorrer destes anos todos.
A começar pelo Largo da Matriz, que de tão lindo que se encontra atualmente, em nada se assemelha ao antigo Largo daqueles “lejanos tiempos”. Em um banco qualquer que existia ali, vestido com minha melhor roupa, enquanto aguardava o inicio das missas de domingo, celebradas por Sua Reverendíssima, o Padre Silvestre, sentava-me juntamente com a “doce plebe brejeira”, meus eternos iguais, para, imaginem, fazermos o que?...
-Poupo-lhes a curiosidade, pois por mais que sejam prodigiosas vossas mentes, com toda certeza não conseguiriam adivinhar nunca. Reuníamos ali naquele local estratégico por onde todos e quaisquer viventes que entrassem ou saíssem do Velho Brejo teria que passar, para simplesmente nos deliciarmos com a “grande e inusitada descoberta”:
-Contar carros.
-Contar carros?
-O que é isso?
-Sim!
-É isso mesmo o que o amigo leitor entendeu! Pouquíssimos eram os veículos a motor naquela época no “Velho Brejo”, apesar de não se fazer tanto tempo assim, afinal não sou tão velho, que havia quem como nós ainda se dedicasse a contá-los e, muitas vezes, apenas os dedos das mãos eram mais que suficientes para tanto. Naqueles calorosos tempos que insisto, para não deixar dúvidas quanto a minha “jovial idade”, não se vão tão longe, o principal veículo que imperava por estas minhas adoráveis plagas que carinhosamente chamo de “beldade do norte de minas” eram os veículos de “tração animal”, movidos pelo mais puro combustível com o qual eram cuidadosamente abastecidos por seus donos, em seus “auto postos de origem”. Combustível este que se denominava “capim colonião”, que era encontrado com a mais absoluta facilidade em quaisquer paragens.
-Ao contrário dos possantes veículos a motor, como as jardineiras, rural, camionetas, jeeps, caminhões, etc., que sempre surgiam de um mesmo lugar, vindos dos lados de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol, e outras localidades nesta direção, mas sempre com passagem pelo velho Largo da Matriz e com ponto final na antiga rua principal, hoje Alameda, em frente à Pensão da Dona Quinó, - pois naquela época ainda não existia a Rodoviária-, “os veículos de tração animal”, ou melhor dizendo, carroças, charretes, carros de bois, juntas de burros com cangalhas ao lombo carregadas dos mais preciosos produtos produzidos nos mais longínquos recantos pela mãe terra, “brotavam” de todos os lados e lugares. Eles vinham carregados de alho, algodão, rapadura, banana, melado de cana, cachaça, tempero, mandioca, milho, farinha, fubá, arroz, cidra e outros. Ao chegarem ao Largo da Matriz, no entanto, o caminho deles se afunilava. Iam todos em um só rumo, ou seja, em direção ao velho e improvisado “mercado”, onde na maioria das vezes, diante das dificuldades em encontrar quem dinheiro tivesse para de suas mãos adquirir seus produtos, pois naquele tempo não era fácil se defrontar com uma “flor de abóbora” (nota amarela que valia mil cruzeiros), negociavam-nos por escambo.
Dessa forma, quem tinha arroz procurava negociar com quem tivesse feijão, óleo, querosene, sal, roupas, ou qualquer outro produto diferente do seu. E assim, aquele velho e hoje inexistente “point” se transformava em um verdadeiro “ajuntamento cigano” e a petizada menos ou quase nada favorecida, ficava ali, às espreitas, como cachorro faminto, sempre no aguardo de que alguém necessitasse de “uma força” para movimentar alguma cangalha, saco ou alforje, em troca de algumas frutas. Éramos, no entanto, demasiadamente “esnobes” e “interesseiros”. Se durante os dias úteis da semana, rezávamos e até fazíamos novena em prol do aparecimento destes “veículos de tração animal”, que, por vezes, depois de oferecermos aos seus donos a nossa “ajuda”, nos auferia, “alguns dividendos” com os quais, com toda a nossa humildade e honestidade, dávamos “um chega pra lá nas solitárias ou tênias famintas”, nos finais de semana, fugíamos deles. Até fingíamos jamais tê-los visto. Virávamos lhe a cara quando inesperadamente surgiam à frente. Aliás, aos domingos e feriados, nós, do alto de nossa “pompa”, até achávamos esses pobres veículos de tração animal, parecidos “com nada”. -Verdadeiras geringonças. Sequer olhávamos para eles quando ao longe “brotavam”. Sim, a redundância é proposital: Eles, por surgirem do nada, pareciam “brotar do solo”. Tínhamos grande “tino comercial” e sabíamos distinguir o “nosso negócio” da semana, da diversão de domingo e a nossa diversão era contar os “carrões” de então.
-Eles eram privilégios da nata mais abastadas da sociedade “Brejalmina” (gostaram do gentílico?) Em sua grande maioria, políticos, grandes fazendeiros donos de importantes latifúndios ou emergentes vindos estes, não sei de onde, uma vez que no Brejo daqueles tempos, quem nascesse rico ou pobre estava fadado a morrer em suas respectivas condições sócio econômicas hereditárias. Se você desejasse realizar o seu sonho de um futuro melhor, tinha que “fugir do brejo”. Esse foi o meu caso e de milhares de brejeiros.
-Era para todos nós, muito fácil, identificarmos naqueles tempos, a que classe social o indivíduo pertencia. Podia ele vir numa velocidade de 300 quilômetros por hora. Bastava-nos apenas e tão somente termos reflexos para identificar qual era o tipo de seu carro e “batata!!!” Se fosse jeep com tração nas quatro rodas, camioneta ou rural, de preferência sujos de lama ou barro, estávamos convencidos de que, seus donos, eram fazendeiros; vinham de suas imensas fazendas. Quando ocorria o contrário ou até mesmo se estes veículos estivessem sempre limpos, tínhamos a certeza de que seus donos eram alguns ricos que viviam no perímetro urbano do velho Brejo.
Nesse caso, os pobres veículos de tração animal, ou seja, aqueles puxados por burros, bois ou quaisquer outras espécies animálias, não recebiam de nós nenhum mísero e desprezível olhar. Eles se contorciam todos de inveja e até mesmo de raiva. Mas, fazer o que?
-Quiçá lá no fundo de seus “recônditos”, eles, pobres coitados, fizessem a clássica pergunta:
-“Mais o que é que esses desajeitados, horríveis e mal acabados carrões motorizados tem que nós não temos?”
-Uái, sô, precisa responder?
Ao contrário de seus temíveis e desiguais concorrentes que nenhum resíduos vertia senão uma quase imperceptível fumaça, os resíduos deixados por estes “pobres diabos”, de coloração esverdeada, com odor um pouco diferente que o da tradicional “gasosa”, -utilizada em seus concorrentes veículos a motor-, resultantes da “queima de seus combustíveis”, iam ficando para trás, cobrindo as ruazinhas do velho Brejo das Almas, hoje a minha, a sua, a nossa querida e encantadora Francisco Sá, Minas Gerais, Brasil, a maioria delas, antanho, de paralelepípedos ou chão batido, com um verdadeiro e sólido “tapete persa”, os quais, ao contrário dos originários do velho Oriente, nos quais muitos gostariam de por os pés, estes todos evitavam sequer passar por perto.
-Voltando a linda Igreja Matriz, localizada no não menos lindo e já acima mencionado Largo, ou melhor, na lindíssima e muito bem conservada praça cujo nome faz justa homenagem ao personagem que mais fez pelo Brejo, Jacinto Alves da Silveira, sob o qual já dediquei aqui neste espaço bem como no livro que escrevi e que ainda não quis publicar, várias páginas a respeito. Francisco Sá, não o Ministro que nasceu nos arredores, na Fazenda de Santo André e que foi responsável por levar a Estrada de Ferro Central do Brasil para o norte das Minas Gerais, mas sim a Cidade, de Francisco Sá, muito lhe deve. Talvez, não fosse ele, ela não existiria. A história é pródiga em atos de esquecimentos dos mesmos vultos que a escreveram. Jacinto Silveira é, a meu ver, um desses injustiçados.
-Achava-se a Igreja Matriz quando de minha visita ao Brejo em 04/05/2009, pintada recentemente. Adentrei-a. Agradável aroma de tinta fresca subia-me às narinas. Sentado ali, sozinho, agora homem feito, de há muito formado, que tanto lutou e muitos Mundos correu em busca de uma digna subsistência. Católico Espírita há quase quarenta anos, etc. Olhar fixo no Crucificado, retroagia-me ali, no tempo e no espaço, as despretensiosas peripécias de meus tempos de menino e as minhas furtivas idas aquela Matriz, devido meus avós pertencerem a outro Credo. Eram adventistas.
Naqueles tempos, as missas celebradas pelo Padre Silvestre eram quase que o mesmo que o são hoje as missas celebradas pelos chamados “carismáticos”. O Padre Silvestre, que minha geração conheceu sempre foi muito sério. Estatura mediana tendendo para alto, tez branca, olhos azuis, meio careca e um sorriso largo no rosto, claro, quando queria. Eram muito alegres suas missas e muitas foram ás oportunidades que tive de presenciar o querido Sacerdote incrementa-las com algumas anedotas extraídas e sempre embasadas nos Evangelhos. Daí que sua popularidade e suas missas arrastavam multidões.
-Eu tinha sete, oito ou nove anos e morava em São Geraldo, quando lá pelos idos de 1960, fui batizado pelo Padre Silvestre. A chegada dele, sempre a cavalo ou de jeep era uma festa. Por se tratar do batismo da petizada quase todos na mesma faixa etária, vestimos nossas melhores roupas e, perfilados, quase que em posição de “sentidos”, assim como o fazem os recrutas no exército, ficamos aguardando ansiosamente pela chegada do Padre. No dia anterior havia chovido muito. Não obstante, vários candidatos da região do Brejo haviam estado em São Geraldo e naqueles “belos” tempos quando na caça implacável ao precioso voto do eleitor, tudo valia, até mesmo a fartura cavalgar sobre a miséria, “rolou”, em frente a pequenina Igreja que ficava ao lado do Cemitério, um grande comício com comes e bebes a vontade. Para quem não sabe ou não mais se lembra, naqueles tempos, os apetitosos espetos de churrasco eram assados sobre uma valeta, aberta no chão a guisa de churrasqueira onde se colocavam os espetos diretamente. Sem “maiores delongas”.
Fizeram a tal valeta que em forma de serpente, sumia de vista. Assaram-se os inúmeros espetos de churrascos que suavizaram muitos estômagos famintos. Vieram os políticos e deram seus respectivos recados e finalizaram o evento. Mas ninguém se lembrou de tapar a tal valeta. Nove horas da manhã, continuava uma garoinha fria e persistente, quando eis que na entrada do lugar surge o padre com sua comitiva. Ao vê-los, pusemo-nos a rezar. A maneira que ele ia se aproximando, nós, para fazermos média, aumentávamos nossas vozes, prontos para a saudação de boas vindas.
Por vezes, o destino nos pregam peças em forma de inexplicáveis coincidências que por mais que tentamos, não conseguimos entender.
-Aliás, é um grande equivoco da humanidade que habita este Orbe de expiações e provas debitar na contabilidade das coincidências, fatos e feitos de a muito planejados lá em Cima pelos Arquitetos do Universo...-
-Pois bem, não é que no exato momento em que o Padre descia de sua montaria... Quando nós preparávamos os nossos pulmões para com grandes haustos fazermos a nossa saudação “bem vindo santo padre...”, surge ao nosso lado aquilo que em nossa imaculada inocência mais temíamos: quatro musculosos indivíduos, cada um com uma ponta de forquilha às costas e no meio delas, uma rede, com um pobre defunto a caminho do campo santo logo ali adiante! Atrás vinha sua doce e inconsolável viúva, uma senhorinha de meia idade, vestida de preto, com um terço às mãos, juntamente com sua numerosa prole de pequeninos, todos aos prantos. Acompanhavam-no até a derradeira morada. Foi, queridos amigos leitores, muito para as nossas frágeis pernas com sua ossatura ainda em formação. Ficamos estáticos. As pernas bambeavam. Nossas vozes não saiam. O Padre, que até então não havia presenciado a mesma cena que nós, não entendeu, evidentemente, nada do que estava se passando com a gente. Surpreso e decepcionado por não ter sido “saudado”, vinha em nossa direção. Olhar firme e até inquiridor, focado em nós. Queria, por certo, saber os motivos de nossas indiferenças ou talvez, dependendo de nossas justificativas, nos amaldiçoar ou, quem sabe, “negar os ritos do santo batismos aqueles “capetas em forma de guri”. Mas não foi necessário. De relance ele viu a mesma cena que nós e de imediato assimilou nossa reação. Bondoso, no exercício do verdadeiro sacerdócio, para nos tranqüilizar, abriu-nos um largo, porém tímido sorriso proferindo algumas palavras como: não se assustem. Isso é comum. Todos nós morreremos um dia. Para morrer basta estar vivo. Vocês devem ter medo é de certos vivos. Quem morre não faz mal a ninguém. Dizendo isto, pensou partir rumo ao cortejo para agora, dirigir algumas palavras de consolo à viúva. Mais ele só pensou. Pobre Padre, tão compenetrado estava em seu mister, que não viu a sua frente, a tenebrosa valeta cheia de água suja, barro, restos de espetos (só a madeira), com a boca escancarada para de uma só vez traga-lo. Não teve jeito... O querido Padre não conseguiu “brecar” a tempo. Caiu inteirinho dentro da valeta. Nós que até então estávamos tristes, com medo e meditando sobre as sábias palavras que ele segundos antes nos dissera, não conseguimos nos conter. Ao vê-lo ressurgir daquele “inferno” com seus reluzentes sapatos e sua impecável imaculada batina preta cheios de lama, pusemo-nos a rir, sem parar. Coisa de criança que Deus em Sua infinita Bondade “entende e perdoa”. A mim, por ser o maiorzinho, coube, finalmente, “fazer as honras da casa” e a primeira boa ação do dia, estendendo as minhas pequenas e tenras mãos ao santo padre grandalhão, que, agora de pé, esfregando as mãos sobre a batina como se a quisesse limpar, esbravejava:
-Mais para que diabos vocês fizeram este maldito buraco?
-Vocês não tem mais o que fazer?
-Onde estão os pais de vocês, seus diabinhos?
-Vocês não vão mais à escola?
-É isso que estão lhes ensinando lá?
-Por ser o maiorzinho, de novo, coube a mim dar as explicações que afinal não foram tão difíceis assim.
-Sabe, santo padre, é que ontem á noite estiveram aqui, em comício, Feliciano, Montalvão e outros incontáveis candidatos, pedindo votos para as próximas eleições. E esta imensa valeta foram eles que mandaram abrir para assar os espetos de churrascos com os quais encheram as nossas “pobres e severinas barrigas...”
-Uái, Noquinho, exclamou, contemporizando! – Ele me conhecia de nome. Ia sempre a São Geraldo:
-Se foi Feliciano que abriu. Está aberto! Eu entendo que ele devia ter fechado, mas deve ter se esquecido. Ele é muito ocupado. Depois como você bem disse, foi por uma causa muito nobre. Afinal, matou a fome do povo. Acrescente-se a isso que eu não me machuquei e que por isso ninguém morreu! Pobre, Noquinho, é aquele coitado que vai ali dentro daquela rede. Para ele não tem mais jeito. Tudo acabou. Assim como tudo um dia acabará para todos nós. Vamos, filho, que eu preciso me limpar para batizar vocês, pois dessa vez não vim para dormir aqui. Tenho que retornar ao Brejo ainda hoje. É muito corrida a minha vida, sabe Noquinho! Mais eu gosto disso. É a Missão que Deus me deu da qual pretendo um dia prestar contas a Ele...
Um forte abraço meus queridos conterrâneos Francisco-Saenses e Brejeiros.
Inté...
Enoque Alves Rodrigues
-Sou muito simples para me julgar merecedor de qualquer homenagem. Mesmo assim agradeço aos diletos amigos do Brejo pela lembrança de meu nome. Em Julho ou Agosto, estarei ai para vê-los e recebê-la.
Abraços
Enoque


58146
Por Enoque Alves - 8/5/2010 14:36:21
RECORDAR É VIVER – REMINISÊNCIAS DO VELHO BREJO - 1

Enoque Alves Rodrigues

Buscava nas reminiscências de meu passado algo que pudesse relatar neste valioso espaço, sem que lançasse mão dos originais do livro que escrevi “Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas”, composto de 58 episódios encartados em 320 páginas, o qual ainda se encontra nos originais por não entender oportuna sua publicação agora, quando ao acessar minha caixa de entrada de e-mails:enoquerodrigues2010@hotmail.com, deparei-me com linda missiva do conterrâneo Waldemar P Dias Reis, a qual se refere ao “Fatos e Personagens do Antigo Brejo das Almas - 2”, publicado neste MontesClaros.com do dia 27/03/2010, por remeter-me a episódios de minha infância que se encontravam de certa forma adormecidos no recôndito do ser. Assim sendo peço vênia para que seja aqui publicada na integra, sobre a qual farei alguns comentários a guisa de recordação. Antes, porém, agradeço ao querido Waldemar, a quem certamente conheci em infância apesar de não nos lembrarmos, pelas palavras cordiais e incentivadoras, mais principalmente, pela riqueza de pormenores nelas contidas, fruto, evidentemente natural de uma mente privilegiada, apesar de ser o querido Waldemar, um ano mais velho que eu, o que me deixa, de um lado feliz por ele e do outro lado, com uma "pitadinha de inveja", por eu não poder dispor de uma mente assim.
Ei-la:

"Meu caro Enoque:
Sou um grande admirador de suas crônicas e contos, desde a pouco tempo, quando descobri o montesclaros.com – a partir daí tenho visto tal site, diariamente.
Você escreve e pontua muito bem. Fico ansioso para ver suas crônicas, sempre que entro no site.
Parabéns, você é um colunista convidado muito interessante.
Acho que não o conheço pessoalmente, mas sou seu conterrâneo e devo ser também seu contemporâneo. Nasci em 1952.
Você deve de ter conhecido os meus pais – Santo Lagoa (Santos Dias dos Reis) e Dona Antonia de Santo – Fazenda Vista Alegre – no Mangal. Sou irmão de Zé dos Reis, Lau, Tina, Dadim e outros que você não deve se lembrar.
(1) Enoque: Conheci seus pais, Caro Waldemar, e várias vezes estive no Mangal, na Fazenda Vista Alegre. Lembro-me de seu irmão Zé dos Reis.
Vim para São Paulo muito novo, em 1969 com apenas 16 anos. Morei próximo a estação da Luz, na rua Augusta e na região da Bela Vista, até 1983.
Daí me mudei para Jundiaí, continuei a trabalhar na Capital, até que me mudei para Limeira-SP – em 1997, onde moro atualmente.
Uma a duas vezes por ano, sempre vou visitar meus parentes na minha querida terra natal – Brejo das almas e região.
Com relação ao seu conto, abaixo – conheci pessoalmente os seus avós.
Eu era um dos mensageiros de minha mãe, que duas vezes por mês – ou até uma vez por semana, ia à casa de minha avó – Marcolina, de minha tia Dina/Teotônio e de tio Dô (Rodofino) – na região denominada Furado D’antas ou Furado do Mel, – levar melado de cana, rapadura, tijolo de cidra, batida de melado – e, outras vezes, levava laranja, manga rosa, uma manta de carne de sol – sempre com um bilhete ou carta expressando a saudade de minha mãe.
(2) Enoque: Recordo-me de todas estas pessoas mencionadas por você, querido Waldemar. Creio ter palmilhado todo o solo dessa região quando criança.
Algumas vezes minha mãe ia junto – lá pelos idos de 1962/1966, numa viagem longa, mas que não era mais que 12 Km – montados em bons cavalos. Ela tinha um cião – não sei se é assim que se escreve, mas era uma sela para senhoras montar no cavalo.
A estrada, caminho para a casa de minha avó, passava do lado da casa do Sr. Liberato, daí a minha mãe parava para conversar um pouco com a Sra. sua avó. A Tina – minha irmã, era muito amiga de uma sua tia que não me lembro o nome. A parada sempre durava mais de duas horas e, normalmente éramos servidos com delicioso café com biscoitos fritos, bolos de fubá, queijo e requeijão.
(3) Enoque: Lembro-me, perfeitamente, Caro Waldemar, como se fosse hoje, de sua avó, a Dona Marcolina “proseando” com a minha, Dona Justina, na maioria das vezes em frente a casa da Fazenda “Terra Branca”de meu avô, Sr. Liberato, enquanto o gado pastava lá na pequena serra. A minha tia de quem sua irmã, apesar de aquela época ser tão jovem, era muito amiga, é a tia “Nira”, filha mais velha de meus avós. Tia Nira, hoje com quase 90 anos, vive em Capitão Enéas, com sua irmã, minha tia “Nana”. Era costume de nossa região e família àquela época não deixar que a visita fosse embora sem que antes se tomasse café com biscoitos, broas, queijos, etc. Meus avós, e toda a sua família, como adventistas daqueles tempos, não tomavam café devido a cafeína. Eles utilizavam como café sementes de “fedegoso”, e às vezes batatas ou milho, que uma vez torrados, davam quase que o mesmo sabor do café. Eram vegetarianos radicais. Não comiam carne de nenhuma natureza.
Eu era um menino e ficava observado o Sr. Liberato – de barbas brancas e longas – lendo a bíblia com um outro Sr., também de barba. Eles eram Adventistas do sétimo dia. Foi aí que tomei conhecimento de que existiam outras religiões.
(4) Enoque: Quanta saudade me vem n’alma estas suas lembranças de meu avô, querido Waldemar! Como você consegue se lembrar de tantos detalhes assim? O outro senhor de barba ao qual você se refere chamava-se Laudelino. Não tinha nenhum parentesco, pelo menos que eu saiba, com os familiares de meu avô. Era um “irmão” adventista e vivia com eles. Não obstante serem ambos da mesma religião, divergiam entre si sobre a interpretação de alguns conceitos que concatenavam. Lembro-me, com saudades, de muitas “pelejas” que varavam noites e mais noites, daqueles dois luminares dos adventistas, nos cafundós dos sertões das alterosas. Uma dessas memoráveis “pelejas”, sobre a qual devido ao elevado grau de importância, pois “mexiam com o Criador”, na concepção deles, foi quando em 1969 o homem finalmente chegou à Lua. O irmão Laudelino, assim o chamávamos, defendia, ardorosamente, que isso era mentira. Que Deus jamais permitiria ao homem “pisar” sobre uma Obra Sua. Que tudo aquilo era falácia. Pura invenção desse pessoal que “está ai dentro do rádio” (lá não tinha televisão) para nos enganar... Já o meu avô, Sr. Liberato, “defendia a tese” de que o homem havia ido sim à Lua. Que ele não tinha nenhuma dúvida. Mas se o homem “pisou na Lua” foi porque Deus quis e com toda certeza estes astronautas serão derrubados de lá. Ai ele citava um trecho da Bíblia que nos deixava a todos de cabelos em pé. Isaias Capitulo 14, versículo 14, que dizia assim: “e subirás acima das mais altas nuvens e sereis semelhantes ao Altíssimo. Contudo, jogado serás ao inferno, no mais profundo abismo”. Imaginemos hoje, meu caro Waldemar, como a minha pobre cabeça de menino de seis anos naquela época poderia processar tudo aquilo. O “pior de tudo” é que como eu sempre estava do lado do meu avô, tinha que concordar com sua tese que naquelas alturas definia um “Deus montando suas armadilhas na Lua, há 400 mil quilômetros de altura, para uma vez lá cima, joga-los cá em baixo”!!! A verdade é que eu comentava isso e sorria, sem parar.
Minha mãe contava que os senhores seus avós promoviam uma grande festa, uma vez por ano, que durava uma semana – e falava das cabanas e dos cânticos religiosos. Dizia que era sempre muito bonito, mas eu não me lembro, deveria ser muito pequeno.
(5) Enoque: as festas das cabanas eram realmente algo que fugia aos costumes de outras famílias, não adventistas. Eram muitos bonitas. Não tenho noticia de que ainda hoje existam em algum lugar do Brasil. Creio que não.
Tenho imensa saudade daqueles tempos em que eu era o mensageiro de minha mãe. Na maioria das vezes eu ia sozinho. Ia bem cedo, sempre aos sábados – as vezes dormia na casa de minha avó ou na casa de minha tia Dina e voltava no domingo, pois tinha medo de voltar durante a tarde, por causa da mata densa e alta que escurecia a estrada.
Certa vez fui de bicicleta – um velha bicicleta que meu pai comprou para a comunidade de meus irmãos, que – a muito custo convenci a todos que “não consegui pegar o cavalo” – que eu iria na casa de minha avó, somente se fosse na bicicleta.
Foi o maior erro que pratiquei. Eu mais carregava/empurrava a bicicleta do que fui montado nela. Na descida de uma curva, a bicicleta foi para um lado, eu fui para o outro e as rapaduras ralaram pelas as pedras da estrada. Eu também chequei todo ralado na casa de minha avó.
Bom. Foi só para relembrar um pouco de minha infância pelas bandas de minha querida terra. Aliás, nossa, pois segundo o seu relato – abaixo, a estrada de que você fala é o meio de caminho para a casa de minha saudosa avó.
(6) Enoque: Exatamente. É o mesmo caminho.
As pessoas de que você fala – seu tio Júlio, Sinhozão (Sr. Jacil), Maria de Guida, dona Quinó e outras, eu também tive a oportunidade de conhecer e conviver nesse tempo.
(7) Enoque: Meu querido tio Julio e minha doce e adorada tia Cota, que eram donos da Fazenda “Minas Novas”, que fazia divisa com a Fazenda “Terra Branca”, de meus avós, através do rio, se mudaram depois para Buritizeiro e hoje vivem no Céu.
A Cana Brava, a serra da Masseira (ou maceira), a Fazenda Vaca Morta, Tabua, o Mangal, são lugares que não saem de minha mente, apesar dos 41 anos que vivo fora de lá.
É por isso que acho que temos muitas coisas em comum e, que terei imenso prazer em conhecê-lo melhor.
Fico a sua disposição e aguardo um contato seu.
Um grande abraço.
Waldemar P. Dias Reis"
Um grande e cordial abraço, querido Waldemar. Muito Obrigado pela atenção e por acompanhar minhas crônicas.
Alô “brejeiros”. Aquele abraço... Semana que vem falaremos mais.
Enoque Alves Rodrigues
Vide foto de meus avós em meu blog:http://enoquerodrigues.blogspot.com/2010/05/recordar-e-viver-reminisencias-do-velho.html


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Por Enoque Alves - 1/5/2010 20:06:08
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – FINAL
Enoque Alves Rodrigues
Então, Noquinho, disse-me, Badú, quase que eu ia me esquecendo de te contar: Sabia que lá no Brejo voltou a antiga corrida em busca do ouro que o Sargento Mor Jerônimo Xavier de Souza, escondeu há vários séculos, lá no Morro do Mocó, ou precisamente na Fazenda de Antonio Miranda?
Uái, sô, que conversa é essa, Badú. Todos sabem que isso jamais passou de lenda! Você não se recorda que desde nossos tempos de meninos esse assunto sempre esteve em evidência mais que de concreto mesmo, até hoje não se há nada?
Quantas vezes varamos noites em claro juntamente com inúmeros conterrâneos em nosso observatório próximo ao Cemitério, olhando para o Céu tentando ver a tão sonhada “bola de fogo azul” que segundo se noticiavam, saia sempre por detrás do Morro do Mocó e vinha subindo em direção a sua parte mais alta e, de repente... pfaft: caia exatamente nas proximidades da casa da fazenda de Antonio Miranda, abrindo uma tremenda cratera, sumindo, quase que misteriosamente, solo abaixo, o que mais atiçava a cobiça e curiosidade dos brejeiros que de enxadas, pás e picaretas em mãos, empreendiam uma perseguição frenética e implacável aquela misteriosa bola de ouro, na qual, no entanto, até hoje ninguém jamais conseguiu por a mão?
Sim, Noquinho, voltou a dizer-me, Badú: Mais dessa vez a coisa é mesmo séria. Imagina que até mesmo o Paulo Lambreta viu a tal bola descendo do Céu e no dia seguinte todos rumaram para lá. Foi uma correria danada. De lá para cá o povo não parou mais de procurar. Dá até pena, Noquinho você observar hoje a buraqueira que está a barriga do morro mais ouro que é bom até agora, “necas”.
É possível, Badu, que estes boatos estejam sendo disseminados por alguém que esteja querendo se divertir ás custas de nossa gente simples e pacata... Há quem ainda consiga ver graça em algo dessa natureza.
Pode até ser, Noquinho, mais até eu mesmo estou acreditando que dessa vez eles irão por as mãos nesse tesouro. Começo até a me arrepender de ter vindo para São Paulo. Eu gostaria tanto de estar no Brejo quando este tesouro for descoberto!!!
Quem está liderando esta corrida ao ouro da “Serra Pelada Brejeira”, Badú?
Ah, Noquinho, eu lhe digo: É tudo gente séria: Mateus Velho, Juca Brinco, Carlão da Nena, Zé Veloso, Manel da vovó, Carlinho chocro de “lagoa seca”, Janjão “do caititu”, Mariana da Mata, seu Padrinho “Rosalino e todos os seus camaradas”, Praxedes de “vaca morta”, Eunicinha e seo João “zarôio”, Bimbim e muitos outros que eu não consigo me lembrar.
Bem, disse-lhe eu: pelo que vejo a coisa é realmente séria. A nós que aqui estamos, tão distante, nos resta ficar torcendo para que eles logrem êxito nesse mais novo intento para que, quem sabe um dia, possamos lá retornar e encontrar “todo mundo rico” e o mais importante: “sem fazer muita força!”.
É mesmo, Noquinho: eu rezo tanto pela nossa gente. Peço para que Deus proteja o nosso povo brejeiro. Que os mantenha com essa fé inabalável, sempre! Que faça com que o tão cobiçado e perseguido ouro do “maldito” Bandeirante, um dia apareça. Mais, se porventura, não for possível Ele me atender, que pelo menos mande chuva para que as plantações cresçam viçosas e possam encher o nosso Brejo de fartura... O Brejeiro, Noquinho, como você sempre disse, é um caboclo que nasce predestinado a por a mão no ouro fácil do Bandeirante, lutar, tenazmente pela sobrevivência sem sair do Brejo, ou, o mais provável assim como nós e muitos outros fizeram: Largar o Brejo em busca de um futuro melhor. Para que um dia possa retornar ao Brejo em condições melhores. Não tem outro jeito, não... O homem que nasce em Francisco Sá, ou melhor, em São Gonçalo do Brejo das Almas, ou já nasce rico, e ai terá sempre o privilegio de lá permanecer, ou se nasce pobre, não lhe restando nenhuma outra alternativa, senão esperar pela “bola de fogo” do Morro do Mocó no Brejo ou “dá no pé. Cair no Mundo. Fazer rastros pela vida. Sun Paulo direto...”
Falávamos, quando, eis que de repente surge à nossa frente a “figura” do Mestre da Obra, “Seo” Zé Ivan, Paraíba. O que é que “vocêis” tanto conversam, “dois meninos?”, indagou-nos.
-Estamos aqui, em nosso intervalo, “grande mestre”, recordando do nosso “brejo”, de nossa gente...
O Mestre José Ivan da Silva Furtado, de quem já tive a oportunidade de falar aqui, era realmente uma figura. Senão vejamos:
Dois metros e seis centímetros de altura. Barriga saliente. Dois reluzentes dentes caninos cobertos de ouro os quais ficavam sempre a mostra, devido o querido mestre possuir lábios leporinos. Trajava-se à caráter, ou melhor a moda de Mazzaropi e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pois usava camisas folgadas, em tecido xadrez, preferencialmente remendadas, com duas grandes algibeiras, onde numa ele punha seu inseparável “romance de cordel” que por ele não saber aquela época ler, era minha a atribuição de fazer a leitura dessas obras para ele, obras estas de grande aceitação entre os nossos irmãos nordestinos de onde ele provinha. Na outra algibeira, ou seja, na do lado esquerdo, “do lado do coração”, ele colocava a foto de sua adorada, porém muito distante esposa, “Dona Sabastiana” que ficara em sua querida Campina Grande. A calça que ele usava, era sempre a famosa “arranca toco”, pois nunca passava da metade da canela. Isso muito o assemelhava ao jeca dos cafundós do Brasil tão bem representado pelo Amacio Mazzaroppi, o jeca de Taubaté, mais que na verdade, nasceu no Bairro do Brás, aqui na Capital de São Paulo. Até mesmo a forma de prender o cinto sobre a camisa “na boca do estômago” era idêntica. Nos bolsos laterais de sua calça “arranca toco”, o mestre punha do lado esquerdo, seu “patuá” onde trazia fumo de rolo picado, palha de milho para cigarro e uma não menos inseparável “binga”. Sim, não era isqueiro. Naquele tempo era binga mesmo. Consistia aquela pequena geringonça numa pequena pedra, uma barrinha chata de aço, um pedacinho de chifres com algum pó dentro. Quando o Mestre queria pitar, para fazer fogo, ele atritava a barrinha de aço na pedra sobre o chifre cujas faíscas acendiam o tal pozinho sobre o qual ele levava o cigarro. A semelhança com o Lampião estava no chapéu de couro, do qual o Mestre não abria mão, apesar da obrigatoriedade do uso de capacetes brancos para sua função, preferia seu velho chapéu que compunha de três estrelas sendo a maior delas localizada ao meio da aba quebrada do chapéu. Um tanto “sinistra” a figura do Mestre Zé Ivan, mas jamais convivi com pessoa tão bem humorada, simpática e cordial. Quando eu lia para ele nos intervalos do almoço, a “peleja de Lampião e Antonio Silvino” na tal Literatura de Cordel, quando chegava na fala de Lampião: “Minha mãe, voltei pra trás. Não fiz mais porque não pude. Deixei sangue derramado. Que dá para encher açude. Para vingar a morte de meu pai. Só quero que Deus me ajude...” O Mestre ouvia essas “balelas” com tanta atenção, compenetrado, mesmo. Como se versos fossem de Antonio Frederico de Castro Alves, o grande Poeta dos Escravos. Ao final, dava uma longa e interminável gargalhada e exclamava! “Eita que tremendo cabra-macho era esse Lampião... Tá veno, Zé Agusto. (Era assim que ele me chamava). Home de tutano e corajoso como Lampião, só se faz lá no Norte. É por isso que eu tenho muito orgulho de ser de lá...”
-E este tal de “Brejo” que vocês tanto falam, “Zé Agusto”, é um buraco ou é uma lagoa?”.
-Não, querido Mestre, Francisco Sá, ou como carinhosamente ainda hoje a chamamos “Brejo das Almas”, é uma Cidadezinha encravada em um cantinho estrategicamente reservado pelo Criador desde os primórdios dos tempos, para nos servir de berço, da qual, assim como o senhor ao se referir a sua Terra, também muito nos orgulhamos e amamos, apesar de ela ainda não nos oferecer o suficiente para que lá vivamos, ou talvez, quem sabe, são os nossos sonhos e anseios bem maiores que as nossas necessidades.
-Entendo “Zé Agusto” e Badú: As coisas na maioria das vezes não são tão “difices” assim. “É nóis que fazemo com que tudo seja ruim mais na verdade a vida é um colosso.” Sábias palavras para uma pessoa culturalmente tão simples como o Mestre “Zé Ivan”. Juntos, convivemos vários anos naquele e em outros projetos. Ao me formar, me transferi de empresa, mas levei-o comigo. Não poderia me afastar daquele Anjo de Luz e Bondade que tanto me ajudou. A duras penas consegui com que ele se alfabetizasse. Criou gosto pela leitura. Descobriu os segredos do “be-á-bá”. Aposentou-se mais não quis parar de trabalhar, apesar de ter conseguido seu pequeno quinhão que lhe permitia agora uma vida mais tranqüila. Parar, não, “Zé Agusto”. Parar enferruja e morre... Só que as suas pobres vistas, apesar de seus óculos de fortes graus, não mais correspondiam. Dessa forma tocava a mim, agora, com o peso de todo o projeto e execução de uma obra sobre as costas, seguir fazendo a “leitura do meio dia” da Literatura de Cordel, para o agora velho, alquebrado, mais eternamente amantíssimo Mestre. Era o mínimo que eu poderia retribuir a quem tanto por mim fizera. Lealdade, fidelidade, simplicidade, cordialidade, respeito e dedicação aos que um dia em uma curva qualquer do destino nos estenderam à mão, são sentimentos puros de quem deseja vencer na vida. E tome cordel de Lampião sobrepujando seu desafeto Antonio Silvino, em seu relato a sua mãe: “era ele doente. Todo levado das brecas. Não tinha força nos braços. Nem tampouco nas munhecas. Sofria ele, paludismo. Doença que ataca o Jeca!..”
Um grande abraço brejeiro para vocês, meus queridos conterrâneos.
Inté...
(...)


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Por Enoque Alves - 22/4/2010 12:08:18
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – 4
Manhã ensolarada de um Domingo qualquer do mês de Dezembro. Coisa rara em Sampa que aquela época se intitulava “a terra da garoa”. Em meu alojamento que se encontrava no primeiro andar da obra em construção, me via cercado por centenas de apostilas. Eram do curso Supletivo, pois tendo eu retomado os meus estudos aqui, não havia outra maneira de recuperar o tempo perdido senão através dos famosos “intensivões”. Fiz o primeiro e o segundo graus em uma das melhores escolas daquela ocasião, a qual ficava no Bairro da Liberdade.
Adiantamento no bolso, única oportunidade no mês em que me sobrava alguns “tostões” para uma simples “farra” como almoçar na antiga “Sopa Paulista”, que ainda hoje, só que com outra roupagem bem mais modesta, permanece na Avenida São João, aqui no centro de São Paulo, onde eu, quando podia, ia saborear um franguinho à caçadora, preparado pelo Chinês, “Seo Woo Shon”, cujo prato, além de demasiado saboroso, era também o mais barato do cardápio e aproveitava para ir assistir um filme "bang-bang", no antigo e não mais existente "Cine Sacy, na Rua Formosa. Eis que, inesperadamente, chega o colega "Peão" Badú. Ele morava também nos alojamentos da Obra, só que nos andares de cima, já que o primeiro andar, onde ficava meu alojamento, era destinado aos Setores de administração da obra, como almoxarifados, apontadoria, engenharia, alojamentos do pessoal administrativo, etc. Eu era apenas ajudante, mais um ajudante “muito especial”, pois eu era “cachimbo” do Mestre “Seo Zé Ivan”, Paraibano de quatro costados. Quais eram, afinal, as atividades de um “cachimbo de Mestre de obras”? Explico: eu era aquele sujeito que além de fazer todas as atribuições de um ajudante. –Vocês viram na pauta anterior eu empurrando “gericas de concreto”-, ainda, devido ser eu à época um dos poucos ali, que sabia ler e escrever, era, sem nenhum outro privilégio a não ser o do alojamento na administração, convidado nos finais de expedientes pelo Mestre “Seo Zé Ivan”, a escrever o que ele me ditava em nossas percorridas pelo canteiro de Obras. Curiosamente, o Mestre “Zé Ivan” não me tratava pelo meu nome de batismo. Ou seja, por Enoque ou “Noquinho” como os demais. Ele me chamava de “Zé Agusto”. Sim, a grafia “Agusto” está correta. O ilustre Mestre, não obstante ser o “degas” na atividade de gerir uma construção (muitos foram os estagiários de Engenharia que passaram pelas suas competentes mãos), era analfabeto, coitado, de nascença, pai e mãe, além de possuir a língua presa ao céu da boca, que muito lhe dificultada o falar. Intrigado, perguntava-lhe eu às vezes: Mais porque “Zé Augusto, querido Mestre”? . Respondia-me: Porque você é muito parecido com o cantor “Zé Agusto” que faz sucesso na televisão, no programa do Silvio Santos, cantando a música “De que vale ter tudo na vida...De que vale a beleza da “fulô”...Se eu não tenho mais seu carinho...Se eu não sinto mais teu calor!” Claro que jamais tive eu qualquer semelhança com o Cantor deste grande sucesso que era só o que se ouvia nas rádios de então. Mais quem era eu para questionar, tentar convencer ou contrariar o Mestre “Zé Ivan”? Perfeito, grande Mestre, dizia-lhe eu: Já que é vossa vontade que eu me sinta parecido com o Cantor José Augusto, tudo bem. Só lhe imploro que não me peça jamais para cantar! Pois ao contrário do que dizia a linda música, da vida eu não tinha nada a não ser a vontade de lutar e vencer e até aquela ocasião, nenhum grande ou pequeno amor tivera eu de cuja perda teria que lamentar... O Mestre sorria com seu cigarro de palha e fumo de rolo preso aos dentes...
Ok, “Zé Agusto”, pegue sua prancheta e vamos logo percorrer a Obra. Ele ia ditando. “Anota ai, Zé Agusto”. Capricha na letra porque isso ai vai para o “Diário de Obras” que é lido pelo “Dr. Dirceu” –naqueles tempos engenheiro era tratado por doutor-. “Chapisco no teto do 10º ao 12º andares”... “Armação de ferragens e formas dos pilares do 14º andar”...”Enchimento das vigas de arranque da garagem do térreo”...”Tamponamento das bocas das lixeiras dos andares 4º ao 7º”...”Inicio da alvenaria com tijolos baianos no 8º andar e amarração com tijolinhos comuns”... “Aplicação de massa corrida nos tetos dos 2º e 3º andares”, etc. Ah, não se esqueça. Anota ai: “fartaram” hoje, quatro peões, sendo dois "meia cuié" (meio oficial de pedreiro), um “selvente” e um “carapina” (carpinteiro). “Deve ser os pileques do final de semana”! Falando nisso, você bebe, “Zé Agusto?”... Não, Mestre, jamais bebi! Você é que faz bem, bom menino... Pinga é a perdição de “carqué home!”, dizia-me.
Bem, voltando á visita de Badú, ele viera até meu alojamento para bondoso como era, me responder algumas das muitas perguntas que eu lhe fizera naquela semana na qual não havíamos tido tempo de voltar a falar.
Pois é, Noquinho! Como hoje é Domingo e nós não “trabalha” vim aqui para lhe atualizar sobre o nosso Brejo das Almas e suas almas queridas que lá estão:
- Pra começar, seu “Dindinho” não anda muito bem e sua “Dindinha” anda meio perrengue. Talvez sejam já os sintomas da idade avançada de ambos. Pois “seo” Liberato já beira os noventa e “Sá” Justina também não fica para trás.
- Quanto as nossas queridas Professoras, faz tempo que não as vejo, Noquinho. Desde que nos mudamos para a Cidade de Francisco Sá, não retornei mais a casa delas. Mais eu acho que está tudo certo, porque se alguma coisa de ruim tivesse acontecido com elas, com certeza eu já saberia.
- Sobre o pessoal que vive lá “dentro do Brejo”, eu posso lhe dar todas as informações que você me pede, pois, nada mudou no nosso “Brejo”. Por incrível que pareça, ele continua do mesmo tamanho. Dessa forma, vejo todos os seus personagens todos os dias. Exceto os “Silveira”, que como você sabe, desde há muito que se mudaram para Montes Claros. E você sabe, “atravessou o rio verde grande, dificilmente volta!”.
- O Bar “estica o braço” do “seo” Neuzão, Noquinho, não existe mais. Parece que ele teve umas desavenças familiares e o pobre tem passado a maior parte do tempo cabisbaixo, meditabundo, sei lá!
- Quanto a Pensão da Dona Quino, continua muito movimentada. É um comércio muito “rendoso”, pois, como você sabe, nossa cidade ainda não tem uma Rodoviária e todos os motoristas e passageiros que vem de Salinas, Taiobeiras, Grão-Mogol e outras da região fazem ponto lá. A Dona Quino está muito bem de saúde e lhe manda muitas lembranças. Elas ás vezes se põe a recordar de quando você partiu rumo a São Paulo e do que ela lhe disse. É muito bom Noquinho ser querido por pessoas que nem parente sua é.
- A respeito daqueles nossos amigos, aos quais à maioria, chamava de “loucos”, mais que na verdade, de loucos não tinham nada, estão todos muito bem. Roberto Carlos do Mato, que é o piorzinho deles, é que não anda muito bem. Voltou a ter aqueles desmaios epiléticos, mais é passageiro...
-Uái, Sô, disse-lhe eu: Que desmaios são estes. Jamais os tivera antes. Ao menos que eu saiba.
- Tinha, sim, Noquinho. É que nós nunca podemos saber tudo das pessoas!
- E “Zezim tocador?”.
- Não anda muito bom não, Noquinho! Já não faz mais as “famosas garrafadas” e já não se anima mais a ir para as fazendas “expulsar cobras”, porque, parece que os espíritos já não o atendem mais. Da Outra vez foi lá na Fazenda Vaca Morta...Subiu no mourão da porteira. Deu suas ordens em voz alta para que as cobras saíssem e, sabe, Noquinho. Não saiu uma cobra sequer. Perdeu a “otoridade sobre elas”. Elas não o respeitam mais. O que resta agora do “Zezim tocador” é seu cão que continua lhe prestigiando com seus latidos enquando toca a sanfona... Mais sabe, Noquinho. Até isso não tem mais a intensidade de antes!
- E sobre os dois riachos, Badú, o que você me diz?
- É triste, Noquinho, mais eu tenho que falar. As águas dos dois riachos onde íamos tomar banho já não são mais claras e azuladas como antes. Parece que andaram “mexendo” lá na cabeceira deles, pois á água agora vem meio que barrenta. E nem precisa chover para que isso aconteça.
- E a Serra do Catuni?
- Bem, Noquinho. Essa sim, continua lá faceira e imponente com sua altitude de 900-1000 e 700-650 metros em média, inalteráveis. Assim como continua lá a nascente do rio São Domingos e outras atrações. Ela continua a varrer as ruas empoeiradas de nosso Brejo com o seu assoprar de ventos fortes, uivantes e ensurdecedores, nas tardes primaveris. Falando em rios, todos os demais leitos, salvo alguns que já secaram, continuam a trilhar as mesmas trajetórias: ribeirão de cana-brava, pau preto, do brejão, o mamonas, o quem-quem, traçadal, o rio boa vista, vaca-brava, córrego dos patos, o caititu, da prata e o córrego rico. O rio gorutuba que continua a formar em seu leito lindos blocos de areia e o que para nós é o maior de todos, o rio verde grande que, viu, Noquinho, continua sendo o marco divisório de nosso município, ou seja, Francisco Sá, “Brejo das Almas” do de Montes Claros.
- Você não me perguntou, mais eu vou lhe falar: Lembra-se da “Lagoa da Barra” que fica na Fazenda de mesmo nome?
- Lembro-me, perfeitamente! Uai, o que aconteceu com a Lagoa da Barra?
- Nada! Continua, também lá. Só que sem peixes!
- Uái, sô. E para onde se foram os peixes?
- Sei, não, Noquinho!
- E O Clube Campestre? Perguntei-lhe, já que me falava da Lagoa da Barra!
- Continua lá! Mais pobre não entra! Somente a nata mais abastada que vem de Montes Claros. Lá, “proleta” não pode nem chegar perto.
- Ah, outra vez eu estava me esquecendo: A sua tia Cota, o seu tio Julio e o seu primo Vadinho, donos da Fazenda Minas Novas, estão muito bem. As plantações estão muito viçosas. A colheita do arroz, alho, feijão e milho prometem ser de muita fartura. As moagens da cana já estarão começando e pelo que podemos notar, vai ser muitas rapaduras, melaço e “puxa de ciidra” que sua tia Cota vai fazer e que lamentavelmente lá não estaremos para comer.
- Badu, meu querido. Interrompi-lhe: falando em comer, lembro-lhe que hoje ´´e Domingo e um dos poucos dias em que disponho de algum no bolso. Convido-o para ir comigo almoçar no “Sopa Paulista”. É tudo por minha conta! Depois você me conta mais.
- Tá bom, Noquinho, respondeu-me. Da outra vez fui eu quem lhe interrompeu lembrando de nosso horário de retornar ao batente. Dessa vez é você quem me interrompe. Só que por um motivo muito “mais nobre” que é “comer”, já que como se falam por ai, “saco vazio não para em pé”. Vamos, então!!!
Um grande abraço “brejeiro” meus conterrâneos de Francisco Sá, ou melhor: de São Gonçalo do Brejo das Almas!!!
Inté!
Enoque A Rodrigues
De, São Paulo, SP.


57431
Por Enoque Alves - 19/4/2010 21:20:59
JOVENS - SEJAM SOLIDÁRIOS, SEMPRE!

Por certo, não desconheces as conseqüências dessa onda de egoísmo que recrudesce no seio social, toda vez em que os valores educativos não se fazem prezados.
A bem da verdade, bem poucas têm sido as pessoas ocupadas em trabalhar essa dimensão da personalidade, qual seja a do altruísmo, tornando-se úteis à dinâmica da vida planetária.
Encharcados de personalismo, os indivíduos falam somente de si, disputam nonadas para si, recorrem a favores diversos apenas para si, sufocando-se no esquife do egoísmo, mais e mais.
Nas atividades cotidianas, esses egoístas aproveitam-se de todas as chances possíveis para driblarem os outros, tendo a sensação de serem mais astutos, mais vivos, mais sabidos, dando vazão ao intimo doente.
Se devem enfrentar as filas variadas, desse ou daquele tipo, para serem atendidos a seu tempo, tratam de descobrir pessoas conhecidas, localizadas à frente, que lhes facilite passar para posições privilegiadas, quando não invadem abusivamente, elas mesmas, o espaço dos que aguardam dignamente. Crêem-se mais apressados ou com mais compromissos que os demais.
Entretanto, para o egoísta, tanto faz seja a fila bancária, ou dos cinemas e outras diversões, o que deseja é passar à frente dos outros, porque lhe impacienta a espera ou por vício, sempre alimentado.
Os males do caráter, desenvolvidos e alicerçados no egoísmo, não se limitam.
Nas conduções populares, o acomodado egoísta vê pessoas idosas, mulheres gestantes, criaturas visivelmente enfermas, viajando de pé, sob ingentes sacrifícios, sem qualquer sensibilização, mantendo-se assentados, indiferentes.
Em outros momentos, vemos crianças e moços assentados, ao lado de seus pais, que acompanham a tudo, fazendo de conta que não estão vendo ou entendendo o que se passa.
A disputa generalizada por entrar ou sair primeiro dos lugares de muita gente, quantos acidentes há provocado? E os desentendimentos e guerras mentais que se somam, incontáveis?
A marca do egoísmo, assim, mostra-se em toda parte, entre as mais diversas personalidades.
Avaliando esse quadro que se forja nos grupos sociais, percebe, meu jovem companheiro, quantas ocasiões de conquista salutar para a alma têm sido postergadas.
Verifica, desse modo, como tens agido, em relação à gentileza. Se constatares que não tens estado sintonizado com ela, esforça-te para alcançá-la.
Se te encontrares em algum transporte coletivo, valendo-te do vigor da tua mocidade, não esperes que te solicitem. Oferece o teu assento para quem dele precise, demonstrando os valores que te lucilam no íntimo. E é tão pouca coisa.
Evita que tombe uma gestante ou um velho; impede que se fira uma pessoa obesa ou doente, e sintas as alegrias de ser útil.
Diante das filas, enfrenta-as. Tu podes fazê-lo. Se tiveres pressa, chega mais cedo. Não sobrecarregues os amigos que encontres com teus pedidos, embora possas pedir a alguém que te guarde o lugar e, quando chegues, esse alguém, então, sairá.
A virtude costuma parecer tolice, quando começamos a exercitá-la. Depois, transforma-se em luz tão ampla que não mais a dispensamos.
Ao atravessar a via pública, vê se por perto não haverá um velhinho, um cego, alguém a quem possas ajudar na travessia. Far-te-á imenso bem essa atitude.
Coopera com alguém que sobe ou desce uma escada com fardos e bolsas pesados. Dá-lhe pequena ajuda e recolhe, nas vibrações agradecidas, verbalizadas ou não, as alegrias de servir.
Abre uma porta para esse ou aquele, dando-lhe passagem, gentilmente, seja em tua casa, seja num elevador, seja onde for, e sintas a euforia de ser atencioso.
À principio, terás que fazer esforços; com o tempo a gentileza será parte de ti.
Juventude, se pretendes influir no mundo para modificar-lhe as bases de vida social, que sabes tão complexa e perturbadora, começa com teu empenho, com a tua contribuição.
Na gentileza exemplificada por ti, verás que a postura egocêntrica vai sendo transformada, e que, ao te sentires mais leve e feliz, não te preocuparás com a gratidão ou não dos beneficiários da tua solicitude, porque, para o teu coração, valerá a cooperação que prestas à Vida, a cooperação com a Obra de Deus.
Segue, então, adiante. Contagia os teus amigos e afetos com a tua atitude gentil, ajudando a extinguir o egoísmo do mundo.
Pensem nisso!
Enoque A Rodrigues


57335
Por Enoque Alves - 17/4/2010 20:18:04
OLYNTHO DA SILVEIRA – MINHA TERRA E A NOSSA HISTÓRIA
Com grata satisfação registro aqui neste valioso espaço, a beleza, elegância e encanto com que o grande e inesquecível filho de nossa Querida Francisco Sá, “Brejo das Almas”, Olyntho da Silveira, recentemente desaparecido, tomado aos Céus que fora por Deus, documenta com tamanha riqueza de pormenores fatos de suma relevância de nosso antigo “Brejo” e de seus antepassados, em seu livro “Minha Terra e a Nossa História”, escrito em 1969. Membro da Academia Montesclarensse de Letras e da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, o que muito lhe orgulhava, apesar de sua peculiar e congênita modéstia, talvez tenham sido apenas estas, não obstante tão importantes honrarias, os únicos reconhecimentos que o nosso querido Olyntho, a quem não tive o privilégio de ter conhecido pessoalmente, tenha recebido em vida.
De há muito, ou quiçá, desde meus tempos pueris, sou suspeito para falar da família Silveira de Brejo das Almas. Certamente que por mais que se possa enaltecer a importância que teve todo o numeroso “Clã Silveira”, desde os tempos do velho Jacinto e sua dileta esposa Dona Maria Luiza, pais “dos eternos meninos da pena de ouro e grande tino para a escrita”, Olyntho e Geraldo Tito, para o nosso Brejo, o tempo, grande senhor da razão, ainda não se encarregou de fazer-lhes justiça, colocando-os no alto do pedestal da história dos grandes, cujo patamar lhes é de direito.
Brejeiro como eles, possuo o dom do “matutar mineiro”, observo que, de quando em vez, surge na vida pública Brasileira, figuras deletérias, que pouco ou nada fizeram em prol de alguém ou de toda uma comunidade, mais que, como num passe de mágica, da noite para o dia, são transformadas em eternos “salvadores da pátria”, endeusados e coroados como se reis fossem, mais desprovidos de qualquer ação exponencialmente concreta em beneficio de outrem.
Os feitos da família Silveira a começar pela sua luta em busca da emancipação daquele povoado de Brejo das Almas, encravado lá nos cafundós do norte de minas, por si só, já seriam mais que dignos de todas as honrarias. Defendia com “unhas e dentes” o progresso aquela época tão distante, para aquele povo, aquela gente... Muito ao contrário do que hoje se vê, quando a grande maioria, mergulhada em cruel egoísmo e adepta do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, os Silveira de Brejo das Almas, Francisco Sá, brigavam em nome de uma causa que se denominava melhoria coletiva sem individualismo. Ou se tinha para todos ou não se tinha para ninguém. O foco. A meta perseguida era o beneficio do povo.
Relata o grande Olyntho em seu livro, que tardiamente me chega às mãos, fatos que dão a conotação exata, respeitando o grande lapso de tempo nos quais se deram, que nos dias atuais, seria impossível de se acreditar que os mesmos venham a se repetir, com o mesmo denodo, devotamento de amor a causa de um povo e despojamento de interesses materiais. Sim, os Silveira, eram ricos “de nascença” e em nome da “causa do brejo”, muitos deles abriram mão de suas fortunas e em paralelo a sua causa, foram à luta em busca da própria subsistência. É ou não é um grande gesto de nobreza.
É isso ai, meu povo. Meus conterrâneos Brejeiros. Muitos motivos temos hoje para nos orgulharmos de nossa Cidade, de nossa gente, de nosso hino: “Do Catuni ao rio verde. Do prata ao rio do prego. És sempre rico e formoso. Só não vendo quem é cego. Brejo das Almas ou Francisco Sá. Igual a ti, outra não há...” e de tudo de bom que ela “lhes” oferece. Eu digo “lhes” porque você sabem perfeitamente, meus brejeiros, que há muito tempo não vivo mais ai. Mais também sabem que espiritualmente jamais me afastei do Brejo. Talvez, mesmo longe, modéstia à parte, poucos estejam tão sintonizados com o Brejo, com suas virtudes e suas mazelas, quanto eu. Por isso, como vinha dizendo, antes de nos orgulharmos de nossa linda Cidade, orgulhar-nos-emos dos nossos antepassados que a fizeram. Dos que lutaram incansavelmente para que ela hoje pudesse ser o que é. Orgulharemos dos “Silveira”, dos “Dias”, dos “Pereira”, dos “Xavier”, dos “Oliveira” de onde provêm Feliciano, dos “Mineiro de Souza”, dos “Rodrigues e Seabra” e quem sabe um dia, desculpem-me pela pretensão, mais pode ser daqui a quinhentos anos mesmo. Sou “humirde” desse pobre “Alves Rodrigues”, brejeiro, que aqui vos fala e tanto lhes “enche o saco” tamanha a paixão e entusiasmo com que discorre sobre sua Terra querida.
Um abraço brejeiro para vocês meus conterrâneos.
Enoque A Rodrigues.


57141
Por Enoque Alves - 12/4/2010 13:33:44
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – 3

Você é Mineiro?
-Perguntou-me, lá pelos idos de 1973, um peão de obras, quando trabalhávamos na construção de um grande edifício na Rua Santa Helena, em São Paulo.-
-Não, sou Montanhês, respondi-lhe-.
-Mas, Montanhês, de onde?-, voltou a indagar-me. Montanhês, porventura não é o mesmo que Mineiro? Você não nasceu em Minas?
-Bem, voltei a responder-lhe, depende da maneira como você define esses dois gentílicos. Em minha concepção a sua definição está corretíssima, mas quando digo que sou Montanhês ao invés de Mineiro, estou me referindo que tendo eu recebido a graça de ter nascido numa área geograficamente montanhosa das Minas Gerais, onde há mais montanhas que minas, me considero mais montanhês que mineiro, apesar de que também, por lá, darmos nossas “pauladinhas” com algumas minas que ali existiam e que foram o fruto da cobiça de muitos bandeirantes, tanto é verdade que minha cidade foi uma das que foram fundadas por bandeirantes, ou seja, Antonio Gonçalves Figueira, a busca do ouro, nas quebradas dos sertões do norte de minas.
-Entendi-, disse-me, outra vez o colega Peão: Você, pelo que diz é Francisco-saense, assim como eu, que inclusive conheço seus avós, e estudei com você, lá em São Geraldo, nas décadas de 50/60.
-Já que você não se lembra mais de mim, me apresento: “Sou o “Badú”, filho da Dona “Dazinha” esposa do “Seu Lau”, açougueiro, e a nossa Professora era a “Dona Ana Lucília Silva Garcia”, aquela linda pernóstica, e depois foi a “Dona Florisbela Martins Ferreira”, lembra?-
Como não me lembraria. Depois de tantos detalhes? Passei ali, naquele povoado pertencente ao Município de Francisco Sá, “Brejo das Almas”, memoráveis momentos de minha infância entremeados por bons e maus, dentro do que se pode proporcionar uma infância “Severina”, que ainda hoje repousa no recôndito de minha mente, mesmo tendo conseguido, a duras penas, mesmo longe de minha terra, o meu “lugarzinho ao sol”.
-Ótimo, Badu-, disse-lhe eu, vamos fazer aqui uma pequena correção para seguirmos proseando-.
-Não somos Francisco-Saenses. Somos “Brejeiros”!”. Deseja que eu justifique o porque?-
-Não, Noquinho, obrigado! Sendo eu dois anos mais velho que você, me lembro perfeitamente, de quando na escola, a professora lhe mandava fazer uma dissertação sobre “nossa cidade”, com que eloqüência você falava. O Ruim era que você não parava mais e deixava todos nós cansados...
-E os seus pais, Badu, onde estão?-
-Estão lá, no Brejo. Todos bem, Noquinho, respondeu-me-.
-E você tem ido “no Brejo”? Voltei a lhe perguntar!-
-Tenho, sim, disse-me. Inclusive retornei de lá faz 20 dias-
-Oh, meu amigo, disse-lhe eu, outra vez, quanta saudade tenho daquelas nossas plagas! Há três anos que não vou lá. Desde que cheguei aqui em “São Paulo”, sozinho, reiniciei os meus estudos e a minha meta é ser Engenheiro, dos bons. E você sabe que não é fácil “trabalhar, estudar e queimar lata”. Mais é assim mesmo, vou levando enquanto Deus quer-.
-Conta-me, então, Badu, sobre o “Brejo” e nossa gente!-
-E as festas de Nossa Senhora do Rosário, do Divino Espírito Santo e de São Benedito que ocorriam no mês de Setembro, ainda existem?-
-Sim, Noquinho. E por mais incrível que possa parecer, ainda continuam a acontecer no mesmo mês Setembro!-
-Ué, respondi surpreso, o que há de estranho nisso?-
-É...respondeu-me-, que eles deveriam variar um pouco de mês. É muita festa para um mês só. Não sei porque lá eles prestigiam tanto o mês de Setembro.
-E os Catopés? Provoquei-o.-
Sei lá, Noquinho!
Nesse ínterim, veio-me a mente alguns dos antigos personagens do Brejo que de alguma ou outra maneira, cada qual a seu modo, ajudaram a escrever lindas historias do lugarejo:
-Como andam o “Seu” Antonio e a Dona Edith, doceiros?-
-Morreram Noquinho, sendo que Dona Edith partiu primeiro!-
-Fale-me, da linda serra do catuni, do morro da maceira, dos dois riachos onde íamos nadar, dos “picolés de pinga” criados e servidos no Bar do Zé Galvão, cujos picolés só existem no Brejo, da alameda, da Praça Jacinto e Mariquinha Silveira, da pensão da Dona Quinó onde os ônibus que vinham de Taiobeiras, Grão-Mogol faziam seu ponto final, da Casa Branca e Costa Negro do velho Rogério, do Bar Estica o Braço do “seu” Neuzão onde eu passava para entregar as raízes que retirávamos do solo para ele por nas suas garrafadas com as quais serviam seu fregueses, do Bar Pé na Cova que fica quase dentro do cemitério, da casa Viena, das grandes pastagens de algodão, das imensas e infinitas plantações de alho, do Bar da Barbina, de onde observávamos toda a serra, etc...etc...etc...
É muito grande minha saudade de tudo e de todos do Brejo. Fale alguma, querido Badu, sobre aqueles seres que tanto apreciávamos, como: Zezim Tocador e seu cão que sempre latia enquanto ele dedilhava sua sanfona, de Pascomiro, Feliciano Oliveira, Olyntho, Geraldo Tito e Yvonne, do Padre Silvestre Classen que nos batizou, de Antonio Benzinha, do velho Mateus e Paulo Lambreta, de Mané da Vovó, de Zé Veloso, da Dona Quino, de Maria Bocão, do Miro, da dona Carla de Benê, de Roberto Carlos do Mato, do João Banana, de Zé Trindade, de meu Dindinho Liberato e de Minha Dindinha Justina, lá na Fazenda Terra Branca, fale-me também de meu Tio Júlio, de minha Tia Cota e de meu Primo Vadinho, enfim, conta-me tudo...Necessito mais que nunca saber, para que eu possa seguir por aqui lutando até obter condições de lá retornar para abraçar e beijar a todos...
-Badu, fulminado por tantas perguntas para as quais ele certamente não teria as respostas, mas que, bondoso como era, tentava de certa forma satisfazer minhas curiosidades e desejo do saber sobre a terra querida, assim começou-.
-Sabe, Noquinho! Eu queria muito ter as respostas para tudo o que você me pergunta. Mais o grande problema é que eu não vou poder te ajudar, pois são muitas as perguntas que você me fez, que, lamentavelmente, acabaram me “canfundindo as idéias” e não sei se você sabe, mas nós estamos em nosso horário de almoço e daqui a pouco o “enxadão da obra” vai bater meio dia e você mesmo sabe que o Mestre, “Seo” Paraíba Zé Ivan, não dá moleza. Temos ainda muitas “gericas” de concreto para colocar sobre o guincho para encher a laje do 14º andar e se a gente não conseguir, não vamos receber as “horas prêmio” no fim do mês e ai, sim, Noquinho, é que você nunca mais vai poder voltar para o Brejo. Vamos trabalhar, porque senão o seu sonho de ser engenheiro é que “vai pro brejo”. Depois a gente conversa com mais tempo. Hoje com certeza não vai ser mais possível, pois vamos “ficar no serão” até tarde. Um outro dia quem sabe!!!
Um forte abraço meus conterrâneos “Mineiros”... “Montanheses”...”Francisco-Saenses”... Ou melhor. Querem saber? É esse o nosso gentílico mesmo! “Brejeeeeeeiros”. Somos nós, com todo orgulho!
Inté...
Enoque A Rodrigue, de São Paulo.


56841
Por Enoque Alves - 3/4/2010 17:16:11
EVOLUIR SEMPRE
Calor escaldante em alguns países, frio intenso em outros, inundações, terremotos, levam o ser humano a perguntar: “Por que tudo isso?”. “Onde está a bondade Divina?”
Em fatos isolados ou não, o acaso não existe. Tudo tem a sua razão de ser.
De um lado, a evolução do Espírito, que é imortal. De outro, a da sua morada.
Os Espíritos que habitam a Terra são, na sua grande maioria, seres em desenvolvimento e aprendizado básico frente às leis imutáveis do Criador, especialmente do ponto de vista moral.
Nosso Planeta é um corpo celeste relativamente novo, cuja “maturidade” vai se fazendo aos poucos, obedecendo as leis da física, que são também obra da Providência Divina.
Estagiar alternadamente nos dois planos da vida é necessário: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Provas e expiações fazem parte desse contexto, tanto as individuais como as coletivas.
Diariamente, a cada hora, a cada minuto, muitos milhares de pessoas desencarnam no mundo inteiro. Poucos tomam conhecimento e se comovem, lembrando a fugacidade da existência material e a importância de valorizar os talentos da alma.
As grandes calamidades, tem a ver com o determinismo do Alto, que age nos fatos, e servem, também, para nos sensibilizar promovendo a solidariedade.
O reino do bem vai se instalando no seio da humanidade, ainda que de maneira imperceptível numa avaliação de poucos anos. O horror ao mal será alcançado um dia.
A lei de ação e reação está a serviço do progresso do Espírito. Essa a verdade que a fé raciocinada entende, obediente e resignada.
A lei de destruição faz parte das leis Divinas. Os flagelos destruidores fazem a humanidade progredir mais depressa, esclarece a questão 837 de “O Livro dos Espíritos”.
Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto, coloca no capitulo XVIII, item 2, do livro “A Gênese”.
E prossegue: nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da habitação guarda relação com o habitante.
Fisicamente, o globo terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado, e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra.
Se no universo infinito estrelas e constelações nascem e morrem, como vêm constatando telescópios potentes como o Hubble, também na Terra a lei de destruição está associada à do progresso, levando tanto o físico como o humano a evoluir sempre.
Por isso mesmo, sabendo que a qualquer momento podemos “ser chamados” para o lado de lá, procuremos investir sempre mais e melhor no nosso desenvolvimento espiritual e moral.
Pensem nisso!
Um grande abraço. Cuidem-se.
Enoque A Rodrigues


56818
Por Enoque Alves - 2/4/2010 16:15:27
EVOLUIR SEMPRE
Calor escaldante em alguns países, frio intenso em outros, inundações, terremotos, levam o ser humano a perguntar: “Por que tudo isso?”. “Onde está a bondade Divina?”
Em fatos isolados ou não, o acaso não existe. Tudo tem a sua razão de ser.
De um lado, a evolução do Espírito, que é imortal. De outro, a da sua morada.
Os Espíritos que habitam a Terra são, na sua grande maioria, seres em desenvolvimento e aprendizado básico frente às leis imutáveis do Criador, especialmente do ponto de vista moral.
Nosso Planeta é um corpo celeste relativamente novo, cuja “maturidade” vai se fazendo aos poucos, obedecendo as leis da física, que são também obra da Providência Divina.
Estagiar alternadamente nos dois planos da vida é necessário: “nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei”.
Provas e expiações fazem parte desse contexto, tanto as individuais como as coletivas.
Diariamente, a cada hora, a cada minuto, muitos milhares de pessoas desencarnam no mundo inteiro. Poucos tomam conhecimento e se comovem, lembrando a fugacidade da existência material e a importância de valorizar os talentos da alma.
As grandes calamidades, tem a ver com o determinismo do Alto, que age nos fatos, e servem, também, para nos sensibilizar promovendo a solidariedade.
O reino do bem vai se instalando no seio da humanidade, ainda que de maneira imperceptível numa avaliação de poucos anos. O horror ao mal será alcançado um dia.
A lei de ação e reação está a serviço do progresso do Espírito. Essa a verdade que a fé raciocinada entende, obediente e resignada.
A lei de destruição faz parte das leis Divinas. Os flagelos destruidores fazem a humanidade progredir mais depressa, esclarece a questão 837 de “O Livro dos Espíritos”.
Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto, coloca no capitulo XVIII, item 2, do livro “A Gênese”.
E prossegue: nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da habitação guarda relação com o habitante.
Fisicamente, o globo terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado, e que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e mais produtiva a terra.
Se no universo infinito estrelas e constelações nascem e morrem, como vêm constatando telescópios potentes como o Hubble, também na Terra a lei de destruição está associada à do progresso, levando tanto o físico como o humano a evoluir sempre.
Por isso mesmo, sabendo que a qualquer momento podemos “ser chamados” para o lado de lá, procuremos investir sempre mais e melhor no nosso desenvolvimento espiritual e moral.
Pensem nisso!
Um grande abraço. Cuidem-se.
Enoque A Rodrigues



56622
Por Enoque Alves - 27/3/2010 10:29:42
FATOS E PERSONAGENS DO ANTIGO BREJO DAS ALMAS – PARTE 2

Belos e longínquos tempos aqueles quando eu, então com treze anos, ia passar férias na Fazenda “Terra Branca”, propriedade de meu avô, que fica no Município de Francisco Sá, ou Brejo das Almas. Quando se falava em ir “pro brejo”, a impressão que se tinha naquela época era a de que se estaria partindo para o outro lado do Mundo. Apesar de hoje se percorrer a mesma distância em poucos minutos, antes eram poucos os meios de transporte sendo os mais usuais o cavalo, bicicleta ou os próprios pés, o que tornava a viagem até o Brejo um périplo. Só que assim como hoje, valia muitíssimo a pena “ir pto Brejo“. Uma vez lá, não se tinha mais vontade de voltar. Tantas eram as novidades e diversões que a Cidade oferecia. Talvez tenha surgido ai o dito popular que diz “que a vaca foi pro brejo”. Certamente que se ela não ficou atolada no meio do caminho, ficou no “Brejo” para todo o sempre, amém. A viagem antes era muito divertida. Se cruzava rios, densas matas, plantações infindáveis de milho, arroz, alho, cana e outras culturas da região, sendo a principal delas o alho, pois naqueles belíssimos tempos “Brejo das Almas” ou Francisco Sá, “beldade do norte de minas” era considerada a “capital do alho”. Alguém ai do outro lado se lembra disso? Pois, é.
Antes de arriar o cavalo e partir rumo ao “Brejo”, havia todo um ritual: Minha Santa “Dindinha” – avó -, (que Deus a tenha em sua Santa Glória), ajoelhava-se ao chão e rezava pedindo a Deus que me protegesse durante toda a viagem. Que guiasse os meus passos. Que iluminasse os meus caminhos. Era como se eu estivesse indo para uma guerra! Depois da reza, fazia-me um rosário de recomendações: Noquinho, meu filho, tenha muito cuidado ao atravessar a “pinguela” do rio que liga nossas terras a Fazenda Minas Novas de seu tio Julio e de sua tia Cota! Você pode escorregar e cair. As águas estão subindo muito! Houve enchentes na cabeceira! Cuidado com cobras pelo caminho! Elas estão saindo da plantação de arroz, na “vazante”. Muita atenção com as vacas ao passar pela Fazenda de “Sinhozão”. Fiquei sabendo que ele tem muitas vacas parideiras com muitas crias novas e você sabe que elas ficam “brabas” quando alguém se aproxima delas nesse estado. Antes de chegar ao povoado de “Vaca Morta”, cuidado com as abelhas “oropa” que estão infestando aqueles pés de “anjico”, É que estamos na época da florada das laranjas e elas aproveitam para ir até o laranjal sugar o néctar das flores e numa dessas pode picar você!.. Ao passar pelo povoado de “Vaca Morta”, não pare naquele boteco que está na beira da estrada. Lá tem “um trem” chamado “pinga do Sertão” que os homens muito apreciam, mais é só ela entrar pela boca que os “juízo sai pelas zoreias”. Se eles lhe oferecerem, Noquinho, não aceite! Isso pode “viciar você”. -Talvez, ou quem sabe, com toda certeza, seja por isso, que jamais pus qualquer bebida alcoólica na boca-. Santas palavras de minha amada Dinhinha, que prosseguia... Quando passar por Cana Brava, leve meu abraço a irmã Maria de Guido. Fale pra ela que tenho agora quase 40 galinhas poedeiras. A Dona “Martinha de Seu Jacinto”, fale que Nira, minha filha, tem andado meio doentinha e que peço oração pra ela. Pra Dona “Margarida de Seu Damião”, você fala que a dor que sinto nas costas do reumatismo eu estou aliviando com um tal de “emplasto poroso Sabiá” para ela usar também, para se curar da mesma dor que ela sente desde que teve que forçar pra ter a “Toinha”. Meu Deus... Falando em “Toinha”,como cresceu essa menina! Peguei no colo! Já para o problema de “prisão de ventre”, recomendo para ela tomar bicarbonato. Depois de Deus, é um santo remédio. Diga também pra ela não se esquecer: Quando tiver “arrotando ruim” tomar “ruibarbo”. Sabe, Noquinho, eu acho que esses remédios que estão chegando da Cidade vão acabar substituindo os remédios do mato que temos aqui. Eles já não fazem efeito...
Se em Cana Brava, você encontrar com seu tio “Bimbim”, meu irmão, fala pra ele que nós ainda não descobrimos remédio para acabar com a “papeira dele” mas que “Liberato”, - meu avô - escuta o Edgar de Souza, da Rádio Nacional, todos os dias. Que homem de sorriso gostoso, Noquinho-, e assim que eles descobrirem esse remédio, o Edgar vai contar pra nós e nós contamos pra ele. Diga também que estamos esperando ele para as festas das “cabanas” (meus avós e toda sua família eram adventistas e no mês de Julho costumava-se comemorar esses eventos do Antigo Testamento), cujas festas que duravam uma semana, coincidiam com a moagem das canas no mês de Julho e com os bagaços faziam as tais cabanas onde havia danças, cânticos de louvores a Deus, pregações, batizados, etc. E continuava...Sabe, Noquinho, não quero que você demore muito no “Brejo”, não. Antes de terminar suas férias e voltar para Orion, você tem que descansar bastante, comer muito. Você anda muito fraquinho. Vou fazer umas batidas de cidras – melado de cana quase ao ponto -, para você ficar forte para ajudar seu “pai velho” (avô) no corte da cana em Julho. Lá em Francisco Sá, ou melhor, no “Brejo”, não fique fazendo estripulias. Lá é Cidade Grande e você é matuto daqui dessas matas e não sabe andar nas ruas de lá. Você só tem 13 anos e é bom não ficar na rua até tarde. Fique na Pensão de nossa amiga, a Dona Quinó. É aquela rua onde os ônibus que vem de Salinas, Taiobeiras, Grão Mogol, param. Não tem como você se perder, pois os ônibus ficam bem na frente da casa da Dona Quinó. Entregue para ela esse alforje que está cheio de queijos, farinha de milho, rapaduras, dois litros de melado de cana e dois litros de manteiga! Esse embornal, você leva e entrega para ela com muito cuidado: São ovos de galinha e algumas frutas do conde que ainda não estão muito maduras. Quando você voltar, peça para ela me mandar somente tres litros de “creosene” pra lamparina e dois metros de pavio pra lampião. Não precisa mandar mais aqueles venenos pra espantar muriçocas. Elas não respeitam. Fale que nós estamos usando “estrume seco de vaca” que é bem melhor. Aproveite e passe no Bar do “Seu Neuzão, o Só Cinco” e veja como ele está. Me disseram que ele anda tendo atritos com a esposa. Fale pra ele que estamos orando pela paz no lar dele! Caso você encontre com “Zezim Tocador” diga a ele que antes da moagem das canas Liberato vai mandar trazer ele aqui para fazer a expulsão das cobras do canavial. Mais que ele tem que vir sem a sanfona, pois aqui a nossa cantoria é outra. Se você encontrar com o Prefeito Eurico Pena, fale pra ele que nós ainda não sabemos votar, mais que estamos treinando. Que ele deve ajudar esse “menino careca”, como é mesmo o nome dele? Ah, me lembrei: Feliciano Oliveira. Parece ser muito bom, viu Noquinho? Se você encontrar com algum “Silveira”, Geraldo, Olyntho, Yvonne, diga que Liberato, seu “dindinho”, mesmo não gostando de Política lhes manda lembranças. Caso encontre nas ruas com Rogério Costa Negro, cumprimente, mas não tome o tempo dele. Gente rica não gosta de perder tempo com conversas que não lhes rendem dinheiro. Tome aqui, “duas flores de abóbora”, ou seja, duas notas de mil cruzeiros na época. É para você passar na Loja de tecidos dele, “Casa Branca Costa Negro” pra comprar dois metros de tergal dois metros de brim azul pra eu fazer seu uniforme escolar. Pra seu “dindinho” você traz dois metros de “fazenda” azul com riscas de giz, pra fazer camisa, peça para o vendeiro duas calças “arranca toco”, fala que é para “Seu Liberato” que ele sabe o tamanho. Já para mim peça quatro metros de chita daquelas bem “floradas” para o meu vestido longo das festas das cabanas e quatro metros de “morim” para as anáguas e a combinação. Pra sua Tia “Nira”, dois lenços de cabeça sendo um azul e o outro amarelo. Pra sua Tia “Nana” uma sandália de couro franciscana, três metros de fazenda e uma blusa de xadrez vermelha. Já para sua tia “Catarina”, traga aquele colírio e passe no Joça Sapateiro para ver se já costurou o sapado dela. Se você for pegar o caminhão para ir nadar naquelas águas cristalinas dos dois Riachos, tome muito cuidado. Não gosto que você vá pra lá. Mais você é criança e somente aqui com a gente é que você pode aproveitar. Falando nisso, se você passar próximo do “Bar da Barbina” – sim, naquela época em toda e qualquer esquina do “Brejo” havia um bar -, diga pra ela que o “Elpidio”, seu conhecido, esteve aqui em Terra Branca, outro dia querendo comprar uma faixa de terra de Liberato. Mas não deu. Ele ofereceu muito pouco capital.
Quando você voltar, Noquinho, atenção: Isso você não pode nem pensar em esquecer! Passe na “Casa Amarela”, fica na saída para Montes Claros. Se você não souber ir lá, peça para a Dona Quino te levar. Lá eles fazem uns doces de leite dos deuses! Vê se eles lhe passam a receita desses doces! Se você conseguir você vai ter doce por aqui todos os dias!
Bem Noquinho, já tomei muito o seu tempo com minhas recomendações, mais você sabe, né meu filho! É importante! A “Dindinha aqui te ama”! Vá com Deus!
-Lencinho acenando...Inté!-
Um grande abraço, amigos brejeiros. Meus conterrâneos!!!
Enoque A Rodrigues.


55820
Por Enoque Alves - 6/3/2010 20:28:55
UM POUCO DE CHICO XAVIER – Por Enoque A Rodrigues

No próximo dia 2 de Abril de 2010, nosso querido Francisco Cândido Xavier estará completando 100 anos de sua última reencarnação entre nós.
Nascido em Pedro Leopoldo, pequena Cidade de Minas Gerais, aos 5 anos perdeu a mãe, Dona Maria João de Deus, uma lavadeira, tendo seu pai um vendedor de bilhetes de loteria, Sr. João Cândido Xavier, contraído novas núpcias, em 1917, com Cidália Batista, em 1917. A partir daí, se a vida de menino pobre, raquítico já era difícil quando vivia com sua progenitora, agora transformou em um verdadeiro martírio, face os terríveis maus-tratos que Dona Cidália, sua Madrasta lhe causava. A verdade é que o menino Francisco, preparado que fora desde o ventre materno para trilhar pelos caminhos deste mundo de expiações e provas, com paciência, disciplina, perseverança e desapego as coisas materiais, sempre teve seu comportamento e conduta pautados por estes princípios. Mas mesmo assim, como se fora para cumprir um ritual macabro, Dona Cidália sempre o espancava. Mantinha sempre uma vara de marmelo com a qual lhe aplicava as reprimendas imerecidas.
Começa a ouvir vozes, sendo que em várias oportunidades sua Santa Mãezinha lhe aparecia em espírito para lhe recomendar sempre que tivesse paciência. Que fosse um menino obediente. Que do local onde ela estava vivendo poderia vê-lo e que ela não se sentia bem com o sofrimento dele mais que mesmo ele não merecendo tanto sofrimento, isso era necessário e indispensável ao seu crescimento. O menino, claro, não entendia, mas obediente que sempre fora seguia tudo que o espírito de sua mãe lhe orientava.
Em 1919, com apenas 9 anos, começa a trabalhar em uma fábrica de tecidos em sua Cidade e com muita dificuldade, em 1924 termina o curso primário e nunca mais teve oportunidade de voltar a estudar. Em 1925 muda de emprego, trabalhando como auxiliar de cozinha em um Restaurante. Em 1927 em uma sessão espírita vê o espírito de sua mãe que antes lhe aparecia com freqüência o qual lhe orienta estudar as obras de Allan Kardec. Em Junho de 1927 Chico ajuda a fundar o Centro Espírita Luiz Gonzaga e um mês após, em Julho de 1927, psicografa pela primeira vez 17 páginas recebidas de vários espíritos. Em 1928 começa a publicar as mensagens por ele psicografadas no “O Jornal”, do Rio de Janeiro e no “Almanaque de Notícias” de Portugal. Em 1930 é descoberto pelo “O Reformador”, um dos principais jornais do mundo espírita da época, que existe até os dias de hoje. Em 1931 mantém seu primeiro contato com o espírito que viria a ser durante toda sua existência física sem guia e mentor espiritual, Emmanuel, cujo espírito proveniente de várias reencarnações, devido ao seu elevado grau de pureza e envolvido pela luz que emana do infinito de onde provêm os Seres Angélicos, se apresentava sempre em uma cruz fluorescente cuja luz, de tonalidade azul, iluminava a escuridão de seu pequeno quarto de vigília. A parceria de Emmanuel e Chico Xavier rendeu vários livros e inúmeras passagens que ás vezes quando Chico a elas se referia na intimidade parecia tratar-se de diálogo de dois “vivos materializados”, tamanha era a convivência dos dois.
Quando Emmanuel veio a Chico pela primeira vez, disse-lhe que a vida dos dois se fundira na imensidão dos anos e que ele, Emmanuel, a fim de divulgar o Espiritismo, a terceira revelação, tinha recebido do Alto a incumbência de ditar para que Chico escrevesse vários livros. Que tinham muitos projetos a executar. Surpreso, Chico quis lembrar aquele espírito que sua paupérrima cultura, apenas o curso primário mal feito, não lhe permitia pensar tão alto e que ele, o espírito certamente se decepcionaria com sua parca inteligência. Emmanuel, bondoso, lhe recomendou não se preocupar com isso, pois os livros viriam naturalmente. Que ele, Chico, no entanto deveria seguir três conselhos. Perguntado quais eram Emmanuel lhe respondeu 1º disciplina. 2º disciplina e 3º disciplina...
Em 1932 Chico publica o primeiro livro “Parnaso de Além Túmulo”, com 59 poemas recebidos pela psicografia, de 14 renomados espíritos poetas como Castro Alves, Olavo Bilac e outros. Em 1935 passa a trabalhar na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura de Pedro Leopoldo e em 1939 começa a psicografar as obras do Escritor Humberto de Campos e no mesmo ano lança “Crônicas de Além Túmulo”, com textos do escritor. Alguns anos depois devido a grande originalidade destas obras que Chico recebia do espírito de Humberto de Campos, houve problemas de interesses por direitos autorais por parte da viúva do mesmo, obrigando Chico a mudar o pseudônimo do espírito autor das psicografias dos livros que ditava para “Irmão X”.
Em 1944 publica “Nosso Lar” ditado pelo Espírito de André Luiz, que em outras encarnações fora médico no Rio de Janeiro, tanto que são incontestáveis a literatura cientifica tratada nestes livros, exceto alguns que retratam com riqueza de pormenores a vida além da morte, de cidades com ruas, avenidas, hospitais, ministérios ou seja, toda a mesma infra estrutura que aqui dispomos, lá no mundo invisível. Em 1959, com problemas familiares e com a saúde abalada, muda-se para Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde passaria toda sua vida de amor, dedicação e solidariedade aos menos favorecidos. Lá, tive a graça e oportunidade de conhece-lo mantendo com o mesmo um pequeno e esporádico convívio pois naquela época eu trabalhava na construção da usina hidroelétrica de Volta Grande, na divisa de Minas com São Paulo, cuja usina sobre o rio grande, e aos sábados eu quando possível, lá estava.
Em 1965, vai a Washington, EUA, divulgar o espiritismo no exterior. Em 1971 participa do programa de televisão da rede Tupi chamado “Pinga Fogo”, onde é sabatinado pelos mais importantes jornalistas e reportes daquela ocasião, tendo sido ali programa alcançado uma audiência jamais antes conseguida, ou seja, 75%. Em 1975 com base em suas obras a TV Tupi lança a novela de cunho espírita “A Viagem”, onde o próprio Chico Xavier faz uma pequena participação. Em 1979, fato inédito revoluciona o meio Jurídico Brasileiro: Uma carta psicografada por Chico Xavier ajuda a inocentar o jovem José Divino Nunes, da morte de seu melhor amigo da qual estava sendo acusado. Em 1981 é indicado prêmio Nobel da Paz. Em 1985 recebe a visita de Fernando Collor de Mello a candidato a Presidência da Republica e, por razões que até hoje nós, pobres mortais, mesmo espíritas desconhecemos, dá seu apoio à campanha do mesmo. Naquele mesmo ano João Francisco de Deus é julgado inocente do assassinato da esposa, Gleide, com base em cartas psicografadas por Chico Xavier.
Em 1992 um jovem do Paraná pula armado o muro da casa de Chico em Uberaba com a intenção de mata-lo. Foi preso mais Chico mandou solta-lo. Em 1995, muito fraco devido a um enfisema pulmonar, passa a usar cadeiras de rodas e chega a pesar 35 quilos. Em 2000 é eleito o Mineiro do Século em votação promovida pela Rede Globo de Minas. Em 2002, No mesmo instante em que o povo Brasileiro comemorava a conquista da Copa do Mundo, nosso Chico, cumprindo profecia dele próprio, recebida do além, quando dizia que “certamente ele partiria deste mundo em um momento de grande alegria e felicidade para o povo Brasileiro”, dava seu último suspiro em um hospital de Uberaba onde se achava internado já há algum tempo. Muitos viram mais muito poucos entenderam. A televisão mostrou: no exato momento em que Chico desencarnava, dois fachos de luz adentravam as vidraças da janela do quarto do Hospital onde jazia o corpo do Médium. O Kardec Brasileiro.
A você, amigo, espírita ou não, recomendo procurar saber um pouco mais sobre a vida deste grande Brasileiro. Talvez você não tenha tido o mesmo privilégio de conhece-lo quando aqui conosco vivia. Oportunidades certamente não lhes irão faltar. Grandes nomes do cinema Brasileiro estão programando grandes lançamentos ainda neste ano em comemoração aos 100 de Francisco Cândido Xavier, ou Francisco de Paula Cândido, ou ainda Chico Xavier, ou, quem sabe, como ele próprio se auto-intitulava “Cisco de Deus”, em referência a sua insignificância, do alto de sua humildade. Com toda certeza, por mais completos e expressivos que sejam quaisquer filmes, livros ou outra alusão criteriosa a este baluarte do espiritismo no Brasil, ficará aquém do que ele foi em vida. Ou seja, geralmente quando algum autor retrata alguma biografia de figuras expoentes as endeusam, muitas vezes dando-lhes atribuições e qualidades que na verdade em vida não tiveram isso é próprio da facilidade de escrever, pois é mais fácil escrever ou teorizar do que viver. Assim, a vida real de quase todos os biografados fica, em muitos livros, incompatível. Com Chico foi diferente. Por mais que se escreva sobre suas qualidades de pessoa humilde, simples, devoto, disciplina, cordialidade, solidariedade, sintonia com o além, etc., mais se tem por falar e retratar. Há muitas biografias sobre o grande Chico. Talvez eu possua quase todas. Posso afirmar, mesmo tendo tido um convívio pífio com o mesmo, que se somados todos os minutos creio não alcançar nem 6 horas, que jamais existirá qualquer biógrafo capaz de retratar inteiramente sua vida e sua obra.
Vejam algumas marcas deste GIGANTE:
451 livros escritos e publicados. Sendo 39 após sua morte.
50 milhões de exemplares vendidos. Com todos os direitos autorais doados inteiramente à causa espírita. Chico jamais utilizou um centavo sequer do lucro de suas obras. Vivia com uma mísera aposentadoria do INSS cujo tempo de trabalho fechou na Fazenda Modelo.
Seus livros foram vertidos para diversas línguas, como: Inglês, Espanhol, Japonês, Esperanto, Italiano, Russo, Romeno, Mandarim, Sueco, etc.
Dezenas de Espíritos desencarnados há muitíssimos anos falaram ou enviaram mensagens aos seus entes queridos através de suas mãos e voz.
Psicografou aproximadamente 10 mil cartas de mortos para suas famílias.
Pelo seu testemunho, dobrou os Centros Espíritas no Brasil que antes eram de 8 mil e quando morreu em 2002 já eram 16 mil.
O número de nós, espíritas, na década de 50 era insignificante. Hoje somos declaradamente 2,3 milhões e se somarmos todos os que estão de certa forma, ligados ao espiritismo seremos quase 20 milhões de almas.
Pensem nisso, amigos!
Um grande abraço. Fiquem em Paz. Que Deus esteja com vocês!
Enoque A Rodrigues.




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Luiz de Paula
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